Organização do exército português (2) – Infantaria: o equipamento das companhias

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Além da organização em terços, a infantaria portuguesa também compreendia companhias independentes (soltas, como então se dizia). No exército profissional eram raras e normalmente de curta duração, acabando quase sempre absorvidas por um dos terços existentes. O mesmo sucedia entre a milícia de auxiliares. Já na milícia de ordenanças, a companhia era a estrutura básica de organização, pois os terços eram formados ad hoc, isto é, para uma operação ou uma campanha específica.

Em qualquer dos casos, a organização interna das companhias seguia o previsto no projecto de Ordenanças Militares de 1643 (já aqui referido), que por sua vez reflectia a prática existente nos exércitos português e espanhol. De um modo geral, a proporção entre os soldados atiradores equipados com mosquete (de mecha) ou arcabuz (também de mecha)  e os soldados armados de pique não se afastava muito do que o projecto de 1943 preconizava. Tudo dependia da escassez temporária de determinado tipo de armamento – sobretudo, das armas de fogo – mas, ainda assim, os desvios não eram muito significativos. Os registos de certidões de contas de armas existentes para o período 1647-1654 no Arquivo Histórico Militar mostram que havia, em média, equipamento ofensivo para 90 a 100 soldados por companhia, sendo que a proporção dos mosquetes oscilava entre os 33% (mínimo) e os 49,5% (máximo), a dos arcabuzes entre 20,2% e 32,5%, e a dos piques entre 30,3% e 34,5%.

As companhias da ordenança eram equipadas com arcabuzes e piques, numa proporção de 2 para 1. Mas era possível encontrar companhias totalmente equipadas com arcabuzes. Sendo o mosquete mais pesado do que o arcabuz (e também com maior alcance efectivo, e mais potente), esta arma de fogo era encaminhada preferencialmente para as companhias de tropas pagas.

O equipamento defensivo referido nos registos mostra que o uso de cossoletes compostos por peito e espaldar (ou espaldas, como se dizia na época) era uma raridade entre a infantaria. Só os oficiais e os piqueiros tinham direito a este tipo de protecção, mas as proporções são baixíssimas em relação ao armamento ofensivo existente em cada companhia. Os peitos e espaldares variam entre 0,4% (mínimo) e 7,6% (máximo), os morriões entre 0,4% e 8,3% (e este máximo só é atingido em 1647, sendo cada vez mais escassos nos anos posteriores), as rodelas (escudos redondos utilizados pelos capitães) entre 0,2% e 0,4% e as golas (gorgeiras) entre 0,1% e 0,3%. No caso das rodelas e das golas, o uso exclusivo destas pela oficialidade justifica o reduzido número encontrado nas listas, mas ainda assim eram muito raras. Os capitães podiam optar por combater com pique ou com espada e rodela, ou com mosquete ou arcabuz, se assim preferissem.

O abandono de qualquer protecção metálica para o corpo era uma tendência evidente na infantaria. O Conde da Ericeira refere que cerca de 3.000 cossoletes de infantaria foram adaptados para couraças da cavalaria em 1663, por já não serem usados pelos infantes [História de Portugal Restaurado, 1945-46, vol. IV, pg. 101]. Por outro lado, o uso de couras (coletes ou casacas de couro) pela infantaria dependia da capacidade de cada militar se abastecer – por exemplo, despindo os mortos, feridos e prisioneiros inimigos, principalmente os cavaleiros e os oficiais. Não existe qualquer referência a este tipo de protecção nos registos, pois não era fornecida aos militares por conta da fazenda real.

Outro material que era fornecido e que constava nos registos eram as forquilhas (apoio para os mosquetes), os frascos (polvorinhos) e as bândolas (bandoleira de onde pendiam frasquinhos de madeira contendo o cartucho com a bala e a pólvora necessária para um tiro; normalmente cada bandoleira tinha 12 frasquinhos, daí serem conhecidas em Inglaterra por “doze apóstolos”). Havia forquilhas para mais de metade dos mosquetes, na maior parte dos casos; os frascos chegavam para cerca de 2/3 dos atiradores (os restantes teriam de providenciar os seus próprios polvorinhos ou utilizar o de um camarada, provavelmente); já as bândolas eram mais raras, na maior parte dos casos nem a terça parte dos atiradores as usavam.

Cada companhia tinha uma bandeira e duas caixas de guerra (tambores), mas algumas companhias só dispunham de uma caixa de guerra.

Os vestidos de munição (casaca, camisa, calças e meias), bem como chapéus e sapatos, eram entregues aos soldados uma vez por ano, contra desconto no soldo. Era à vedoria geral do exército de cada província que cabia esta tarefa. As espadas também eram entregues aos soldados pela vedoria, não sendo contabilizadas nos registos das companhias.

A companhia era uma unidade administrativa, não uma unidade táctica. Devido à composição heterogénea das companhias, estas eram desarticuladas quando os terços formavam em esquadrão (formação táctica, também designada por batalhão). Este assunto será tratado em breve.

 Fotos do autor (não mostram forças portuguesas ou espanholas, mas sim tropas inglesas do New Model Army; todavia, o equipamento era muito semelhante em qualquer exército da época): em cima, em primeiro plano, soldados atiradores transportando ao ombro um tipo mais leve de mosquete, o qual dispensava forquilha;  note-se o polvorinho, as bandoleiras com os “doze apóstolos” e a variedade de mochilas (o termo era empregue na época para designar os sacos de lona usados a tiracolo) e bornais, bem como o modo de segurar a mecha (segundo soldado a contar da esquerda); em baixo, piqueiros em marcha, protegidos por cossoletes sem escarcelas e usando morriões; vê-se ainda um sargento com alabarda a fechar a coluna e, mais atrás, um oficial (provavelmente um capitão); ambos usam golas. Reconstituição histórica do período da Guerra Civil Inglesa (conflito contemporâneo da primeira década da Guerra da Restauração),  levada a cabo em Kellmarsh Hall em Agosto de 2007.

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3 thoughts on “Organização do exército português (2) – Infantaria: o equipamento das companhias

  1. Pingback: Ainda os dragões e as razões da sua descontinuidade no exército português « Guerra da Restauração

  2. Bom dia caro Jorge P. de Freitas… Seu blog é simplesmente perfeito !!!

    Sou Brasileiro, e estudante de historia. Basicamente apaixonado por HISTORIA DE PORTUGAL – GUERRA DA RESTAURAÇÃO.

    gostaria de saber quando você diz que o arcabuz era uma arma de mecha se refere a que?
    eu nunca entendi qual era a diferença do arcabuz e do mosquete ( claro todos sabemos que o mosquete substituiu o arcabuz, porem um soldado arcabuzeiro era dez vezes mais equipado que um mosqueteiro e contava com uma couraça de metal em seu peito e o mosqueteiro simplesmente de vestes comuns…

    Outra coisa que adoraria saber, como era a organização da cavalaria pesada portuguesa durante a Guerra da Restauração.

    Muito obrigado e desde já perdoe-me pelas muitas perguntas.

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