Organização do exército português (1) – Infantaria: a estrutura dos terços

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A grande unidade administrativa para a infantaria era o terço, designação de origem espanhola (tercio) que remonta ao século XVI. Correspondia ao regimento, termo então em uso em vários exércitos da Europa central e do norte: agrupamento de várias companhias, cujo comando era atribuído a um coronel. Em Portugal, os termos regimento e coronel, na infantaria, só eram aplicados por tradição às unidades da ordenança de Lisboa. O terço era comandado por um mestre de campo, coadjuvado por um sargento mor, a quem competia a parte técnica.

1. A organização segundo a proposta das Ordenanças Militares de 1643 

Segundo o preconizado no projecto de Ordenanças Militares (regulamento – não confundir com a categoria militar das ordenanças) de 1643, cada terço devia constar de 1.500 homens, compondo-se de uma primeira plana (Estado-Maior, com o mestre de campo, o sargento-mor, dois ajudantes e um tambor mor) e de 12 companhias a 125 homens. Cada companhia, para além da respectiva primeira plana (capitão, alferes, abandeirado, capelão, dois sargentos, dois tambores e um pífaro), compreendia 40 piqueiros, 60 mosqueteiros e 25 arcabuzeiros, distribuídos por 5 esquadras, cada uma comandada por um cabo de esquadra. O mestre de campo comandava a primeira companhia, a qual não tinha, por isso, capitão – todavia, o comando efectivo era sempre delegado no alferes. No total, haveria num terço 480 piqueiros (32% do efectivo), 720 mosqueteiros (48%) e 300 arcabuzeiros (20%). Esta era a dotação preconizada pela proposta de regulamento de 1643 que, embora nunca tivesse passado do rascunho, reflectia a prática organizativa então vigente. Note-se que os efectivos globais apontados não contemplavam os elementos das primeiras planas. Contudo, entre o idealizado no papel e o que tomava forma no terreno existiam várias discrepâncias.

2. A organização segundo as listas existentes nas unidades

Uma das divergências mais evidentes  era no número de companhias, na verdade já fixadas em 10 por terço ainda antes da proposta de Ordenanças Militares ter sido elaborada. Ocasionalmente era possível encontrar terços com um número de companhias superior ao estipulado (12 e 13, por exemplo), em virtude da agregação de companhias soltas, mas os decretos do Conselho de Guerra são peremptórios na imposição do máximo de 10 companhias.

Segundo organizações detalhadas de 1645 e 1646, cada terço compreendia uma primeira plana com 8 elementos: mestre de campo, sargento-mor, dois ajudantes do número, um ajudante supranumerário, um tambor-mor, um cirurgião e um capelão (estes dois últimos elementos, porém, nem sempre estavam presentes, dada a falta de pessoas que servissem como cirurgiões e capelães militares). A primeira companhia (a do mestre de campo) tinha 5 elementos na primeira plana: um alferes, um sargento, um abandeirado (não se tratava de um oficial, mas de um pagem do alferes, cuja função era transportar a bandeira da companhia quando o alferes estivesse ocupado com outra tarefa – o seu estatuto e pagamento era inferior ao de um soldado) e dois tambores; as restantes 9 companhias tinham, cada uma, 7 elementos na primeira plana: os mesmos acima referidos, mais o capitão (comandante da unidade) e um pagem de gineta, que carregava o espontão (gineta) que era a insígnia do posto do capitão, quando este oficial estava ocupado nas funções de comando da companhia; ao contrário do abandeirado, o pagem de gineta recebia a mesma paga que um soldado. As 10 companhias do terço tinham 4 cabos de esquadra e 96 soldados cada. O total perfazia 76 elementos das primeiras planas do terço e das companhias, e no conjunto das companhias 40 cabos de esquadra e 960 soldados – 1.076 elementos no total de um terço. Não havia diferenças entre a estrutura interna de um terço de tropas pagas e um terço de auxiliares.

Esta era a organização efectiva, de acordo com as listas emanadas dos comandos provinciais. No entanto, podia haver ocasionalmente algumas diferenças entre províncias, sobretudo no número de indivíduos pertencentes à primeira plana dos terços. Ainda assim, estas listas destinavam-se ao cálculo das despesas para efeitos de pagamento das tropas, pelo que apenas faziam referência aos efectivos completos. A realidade que transparece de outras listas – as que eram elaboradas nas ocasiões das mostras, quando se contavam os efectivos reais, ou quando se fazia o levantamento do material de guerra existente – era muito menos uniforme. Mas aí estamos já a entrar numa outra esfera, a do atrito provocado pela guerra sobre a estrutura dos terços. Será um tema a tratar proximamente, quando passarmos em revista a composição e o material de guerra de que dispunha cada companhia, de acordo com os registos de certidões de armas de que cada oficial tinha de dar conta quando entrava e saía do comando da unidade. É que, se o terço era a grande unidade administrativa para a infantaria no que tocava a pagamentos, já para o material de guerra toda a administração se efectuava tendo por base a companhia. Tais documentos, ainda que parciais, permitem estabelecer, por exemplo, a relação entre os soldados munidos de armas de fogo e os que estavam equipados com piques por companhia.

Bibliografia de base para o estudo da organização da infantaria portuguesa e espanhola nos séculos XVI e XVII:

MATOS, Gastão de Melo de, Notícias do têrço da Armada Real (1618-1707), separata dos Anais do Club Militar Naval, Lisboa, Imprensa da Armada, 1932.

QUATREFAGES, René, Los Tercios, Madrid, Servicio de Publicaciones del Estado Mayor del Ejército, 1983.

 

Foto: Combate entre piqueiros – reconstituição histórica da Guerra Civil Inglesa; foto do autor.

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6 thoughts on “Organização do exército português (1) – Infantaria: a estrutura dos terços

  1. Pingback: Organização do exército português (2) - Infantaria: o equipamento das companhias « Guerra da Restauração

  2. Caro Jorge Freitas,

    Meu nome é Wolfgang, sou brasileiro de São Paulo, e escrevo atualmente miha tese de doutoramento sobre o presídio de Salvador durante as guerras holandesas no Brasil. Uso muito do seu material, e pude trazer Lisboa ano passado uma cópia do “Combatente durante a Guerra de Restauração”.

    Permita-me, por favor, uma dúvida: qual é a diferença entre o ajudante do número e o ajudante supranumerário?

    Abraço,

    -Wolfgang.

  3. Caro Wolfgang,

    Os ajudantes de sargento-mor tinham entre eles uma hierarquia (o ajudante do número precedia o supranumerário – ambos podiam ser promovidos àquele posto a partir de alferes, mas de “supranumerário” também se podia ascender a “ajudante do número”). Curiosamente, esta hierarquia não existia nos outros postos de “oficiais colaterais” quando existiam dois indivíduos com a mesma patente – caso, por exemplo, dos dois tenentes de mestre de campo general, que estavam sempre em pé de igualdade, não havendo um mais importante do que o outro.
    As funções dos dois ajudantes de sargento-mor eram idênticas – para além de distribuírem as ordens do sargento-mor, auxiliavam-no na formação do esquadrão e das suas diversas componentes (batalha de piques, mangas, guarnições). Conforme se pode ler na obra de René Quatrefages, Los Tercios, o sargento-mor podia delegar funções nos ajudantes quando estivesse ausente. Presumo que daí tenha surgido a necessidade de se estabelecer uma hierarquia entre ambos, para evitar situações de pouca clareza sobre quem teria a primazia numa situação de emergência em que o sargento-mor estivesse ausente ou incapacitado. Mas ainda não encontrei qualquer documento onde a raiz dessa hierarquização estivesse claramente explicitada.

    Abraço,

    Jorge P. de Freitas

    • Sei que já passaram anos que este comentário foi escrito, mas está-me a moer a cabeça.

      O senhor diz que os ajudantes do número precedem o supranumerario, mas depois diz que o supranumerario pode ascender ao ajudante do número. Preceder significa antes e ascender significa subir, ora neste caso está a dizer que os ajudantes do número são mais baixos que o supranumerario, e que o supranumerario pode subir para ajudante de número, isso não faz sentido, deve ter sido um engano a escrever.

      O Alferes pode ascender para qual dos ajudantes? E qual dos ajudantes ascende para qual?

      • Caro César,

        Penso que não há motivo para confusão. A precedência significa que o ajudante do número era hierarquicamente superior ao ajudante supranumerário – devemos sempre considerar uma leitura de “cima para baixo” e nunca o inverso.
        Quanto aos alferes, eram por vezes promovidos a ajudantes do número.

        Cumprimentos

        Jorge P. Freitas

  4. Pingback: Efectivos dos terços pagos do Alentejo entre os finais de 1660 e os inícios de 1661 « Guerra da Restauração

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