Categorias militares do exército português

Piqueiro

O exército português reconstruído após o rompimento da monarquia dual em 1640 compreendia duas categorias militares:

a) Os militares pagos. Estando sujeitos a prestação de serviço militar todos os homens válidos do reino entre os 15 e os 60 anos, salvo isenção relacionada com a actividade profissional ou outra particular, eram recrutados como soldados pagos para o exército profissional os filhos segundos ou aqueles que não tivessem a seu cargo quaisquer dependentes. Inicialmente eram chamados apenas os homens solteiros, mas ainda na década de 40 começaram a ser admitidos os casados. As levas eram efectuadas de tempos a tempos, quase sempre por pessoas de categoria elevada na hierarquia sociomilitar, sendo os abusos e desrespeito pela legislação frequentes. Os soldados pagos começaram por servir por um período indeterminado (na prática, para sempre), mas a partir de 1654 ficou estabelecido que deviam servir continuamente durante 8 anos, findos os quais poderiam regressar a suas casas. Nos anos 40 e primeira metade da década de 50, entre os militares que constituíam as forças pagas contavam-se muitos veteranos das guerras no Império ultramarino português, com destaque para o Brasil, ou que haviam servido nas campanhas europeias integrados no exército espanhol ou no dos seus aliados do Sacro Império.

b) Os milicianos, categoria que compreendia a ordenança e os auxiliares. Esta segunda força miliciana foi constituída em 1646 para a infantaria e somente em 1650 para a cavalaria. Na ordenança eram obrigatoriamente alistados todos os homens válidos entre os 15 e os 60 anos que não fossem recrutáveis como soldados pagos, sendo organizados em companhias (uma ou mais companhias de infantaria por comarca, havendo também algumas de cavalaria). Parte da gente da ordenança passou a servir nos auxiliares quando esta força foi criada (um terço e uma companhia de cavalaria em cada comarca). Em teoria, apenas os milicianos  auxiliares deviam prestar serviço nas fronteiras de guerra, pois para isso tinham privilégios semelhantes aos dos soldados pagos. A partir de 1657 passaram a receber metade do soldo que se pagava áqueles, quando partiam em campanha. Todavia, não era raro encontrar unidades da ordenança empregues em guerra viva, mesmo depois de 1646 e até fora da província de origem. Havia ainda uma subcategoria da ordenança, a dos volantes, que era composta por gente escolhida e que se destinava a formar unidades itinerantes. Com o surgimento dos auxiliares, estas unidades tornaram-se mais raras.

 Foto: piqueiro português do início da guerra, armado com pique e protegido por couraça composta por peito, espaldar e escarcelas, além do característico morrião. Apenas uma pequena parte dos piqueiros usava este equipamento defensivo. Os restantes não tinham qualquer tipo de protecção para o corpo, sendo designados por piques secos. Figurino do Museu Militar de Elvas.

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10 thoughts on “Categorias militares do exército português

  1. Pingback: Cavalaria da ordenança da província da Beira (1650) « Guerra da Restauração

  2. Bom dia,

    Encontrei o seu site por acaso, e é mesmo muito interessante !!!

    Eu não conheço nada sobre o exército português, e gostava de um esclarecimento sobre os auxiliares. Eram mesmo soldados todo o ano, ou exerciam outras actividades e só trainavam e tornavam-se soldados quando eram precisos ?
    É que descobri um antepassado meu que era ajudante do Terço dos Auxiliares de Viseu (por volta de 1750 até 1793), mas ainda não compreendi bem qual era sua função… Sei que a data é mais tardia do que o periodo que você trata aqui, mas se me pudesse esclarecer, seria-lhe imensamente grata.

  3. Pingback: Os números de 2010 « Guerra da Restauração

  4. Caro Jorge Freitas,

    Li com atenção este artigo, mas continuo com uma dúvida que tenho há bastante tempo.
    Se pelo menos em teoria todos os homens entre 15 e 60 anos pertenciam ao exército regular ou milícias, quem eram afinal os “paisanos”? Somente os que tinham menos de 15 ou mais de 60 anos? Somente os que estavam isentes do serviço militar, pelas razões que apontou? Saber-me-á dizer também se neste termo estavam incluídas as mulheres ou o clero?

    Cumprimentos,
    Edgar Cavaco

    • Caro Edgar Cavaco

      Muito obrigado pelo comentário.
      Na verdade, os limites de idade reportados correspondem aos homens recrutáveis. Não havia propriamente um recenseamento militar geral, no sentido que teria séculos mais tarde. Qualquer indivíduo entre os 15 e os 60 anos, em teoria, poderia ser chamado a pegar em armas, mas nesse universo havia muitas excepções, umas devido à profissão desempenhada, outras de cariz particular. Por paisano entende-se qualquer indivíduo do 3º Estado que não estivesse a servir, num dado momento, em nenhuma das categorias militares (pagos ou da milícia de auxiliares ou da ordenança) – um civil, em senso lato, cuja actividade estava ligada à agricultura ou pecuária. Mas mesmo assim, poderia dar-se o caso de um paisano ser um membro da ordenança ou de auxiliares que num dado momento não estivesse destacado para servir com a sua unidade e se dedicasse às actividades normais da vida civil.
      É claro que, num senso ainda mais lato, entende-se por paisano o habitante do meio rural, não militar.

      Espero ter ajudado a dissipar a sua dúvida.
      Com os melhores cumprimentos

      Jorge Freitas

      • Caro Jorge Freitas:

        Agradeço o esclarecimento, nomeadamente por expor os vários significados do termo “paisano”, que era onde residia a minha dificuldade, pois já tinha visto o termo em vários contextos e com sentidos algo ambíguos.

        Como referiu que existiam isenções a indivíduos cuja actividade estivesse ligada à agricultura ou pecuária, lembrei-me de uma coisa, que já agora aqui acrescento: referiu Constantino Botelho de Lacerda Lobo na sua Memória sobre a decadência das pescarias em Portugal (publicada em 1812), que, entre outros privilégios com que os monarcas portugueses tinham beneficiado os marítimos algarvios, “todos os pilotos, mestres, arrais, marinheiros, pescadores, mareantes, calafates, carpinteiros, etc., são escusos de todo o serviço do mar e terra com toda e qualquer pessoa, salvo a do Rei ou Príncipe fora das suas cidades”.

        Novamente agradecido,
        Cumprimentos de Edgar Cavaco

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