Organização do exército português (3) – os tipos de cavalaria

A maioria da cavalaria existente em Portugal durante a Guerra da Restauração era do tipo ligeiro, designada de diversos modos: arcabuzeiros a cavalo, cavalos arcabuzeiros, clavinas, cravinas ou carabinas. Era semelhante à cavalaria mais vulgarmente encontrada na Europa central e ocidental. Os militares estavam equipados ofensivamente com espada, um par de pistolas e uma carabina de fecho de pederneira (e nunca o arcabuz, se bem que a designação tenha sido herdada das origens quinhentistas, quando então, sim, o arcabuz de mecha era a arma utilizada). Defensivamente, usavam peito e espaldar de aço sobre um colete ou casaca de couro (ou só esta última protecção) e um capacete (este termo era utilizado na época, embora o nome mais vulgar fosse murrião), que frequentemente era substituído por um chapéu de aba larga.

A maioria das companhias do exército pago (profissional) era de cavalos arcabuzeiros; as unidades milicianas de auxiliares (criadas a partir de 1650) e da ordenança eram todas deste tipo. Uma hipotética excepção pode ter ocorrido no Reino do Algarve (designação tradicional da província mais meridional de Portugal) durante o primeiro ano da guerra, onde a cavalaria da ordenança poderá ter prolongado por algum tempo o uso de lança e adarga – como se usava ainda nas praças portuguesas do Norte de África -, equipamento registado num arrolamento de efectivos em 1639. Havia ainda companhias milicianas de moradores, cavalos pilhantes ou amunicionadas, que começaram a ser criadas em 1647 – antes dos auxiliares, mas contemporâneas da cavalaria da ordenança. A diferença entre estes cavalos arcabuzeiros milicianos e os restantes é que as suas unidades eram formadas voluntariamente, enquanto os efectivos para a ordenança e os auxiliares eram recrutados compulsoriamente.

A partir de Setembro de 1644, no seguimento da experiência colhida na batalha de Montijo, foi introduzido um outro tipo de cavalaria: os couraceiros (ou cavalos couraças). Estes existiam antes daquela data na designação honorífica no papel (havia companhias de couraceiros, mas sem qualquer diferença no equipamento em relação aos cavalos arcabuzeiros). O seu equipamento ofensivo era semelhante ao da cavalaria ligeira, excepto (em teoria, que na prática nem sempre foi assim) a carabina. O equipamento defensivo era mais completo, com celada (elmo fechado), peito e espaldar sobre colete de couro, guarda-rins, coxotes, braçais e manoplas, ou pelo menos uma manopla para a mão que segurava a rédea. Todavia, ainda na década de 40 os couraceiros foram aligeirando o seu equipamento defensivo, ao ponto de muitas companhias não se distinguirem dos cavalos arcabuzeiros, regressando assim às origens meramente honoríficas. Só existiam unidades de couraceiros no exército pago, pois eram consideradas tropas de elite – mas não se confunda com o conceito actual, pois mais do que à capacidade operacional da unidade, era sobretudo ao prestígio individual do comandante que se atendia na distinção.

Gravuras: Arcabuzeiro a Cavalo e Couraceiro, imagens extraídas do tratado militar de John Cruso, Militarie Instructions for the Cavall’rie, Kineton, The Roundwood Press, 1972 (fac-simile da edição de 1632; comentada e anotada pelo Brigadeiro Peter Young).

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Postos do exército português (4) – o furriel

Este posto só existia na cavalaria. Sobre as qualidades que devia ter o furriel e as suas funções, escreveu D. João de Azevedo e Ataíde:

O furriel de uma companhia se deve escolher entre os soldados mais práticos e entendidos que saiba[m] ler e escrever. O seu particular ofício é alojar e repartir os alojamentos quando marcha a companhia. Recebe do almoxarife a cevada e tudo o mais que aos soldados se dá de munição, para o repartir e dar conta quando se faz o pagamento.

Partindo-se diante para efeito de alojar a companhia, só por si ou em companhia do furriel-mor, pedirá ao tenente dois soldados para o ajudarem e tornarem, em recado seu, avisar a companhia de como estão os alojamentos feitos. (…)

Na companhia tem pouca jurisdição, para castigar nenhuma, contudo, sendo pessoa de respeito e soldado prático, em ausência do alferes poderá, se parecer bem ao capitão, governar a companhia, e doutro modo não, por não ser posto militar.

Regras militares…, pgs. 26-27.

Para os leitores do século XXI poderá parecer estranha esta referência ao furriel como um “posto não militar”. Na verdade, na estrutura militar seiscentista ainda não estavam completamente separadas as esferas do civil e do militar. Deste modo, o furriel estava para a sua companhia como o oficial que desempenhava o cargo de quartel-mestre geral estava para o exército provincial, ao nível das funções de organização do alojamento. Se, com o exército em campanha, o quartel-mestre geral era sempre um militar com patente de oficial superior, já numa localidade onde as tropas alojavam em permanência, constituindo a guarnição da vila ou cidade, o cargo podia ser atribuído a um civil, normalmente um elemento da burguesia local. Mas se o quadro mental da época aproximava, pela semelhança das funções administrativas desempenhadas pelos indivíduos (ainda que em escalas diferentes), o furriel do quartel-mestre geral civil, isso não deve induzir-nos em erro quanto às tarefas puramente militares que cabiam ao furriel, que era um combatente como qualquer outro.

A importância do furriel numa companhia de cavalaria, em termos administrativos, era idêntica à dos sargentos numa companhia de infantaria. Daí que o capitão pudesse confiar no furriel e até dar-lhe o comando da companhia, na ausência do tenente e do alferes. Mas seria esta possibilidade – apresentada em outros tratados militares do período, não só no esboço efectuado por D. João de Ataíde – bem vista pela oficialidade superior?

Dinis de Melo de Castro, um oficial que fez toda a Guerra da Restauração e que atingiu o posto de general da cavalaria do Alentejo e governador das armas da mesma província, para além de ter recebido o título de Conde de Galveias, tinha uma opinião crítica a este respeito. Para ele, era coisa indigna os furriéis comandarem companhias (na ausência do próprio capitão, entenda-se, o que era muito comum), pois os capitães acrescentam [ou seja, promovem] estes furriéis se lhes dão boas contas, e como estes procuram o acrescentamento por aquele caminho, não tratam de merecerem pelo ofício de soldado, e só procuram dar boa conta da palha e cevada, e quando passam a tenentes são os que menos experiência têm.

Estas palavras de Dinis de Melo surgem numa consulta ao Conselho de Guerra em 12 de Agosto de 1665. Mesmo próximo do final do conflito, parecia prevalecer a ideia do furriel como amanuense. Mas devemos ter em conta o preconceito do fidalgo em relação a deixar à frente das companhias alguém oriundo da plebe, numa função mais conotada com a administração do que com o ofício das armas. Contudo, essa opinião, um tanto extremada, desaparecerá no século seguinte. A separação definitiva entre o campo militar e o campo civil dissiparia as dúvidas quanto ao espaço do furriel – ou melhor, quanto ao conceito que se fazia do seu papel.

Imagem: Combates durante a Batalha das Linhas de Elvas (1659). Ilustração de Pedro de Santa Colomba. Biblioteca Nacional, Iconografia, E1090V.

Postos do exército português (3) – o cabo de esquadra

O cabo de esquadra comandava… uma esquadra! O equivalente, hoje em dia, a uma secção, passe o risco de anacronismo. Na infantaria e na cavalaria, correspondia a um efectivo de 20 a 25 homens – mas na cavalaria, onde as companhias registavam, com alguma frequência, quebras de efectivos, a esquadra podia não ir além de 10 homens.

Sobre as atribuições seiscentistas de um cabo de esquadra, o tratadista italiano Galeazzo Gualdo Priorato, traduzido e comentado por D. João de Mascarenhas (Conde de Sabugal) em plena Guerra da Restauração, riscou à pena conselhos que foram seguidos pelos portugueses. Vejamos:

O cabo de esquadra

Manda este cabo a sua esquadra, a qual deve doutrinar de tudo aquilo que deve saber um soldado. Tem obrigação de antever e reparar as desordens e pendências entre eles, e imediatamente que descobrir algum indício, (…) o deve advertir ao capitão, porque a ele não lhe toca o castigá-los (…). Terá um rol dos soldados da sua esquadra e quando algum falte, dará parte ao sargento (…).

Deve conhecer quais são os mais experimentados e os mais revoltosos, para pôr estes de sentinela, e para mandá-los às facções de maior importância (…).

Achando-se o cabo de guarda com a sua esquadra, estará vigilante e cuidadoso, para que não [o] surpreenda o inimigo ainda que esteja longe, e porá as sentinelas aonde lhas mandarem pôr os seus maiores, e as mudará ele mesmo, tendo juntamente cuidado com as rondas. Instruirá as sentinelas [sobre] como devem regular-se vendo o inimigo, e como devem tocar arma e advertir sem rumor, e como se não devem retirar as sentinelas dos seus postos, senão mudadas do cabo, ou bem forçadas do inimigo, no qual caso seretirarão aos corpos de guarda.

Será razão que o cabo saiba ler e escrever, para que tenha rol da sua esquadra e seja assim o serviço melhor repartido.

D. João de Mascarenhas era um veterano da batalha de Rocroi (1643), onde se bateu (ainda muito jovem) no exército de Filipe IV. Voltou pouco depois a Portugal e aderiu à causa de D. João IV, distinguindo-se como tenente-general e general da cavalaria no exército do Alentejo. Membro do Conselho de Guerra, D. João de Mascarenhas foi, acima de tudo, um dos mais brilhantes oficiais da Guerra da Restauração. A tradução da obra de Gualdo Priorato, à qual acrescentou interessantíssimos comentários, só foi impressa em 1707, em plena Guerra da Sucessão de Espanha, mas o manuscrito foi composto na década de 60 do século XVII: Maneio da Cavallaria escrito pelo Conde Galeaço Gualdo Priorato com annotaçoens de Dom João Mascarenhas Conde do Sabugal do Conselho de Guerra d’ElRei Dom Affonço 6º. O excerto acima transcrito corresponde às páginas 78 v-79 v do manuscrito.

Também D. João de Azevedo e Ataíde se refere aos cabos de esquadra, a páginas 24 a 26 do seu rascunho de tratado:

O seu ofício próprio é terem alistados os soldados das suas próprias esquadras, os quais não só hão-de conhecer todos de nome, senão também o natural [ou seja, o local de nascimento] e qualidades deles, se são frouxos ou têm indústria [isto é, se são desembaraçados] e valor para assim os acomodar e distribuir os postos conforme aos talentos que conhecerem neles (…).

Havendo de marchar a companhia [de cavalaria] em ordem, se porão nos cabos [ou seja, nos extremos] da primeira e da última fileira, donde se não podem sair, senão fora para remediar e acudir a algum erro ou desordem dos soldados, tornando-se logo ao mesmo posto.

Imagem: Duas fileiras de mosqueteiros abrindo fogo (“dando carga“, como se diria em português do século XVII). Reconstituição histórica da Guerra Civil Inglesa, Kellmarsh Hall, 2007. Foto do autor.

Postos do exército português (2) – o soldado de cavalaria

Sobre o soldado de cavalaria, trago aqui as considerações de D. João de Azevedo e Ataíde. Este oficial relativamente obscuro, apesar de referido em várias Relações propagandísticas dos feitos de armas do início da guerra, foi comissário geral da cavalaria do exército do Alentejo entre 1644 e 1647. Deixou a carreira das armas sem glória, mas com algum proveito material, na última destas datas. Deixou também um esboço manuscrito de tratado militar sobre a cavalaria, cuja transcrição estou a ultimar e que será integrada numa resenha biográfica do ex-oficial a publicar em breve. Como curiosidades adicionais, refira-se que D. João de Ataíde foi responsável pelo recrutamento do soldado e memorialista Mateus Rodrigues, o qual serviu sob seu comando nos primeiros seis anos da guerra e do fidalgo nos legou um testemunho bem mais rico que o da literatura panegírica impressa; e que D. João foi trisavô, pela parte materna, de Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras e Marquês de Pombal.

O trecho aqui transcrito para português corrente corresponde às pgs. 17 a 23 de Regras militares da cauallaria ligeira compostas per Dom João de Azeuedo e Attayde, Comissario Geral da caualaria, do exercito, e Prouincia do Alentejo [manuscrito composto após 1644, provavelmente 1644-47].

O soldado de cavalaria

O soldado que se resolver assentar praça de cavalos deve dar por entendido que há-de servir e trabalhar sem passar a vida ociosamente, como muitos cuidam, porque os trabalhos, e principalmente os da cavalaria, são contínuos, de dia ao sol, de noite ao sereno, aos rigores dos tempos, sem ter vontade própria, sofrendo as sem razões de seus superiores, as más pagas dos Príncipes, obrigados a pelejar com risco da vida todas as vezes que o seu capitão quiser, e ainda alguma vez o inimigo, contemporizando com as rigorosas leis da honra e do mundo, certo o perigo, o prémio duvidoso, ou porque o pobre soldado não chega a alcançar o favor dos que governam, ou porque sendo as coisas limitadas, não pode haver prémio para todos (…).

Convém que o soldado de cavalo seja curioso do seu cavalo, trazendo-o sempre bem pensado [isto é, alimentado – o penso era a ração de cevada para a montada], não se desprezando de o limpar por suas próprias mãos (…). Na mesma forma se deve prezar muito do conserto e limpeza de suas armas, porque além de parecerem bem na paz, no tempo da peleja as armas reluzentes metem medo e temor ao inimigo (…).

Deve saber qualquer soldado governar e moderar o seu cavalo, sem o trazer desabrigado e descomposto, correr e escaramuçar assim por terra firme como pela áspera, subir e descer desenvoltamente por um e outro lado, armado e desarmado, que suposto que esteja em uso o subir e descer pela parte esquerda do cavalo, porque por ali fica mais à mão a espada e faz menos estorvo (…), contudo será importante acostumar-se a cavalgar pelas partes ambas (…).

Saberá desenvoltamente jogar todas as armas de cavalo, na tropa [designação para companhia, ou a subdivisão táctica desta, ou a formação táctica designada por batalhão] e fora dela, donde andará com bom conserto, dobrando quanto necessário for, e sucedendo por algum caso duvidar-se, se saberá tornar a reunir e juntar na tropa em seu lugar, sem se perturbar nem confundir (…).

Acudirá dos primeiros em ouvindo que se toca as trombetas, ocupando o lugar que lhe tocar, havendo de marchar seguirá ao que direitamente for diante dele, conservando-se na sua fileira, e na ordem que o seu capitão lhe dá. E quando a não chegue a alcançar de boca, fará e guardará o que vir fazer aos outros que vão diante dele. Dando a carga [quer dizer, disparando a arma de fogo] tornará a carregar depressa, contanto que com muita pressa não acerte a não carregar como convém. Por nenhum modo dará a sua carga senão muito a tempo, e quando puder, de modo que possa fazer golpe, porque o mais é perder pólvora [e] ficar desarmado ao melhor tempo.

Imagem: Combate de cavalaria – Arronches, 8 de Novembro de 1653. Painel de azulejos seiscentistas, “Sala das Batalhas”, Palácio dos Marqueses de Fronteira. Foto do Comandante Augusto Salgado.

Postos do exército português (1) – o soldado de infantaria

 

O tema desta série de entradas, que alternará com outros temas já em curso, centrar-se-á na hierarquia do exército português da Guerra da Restauração. Não se trata somente de expor os postos, funções e cargos, tentando quando possível traçar paralelos com os actuais. O traço da mentalidade do período será aqui trazido, através das regras de conduta e conselhos presentes em manuais e tratados militares para cada um dos postos.

O soldado (pago, ou seja, profissional), bastas vezes anónimo e sacrificado combatente, o mais raso da hierarquia militar, é o primeiro a passar por aqui. E ao de infantaria, contingente mais numeroso, será dada a primazia. As linhas que se seguem foram redigidas em castelhano, nos primeiros anos da Guerra da Restauração, pelo sargento-mor António Gallo. Nascido no reino vizinho, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, optou por tomar como seu soberano D. João IV, continuando a residir em Portugal após a Aclamação. Foi nomeado sargento-mor de um terço pago na província do Alentejo em Janeiro de 1641, quando já estava no Outono da vida. Valente militar, muito experiente, combateu em vários recontros, aposentando-se em finais de 1643, por motivos de saúde, quando era sargento-mor do terço do mestre de campo holandês Estacius Pick. No ano seguinte saiu à estampa a sua obra Regimiento Militar, que trata de como los soldados se hande governar, obedecer, y guardar las ordenes, y como los oficiales los han de governar, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1644. O texto a seguir apresentado foi vertido para português corrente, correspondendo ao texto das fls. 1 a 3 da referida obra:

O Soldado

Em assentando praça o soldado nas listas do Rei nosso Senhor, fica honrado e obrigado a servir bem a seu Rei e capitão-general, e a  obedecer a todos os seus oficiais, em tudo o que fôr de serviço do Rei nosso Senhor, sob pena de grave castigo (…).

E para ser honrados, e alcançar vitórias e ser providos em cargos honrados, devem ser bons Cristãos (…) os soldados, pois sua profissão é mais arriscada que outras, por trazerem, como trazem, a morte diante dos seus olhos, pelas ocasiões de guerra que se oferecem a cada hora de repente.

Pela qual causa todo o soldado se há-de confessar muitas vezes no ano, ao menos quatro, recebendo a Santa Comunhão.

E deve guardar-se com grandíssimo cuidado de cair em infâmia, como é estar amancebado, trazer consigo mulher que não seja a sua, beber de modo que se prive com o vinho do seu sentido: e a estes tais bêbados deve-se-lhes retirar a praça. Não sejam ladrões, nem encobridores, nem amotinadores, que se lhes dará morte com desonra. Não seja falador, ouvir aqui e murmurar ali, que fará inimigos, e ninguém o quererá ver.

O hábito de soldado arma a todos, e é-lhes muito necessário saber-se governar com o seu soldo, porque não há coisa neste hábito mais vil que o pedir, nem de mais grandeza, que o dar. (…)

Seja curioso de saber jogar a espada, adaga, broquel e rodela, pique, arcabuz e mosquete, que é importante a este hábito militar.

Será vigilantíssimo a fazer a sua guarda, assim de posto como de ronda, em qualquer lugar que o puserem, que é a principal obrigação que tem. (…)

Se o seu capitão, alferes, ou sargento, ou cabo de esquadra, ou sargento-mor deitarem mão à espada ou à insígnia que trazem para o castigar com cólera, ainda que não tenham razão, oiça-os e não replique (…). E aviso-o que não deite a mão à espada, nem a outra arma alguma para resistir e defender-se, que lhe custará a vida (…).

Havendo licença para saquear alguma vila ou lugar, avise-se que não toque em coisa alguma das igrejas (…).

Não há-de jogar sobre as armas [ou seja, apostando as armas], que sem elas não se pode servir a El-Rei; nem jogará vestidos (…), nem sobre palavra, que é a causa de perder o crédito.

 Foto do autor: Mosqueteiros e piqueiros; reconstituição histórica da Guerra Civil Inglesa, Kellmarsh Hall, 2007.

O coronel François de Huybert de Chantereine

Entre os muitos oficiais estrangeiros que estiveram ao serviço da Coroa portuguesa durante a Guerra da Restauração, um dos que mais se destacou nos anos iniciais do conflito foi François de Huybert, senhor de Chantereine. O nome deste oficial aparece escrito com ligeiras diferenças nas muitas fontes, impressas ou manuscritas, que a ele se referem.

O coronel Chantereine chegou a Portugal em Agosto de 1641, integrado no contingente enviado pelo cardeal Richelieu com o objectivo de auxiliar o exército português. Devia comandar um regimento de cavalaria ligeira, mas os efectivos trazidos de França eram insuficientes para compor as quatro companhias de 40 ou 50 elementos cada (era este o efectivo apontado no contrato estabelecido com a Coroa portuguesa). Nos regimentos de cavalaria do período (excepto no exército português, onde não existia o sistema regimental na cavalaria), o coronel comandava a primeira companhia, estando as restantes sob o comando de capitães. Os subordinados de Chantereine eram Louis de Chivray du Plessis – parente do próprio Richelieu, de acordo com a carta de recomendação apresentada a D. João IV – e Henri de Belys de Billon. A quarta companhia do regimento passou a ser comandada pelo capitão Michel du Bocage a partir de Dezembro de 1641.

Chantereine foi enviado para a província do Alentejo nos finais de 1641. Aí se distinguiu pela sua bravura e mestria no comando táctico da cavalaria. Era admirado por todos, desde os simples soldados aos cabos de guerra mais importantes. As suas acções constam de variadas relações dos feitos de armas – a propaganda impressa do período – e de documentos oficiais. O memorialista Mateus Rodrigues também se refere elogiosamente a este oficial, sob as ordens do qual combateu. François de Huybert era conhecido entre os soldados portugueses como “o coronel da arcada”, devido ao brinco que usava na orelha direita. Todavia, a sua estadia em Portugal foi relativamente curta, tendo regressado a França na segunda metade de 1643, provavelmente desiludido com a condução da guerra e com a falta de pontualidade no pagamento dos soldos.

Existe a uma página francesa sobre história local na qual são reveladas mais informações sobre este oficial, principalmente após a sua saída de Portugal. Pertencente à nobreza, François de Huybert era senhor de várias terras: Chantereine (na região de Yonne, na Borgonha), Colméry, Saint-Malo e outros lugares. Em 1655 é mencionado nos registos paroquiais de Colméry. Era então conselheiro do jovem rei Luís XIV. Em 1664, certamente já idoso, vivia em Cessy-les-Bois, paróquia vizinha de Colméry. Consulte-se a página da autoria de Philippe Cendron.

Quanto aos feitos marciais do “coronel da arcada”, serão abordados numa próxima entrada.

Foto do autor: combate de cavalaria, reconstituição histórica do período da Guerra Civil Inglesa, Kellmarsh Hall, Agosto 2007.

Bandeiras, estandartes, guiões – exército português (3)

Mais alguns exemplos de bandeiras e estandartes em representações iconográficas coevas. Em cima, pormenor de estandartes de cavalaria com a Cruz de Cristo. Em baixo, pormenor de bandeiras de um terço português (à esquerda) e de um estandarte de cavalaria (em segundo plano), insígnias que apresentam a Cruz de Cristo, contrastando com a Cruz de Borgonha ostentada pelo terço espanhol (à direita da gravura). Ambas as imagens pertencem à água-forte de Dirk Stoop sobre a batalha das Linhas de Elvas (14 de Janeiro de 1659); Biblioteca Nacional, Iconografia, E648A.