O cargo de capitão-mor

2009 Julho 22

002Juromenha

Existe alguma confusão a respeito do cargo de capitão-mor, não sendo raro encontrar em obras publicadas, de divulgação ou mesmo trabalhos académicos de valor, a referência à designação de capitão-mor como posto militar no contexto da Guerra da Restauração. Tê-lo-á sido, mas antes de 1640.

O capitão-mor era o oficial responsável pelo recrutamento, treino e comando de tropas da ordenança numa dada localidade, fosse ela cidade, vila ou aldeia. Quando em 1570 D. Sebastião mandou que houvesse, em cada terra de Portugal, um capitão-mor, a função desempenhada por estes correspondia à de uma patente militar – ou seja, um posto. Segundo o Regimento dos capitães-mores, o capitão-mor seria responsável por uma companhia da ordenança. Em cada comarca haveria também um sargento-mor, a quem caberia o comando superior do conjunto das companhias dessa comarca, organizadas em terço da ordenança. A companhia era a unidade básica administrativa, o terço era uma unidade táctica. O grosso do exército que D. Sebastião objectivava constituir seria composto por elementos recrutados em cada terra pelo respectivo capitão-mor.

Com o passar dos tempos e o surgimento do exército pago, já no período da Guerra da Restauração, o capitão-mor transitou de posto militar para cargo que podia ser desempenhado por militar com qualquer patente, fosse ele do exército pago ou da milícia de ordenança. Esta milícia passou então a ser uma reserva de segunda linha, relegada até para terceira linha, quando em 1646 surgiram os milicianos auxiliares a pé, e em 1650 os auxiliares a cavalo. Não obstante, a capitania-mor manteve o prestígio de tempos anteriores, pois além das já referidas tarefas de recrutamento, treino e comando de tropas da ordenança, implicava também as funções de governo militar da localidade (caso não existisse um governador especificamente designado por entidades superiores). Em algumas terras esse governo podia caber a um sargento-mor (da ordenança), embora as funções primordiais deste fossem eminentemente militares.

Compreenderemos melhor o caso das capitanias-mores se virmos a listagem dos indivíduos que em 1646 desempenhavam tarefas de governo militar nas várias localidades no Alentejo. Encontramos nessa lista capitães-mores, sargentos-mores e governadores de praça propriamente ditos. O soldo que auferiam dizia respeito à patente militar que tinham (ou que passaram a ter) na altura da nomeação para o cargo. Vejamos:

Cargo                            Localidade           Nome                                                        Soldo (em réis)

Capitão-mor               Elvas                           Manuel Freire de Andrade                23.200, como mestre de campo

Capitão-mor               Vila Viçosa              Luís Mendes de Vasconcelos            16.000, como capitão de cavalos

Capitão-mor               Estremoz                  Luís da Lomba de Araújo                   16.000, como capitão de cavalos

Sargento-mor            Campo Maior          Rogier Amodio                                       13.000, como sargento-mor de terço

Capitão-mor              Mourão                      Manuel Rodrigues Raposo                 8.000, como capitão de infantaria

Sargento-mor (a)    Mourão                      Filipe de Matos Cotrim                         13.000, como sargento-mor de terço

Capitão-mor              Moura                        D. Henrique Henriques                         16.000, como capitão de cavalos

Capitão-mor (b)       Alconchel                D. Francisco de Sousa                            24.000

Governador              Vila Nova (c)          Domingos da Silva                                    16.000, como capitão de infantaria (d)

Capitão-mor             Safara                        Manuel Gomes Pereira                            8.000, como capitão de infantaria

Capitão-mor             Noudar                     António Mendes da Silva                       8.000, como capitão de infantaria

Sargento-mor          Serpa                         Manuel de Barros Castelo Branco      13.000, como sargento-mor de terço

Capitão-mor            Mértola                     Belchior Lobato da Costa                      13.000, como sargento-mor de terço

Capitão-mor            Beja                            Gomes Freire de Andrade                     16.000, como capitão de cavalos

Capitão-mor            Arronches              Gonçalo de Mesquita Pimentel            8.000, como capitão de infantaria

Capitão-mor           Alegrete                   João Vieira de Araújo                             8.000, como capitão de infantaria

Capitão-mor           Marvão                    João de Mesquita Pimentel                   8.000, como capitão de infantaria

Capitão-mor          Montalvão              Manuel Álvares                                           8.000, como capitão de infantaria

Capitão-mor          Nisa                           Francisco Velho Coutinho                      8.000, como capitão de infantaria

Capitão-mor          Juromenha            Baltasar Teles Coelho                                8.000, como capitão de infantaria

Notas:

(a) Incluía a tenência do castelo de Mourão.

(b) Acumulava com o governo da vila (explicitamente declarado).

(c) Vila Nova de Portugal, como se passou a designar Villanueva del Fresno após a tomada daquela localidade pelos portugueses durante a campanha de 1643.

(d) Soldo pago por inteiro e não apenas a metade, ao contrário do que era norma. Domingos da Silva era governador interino, enquanto o Rei não nomeasse outra pessoa para o governo daquela localidade. Antes de ocupar o cargo, Domingos da Silva era ajudante de tenente de mestre de campo general.

Como se pode verificar, o cargo de capitão-mor podia ser desempenhado por militares de variadas patentes. Num outro documento, respeitante à província da Beira e datado de 1663, é possível encontrar militares propostos (os quais seriam todos nomeados) para capitanias-mores cuja proveniência era igualmente diversa:

Para Castelo Rodrigo, o tenente de mestre de campo general António Ferreira Ferrão, que recebeu a patente e o soldo de mestre de campo.

Para Castelo Bom, o capitão de infantaria (pago) António de Figueiredo, um veterano do exército da monarquia dual na Flandres.

Para Segura, um Diogo Freire, que era capitão-mor de Idanha, mas que se dava muito mal com a população dessa localidade.

Fontes: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, maço 6, nº 303; e maço 23, consulta de 18 de Janeiro de 1663.

Imagem: Fortaleza de Juromenha. Foto de J. P. Freitas.

Ainda sem comentários

Deixar uma Resposta

Note: You can use basic XHTML in your comments. Your email address will never be published.

Subscrever o feed deste comentário por RSS