A formação táctica da infantaria – o esquadrão

A imagem mostra a infantaria formada em esquadrão, com a respectiva batalha de piques e as guarnições e mangas de mosqueteiros e arcabuzeiros. Faltam na imagem as alas, que se colocavam a alguma distância das mangas, em ambos os lados da formação e paralelos às guarnições laterais.

Quando uma força militar se dispunha no terreno, preparada para um recontro ou batalha, cada terço de infantaria constituía o núcleo de um esquadrão (a menos que estivesse tão desfalcado que não bastasse para tal). A realização de uma formação destas no terreno era complexa. Implicava muita prática por parte dos sargentos-mores, o quais deviam saber calcular com presteza raízes quadradas, de forma a conseguirem organizar os soldados no terreno. Para isso eram auxiliados por dois ajudantes e pelos sargentos do terço. Esta formação era utilizada apenas para a defesa estática e para a progressão no terreno após o contacto estabelecido com o inimigo. As marchas de aproximação não eram efectuadas com os esquadrões formados, pois tornar-se-iam demasiado lentas e impraticáveis.

Na década de 60, o esquadrão guarnecido de mangas e alas caiu em desuso. A evolução da táctica passou a favorecer formações mais lineares e de maior capacidade de movimento debaixo de fogo. Em Portugal, o advento da marcha de costado (já conhecida dos portugueses na teoria, mas não praticada antes da chegada do Conde de Schomberg), em que o exército progredia já em formação de batalha, impôs o abandono do complexo esquadrão herdado da escola militar espanhola, que tão bons resultados havia dado na primeira metade do século XVII. No entanto, essa transição não terá sido muito rápida. Escrevendo sobre a situação do exército português do início da década de 60, o francês Frémont d’Ablancourt observou que os portugueses mantinham o hábito de colocarem sobre as alas dos seus esquadrões “quatro a cinco filas de mosqueteiros, cujos mosquetes se assemelham a pequenos arcabuzes pesados” (Mémoires de Monsieur d’Ablancourt, Amsterdam, J. Louis De Lorme, 1701, p. 30). Referia-se, com toda a probabilidade, às mangas.

Gravura baseada numa outra, apresentada em JÖRGENSEN, Christer, e outros, Fighting Techniques of the Early Modern World, AD 1500-AD 1763, Equipment, Combat Skills and Tactics, London, Amber Books, 2005.

Termos militares do século XVII (1) – a infantaria

Joane Mendes de Vasconcelos foi general e membro do Conselho de Guerra durante a Guerra da Restauração. Era filho de Luís Mendes de Vasconcelos, escritor e tratadista militar dos inícios do século XVII (autor da Arte Militar, da qual só foi publicada a primeira parte em 1612). Com uma larga experiência militar, adquirida nos campos de batalha europeus ao serviço da monarquia dual e no Brasil, Joane Mendes foi encarregado por D. João IV de comentar o projecto manuscrito de Ordenanças Militares de 1643. Embora o projecto nunca tenha sido publicado, as práticas seguidas e muita da regulamentação impressa posteriormente demonstram a sua influência informal – ou, em certos casos, o prosseguimento de linhas de conduta que antecediam o projecto e que este procurou uniformizar.

O militar e investigador dos finais do século XIX e princípios do XX, Cristóvão Aires de Magalhães Sepúlveda, publicou o projecto de Ordenanças Militares e os respectivos comentários de Joane Mendes de Vasconcelos no 3º volume da Historia Organica e Politica do Exercito Português – Provas (Lisboa, Imprensa Nacional, 1908). Nessa mesma obra publicou também um manuscrito intitulado Advertências de Joanne Mendes Sobre Alguas Cousas Militares, com conselhos para o treino dos soldados e o significado de alguns termos militares usados na infantaria. É com base nesse documento que aqui são apresentados esses termos, que em certos casos também se aplicavam à cavalaria.

Disciplina militar – consiste em entender as ordens, conservar as distâncias e manejar as armas; isto se deve ensinar aos soldados, porque sabendo-o, se pode esperar que com facilidade e confiança executem tudo o que lhe for encomendado. Neste pressuposto, chegados os soldados à praça de armas e ajustados aos seus lugares, a primeira coisa que se deve encomendar é a obediência e o silêncio, ensinando-lhes que coisa é Esquadrão, Batalha, Guarnição, Manípulo, Fileira e Fila.

Esquadrão – é toda a quantidade de gente unida, armada de piques, mosquetes e toda outra sorte de armas, ordenadamente repartida em manípulos, filas e fileiras. [O termo para a formação táctica correspondente na cavalaria era batalhão, mas por vezes ambos os termos eram utilizados na infantaria e na cavalaria.]

Batalha – É uma quantidade de soldados unidos e armados de piques, ordenadamente repartidos em manípulos, filas e fileiras.

Guarnição – é o manípulo de gente armada de mosquetes, posto ao lado da batalha dos piques, repartido em filas e fileiras.

Manípulo – é o número de soldados piqueiros, ou mosqueteiros, ou de qualquer outra sorte de gente armada e unida, a tantos por fileira, a cinco, a seis, ou mais ou menos, repartidos em fileiras e filas.

Fileira – é o número de gente posta igual uma de outra, de ombro a ombro, ordenadamente em linha recta.

Fila – é o número de gente posta de trás uma da outra, em linha recta de peito e espalda.

Manga – é o manípulo de gente que, tirado fora do esquadrão, se põe diante e detrás dele, sobre os ângulos, em conveniente distância.

Ala – é o manípulo de gente posto ao lado do esquadrão, depois da guarnição, em conveniente distância, e que fecha o lado da manga da vanguarda até o da retaguarda.

Endireitar as fileiras (prática de treino) – Depois dos soldados conhecerem todos os termos acima referidos [o que não seria fácil a início, dado que os homens eram na sua maior parte analfabetos e completamente ignorantes dos assuntos militares], e estando nos lugares destimados, ordenará o cabo que se endireitem as fileiras, ou seja, que fiquem os soldados em linha recta de ombro a ombro. Mandará a seguir que se endireitem as filas, ou seja, que se ajustem os soldados uns detrás dos outros, de modo que fiquem em linha recta de peito a espalda. Ordenará também que se tomem as justas distâncias, mas porque estas são muitas, a saber, para marchar em ordenança, com o pique ao ombro, para pelejar contra a infantaria ou cavalaria, para fazer voluções, conversões e diversões, é necessário declarar e explicar as ditas distâncias, para não confundir os soldados.

Distância de marchar em ordenança – Para marchar, ou parar em ordenança com o pique ao ombro, será a distância de sete pés geométricos de peito a espalda, e três de ombro a ombro.

Distância para pelejar infantaria contra infantaria – Será a distância três pés de ombro a ombro, e outros tantos de peito a espalda.

Distância para pelejar contra cavalaria – Será a distância de pé e meio de peito a espalda e de ombro a ombro.

Distâncias para fazer voluções, conversões e diversões – Alguns preferem que seja de seis pés de ombro a ombro e de peito a espalda, outros preferem cinco somente.

Gravura: Formatura militar no Terreiro do Paço. Museu da Cidade de Lisboa, autor desconhecido, 2ª metade do século XVII.