João Pascácio Cosmander e o assalto a Olivença (18 de Junho de 1648)

olivenca

Joannes Cieremans, mais conhecido em Portugal como João Pascácio Cosmander, nasceu em Hertogenbosh (Países Baixos) em 7 de Abril de 1602 e morreu em Olivença em 18 de Junho de 1648. Padre da Companhia de Jesus, notável matemático e engenheiro militar, fez parte do grupo de arquitectos e engenheiros estrangeiros contratados no início da Guerra da Restauração para fortificar as praças de guerra da fronteira e da orla marítima. A Cosmander se devem, entre outros trabalhos, o forte de Santa Luzia em Elvas, o de São Tiago em Sesimbra, a fortificação da praça de Juromenha e vários melhoramentos das defesas de Olivença.

Numa época em que as fidelidades mercenárias dependiam da boa recompensa em metal sonante pelos serviços prestados, de preferência dispensada com pontual regularidade (condição muito difícil de cumprir, dadas as dificuldades financeiras da Coroa), era natural que alguém com o talento e o saber de Cosmander fosse tentado pelo inimigo a trocar de campo. A ocasião – muito provavelmente premeditada e planeada pelos espanhóis, com recurso à espionagem – proporcionou-se em Outubro de 1647, quando o engenheiro regressava de uma das suas frequentes deslocações a Lisboa. Perto da Fonte dos Sapateiros, a cerca de duas léguas (10 Km) de Elvas, saiu-lhe ao caminho uma pequena força de cavalaria espanhola – apenas uma dezena de cavaleiros comandados por um alferes – que o levou prisioneiro e a um criado seu para Badajoz. Conduzido mais tarde a Madrid, à presença de Filipe IV, foi convidado a entrar ao serviço deste soberano, proposta que acabou por aceitar. A selar o novo compromisso de fidelidade, Cosmander traçou um plano para a conquista da praça de Olivença, que muito bem conhecia.

Na madrugada de 18 Junho de 1648, João Pascácio Cosmander intentou tomar de assalto o seu objectivo com uma força de 1.000 infantes e cavaleiros. A acção é referida em muitos documentos dispersos, mas a descrição mais colorida deve-se ao então soldado de cavalaria Mateus Rodrigues, que passo a transcrever, com a devida adaptação para português corrente:

“(…) Quando vinha já amanhecendo (…) já ele [Cosmander] estava à roda da vila, e para melhor dizer dentro dela, e a ordem e modo como entrou foi assim como os castelhanos iam passando por umas hortas que chamam da Rala, onde havia muitos hortelões, e assim como viram os castelhanos lhe não pareceram homens, senão porcos, e como as hortas estavam mui cheias de hortaliça naquele tempo, tomaram paus nas mãos para ir a botar os castelhanos fora dizendo «Valha o diabo! Quem trouxe aqui tanto porco, donde veio isto?». E os castelhanos mui calados, marchando para a vila, e averbando com a muralha se meteram dentro por escadas, e mais estando a muralha com suas sentinelas nossas, mas quando a nossa gente se começou a alvoroçar e a gritar «Armas! Armas!», já o inimigo estava [com] muita (…) da sua infantaria dentro da vila. E no Rossio de Santo António [já] estava um batalhão de 1.000 infantes formados (…), [que] por um buraco que na muralha estava (…) [tinha entrado] uma manga de castelhanos, todos aventureiros e gente escolhida. De modo que ainda estava toda a gente da vila na cama , e muitos (…) tinham por parvoíce o dizerem que estava o inimigo dentro da vila. Logo começaram a ir-se levantando todos muito depressa, uns mal calçados e mal vestidos, e a gente de cavalo acudindo, uns em sela, outros em osso, que havia uma notável confusão da vila em ver já o inimigo dentro sem lhe poderem valer (…). E a tudo isto o Cosmander andava lá fora da vila dando ordem para meter a sua cavalaria dentro (…), e foi buscar um petardo para ele mesmo lhe pôr fogo às portas, para que entrasse a sua cavalaria, e assim como o trouxe para junto da porta, já neste tempo a nossa trincheira tinha muita gente defendendo (…). De modo que tanto que Cosmander veio com o petardo para as portas, sem se lhe dar das balas que neste tempo choviam da muralha, e ele só, trazendo o petardo às portas sem se lhe dar de nada, e a sua cavalaria toda já à vista esperando que ele botasse as portas dentro para virem entrar, mas tanto que ele se veio arrimando às portas, começaram da muralha bradando todos «Eis ali Cosmander! Eis ali Cosmander!». Mas apenas (…) o nomearam, já ele estava estirado no chão com uma bala, que estava na trincheira um carpinteiro com uma espingarda nas mãos, (…) [que] assim como o viu, já o tinha aviado, ao qual carpinteiro fez El-Rei mercê.

Assim como o inimigo viu este homem morto, parece que se acabou o seu encantamento, que não houve mais castelhano que pegasse em arma senão tratar cada um de fugir mais. Os que estavam fora logo se retiraram a bom passo e os que estavam dentro levaram tal esfrega que não sabiam por onde se meterem. (…) O batalhão que estava já no terreiro de Santo António (…) [foi atacado e ficou] em breves horas em miserável estado, que como não tinham já outro remédio se metiam pelas casas e se escondiam por debaixo das camas (…). É certo que não escaparam nem 50 homens dele.”

Uma “esfrega”, é certo, mas como em outras partes das suas memórias, Mateus Rodrigues deixou-se levar pelo exagero dos números. Segundo a carta enviada no dia seguinte a D. João IV pelo governador das armas do Alentejo, Martim Afonso de Melo, foram apenas 300 os soldados inimigos que conseguiram entrar na praça, dos quais 154 foram mortos e 35 feridos e capturados, entre os quais 3 capitães. Quanto aos portugueses, sofreram menos de 20 baixas, mas entre estas contaram-se o mestre de campo D. António Ortiz, morto, e o governador militar da vila, D. João de Meneses, gravemente ferido.

Assim se finou João Pascácio Cosmander, com uma bala ajustada por um carpinteiro. Conforme referiu Mateus Rodrigues, e nisso é corroborado por outros documentos, o engenheiro jesuíta bateu-se até ao fim com bravura: tendo falhado o primeiro petardo que colocara na porta, Cosmander voltou atrás, indiferente ao perigo, de modo a colocar um segundo engenho, acção que lhe foi fatal. A interpretação nacionalista dos acontecimentos – não só a do típico nacionalismo restauracionista da época, como a do nacionalismo romântico dos séculos XIX e XX – estigmatizou João Pascácio Cosmander como um traidor que teve o fim merecido. Mas como refere Vítor Serrão, “as dramáticas vicissitudes da sua morte (…) não invalidam o grau de novidade construtiva das empresas militares que gizou e que profundamente alteraram em eficácia e em fisionomia o carácter das linhas defensivas portuguesas” (SERRÃO, Vítor, História da Arte em Portugal – O Barroco, Barcarena, Editorial Presença, 2003).

Bibliografia:

COELHO, P. M. Laranjo, Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV, vol. I, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940.

Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição do códice 3062 [Campanha do Alentejo (1641-1654)] da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Lisboa, Arquivo Histórico Militar, 1952 (1ª divisão, 2ª secção, caixa 3, nº 2), pgs. 179-185.

Gravura: Planta de Olivença, in La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII. Originalmente tinha incluído neste artigo um suposto retrato do Padre João Cosmander. Na verdade, não se tratava de Cosmander, mas de um outro padre jesuíta, o sueco Brott, conforme esclareceu o Dr. Edwin Paar no comentário 3 deste artigo.

16 pensamentos em “João Pascácio Cosmander e o assalto a Olivença (18 de Junho de 1648)

  1. Ante todo le pido disculpas por escribir en español, pero mi portugués es pésimo y no quiero ofender tan bello idioma con mis torpes errores.

    Su blog tiene una calidad excelente tanto en sus conocimientos como en sus fotografías.

    Un cordial saludo.

  2. Muito engraçado esse blogue! Em breve vou estudar em pormenor.
    Porém, pelo menos posso fazer uma correcção: o homem como foi retratado e do que se guarde o quadro no Museu Municipal em Elvas, NÃO é Cosmander! Trata-se de um Jesuíto suéco do nome Brott, como se vê também debaixo do retrato. Gostaria saber quem foi o primeiro a fazer esse erro! Porque foi copiado tantas vezes que toda a gente pensa agora que seja Cosmander que foi retratado.
    Infelizmente, não conheçemos nenhum retrato fiel de Cosmander. Existe um desenho no arquivo de Évora, do que se diz também ser de Cosmander, mas esse desenho foi feito no século XVIII, pois somente pode ser uma cópia de um outro retrato ou uma imagem fantástica.

  3. Muito agradecido pelo seu esclarecimento, caro Edwin. Vou já proceder à correcção do texto da imagem. A respeito de erros repetidos, um muito vulgar é o da data da morte de Cosmander, que surge em muitas enciclopédias como tendo sido a 20 de Junho de 1648, quando de facto sucedeu no dia 18, data do ataque a Olivença.

    Cumprimentos,

    Jorge P. de Freitas

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  6. Pingback: O combate da Atalaia da Terrinha, 5 de Junho de 1647 (4ª parte) « Guerra da Restauração

  7. Pingback: Nicolau de Langres, arquitecto e engenheiro militar « Guerra da Restauração

  8. Enhorabuena por el blog. Le agradezco que incluya imágenes de las publicaciones de 4 Gatos. Ya veo que también mi gran amigo Edwin Paar “aparece” por estas páginas.
    Saludos
    Carlos

  9. Muito obrigado pelo seu comentário, caro Sr. Carlos Sánchez. As magníficas imagens das publicações 4 Gatos são um ponto forte deste blog, pelo interesse histórico e qualidade de impressão. Com a sua permissão, continuarei a incluí-las aqui e a divulgar a sua editora.
    Com os meus agradecimentos e os melhores cumprimentos
    Jorge P. de Freitas

  10. Perdoneme en primer lugar que me comunique con usted en castellano pero mi conocimiento del postugués sólo me permite leer.
    Debo felicitarle por su magnífico trabajo en este blogs del que ya soy un asiduo visitante. Por otro lado estoy estudiando algunos episodios de la Guerra de los que desde luego le daré cuenta.

  11. Caro Sr. Julián Garcia,

    Muito agradeço as suas visitas ao blog e o seu comentário. Fico aguardando novidades sobre os seus estudos de episódios da Guerra.

    Com os melhores cumprimentos,
    Jorge P. de Freitas

  12. Dear Sirs,
    this web page is nearly the only one mentioning Dr.Edwin Paar. /Excuse me, please, I do not speak nor understand Portuguese./ Would you be so kind, to send me an e-mail connection of Dr.Paar.
    Thank you very much in advance. With kind regards, Pavla Pannova

  13. Pingback: As reconduções de soldados desertores – um exemplo de 1648 « Guerra da Restauração

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