Termos militares do século XVII (1) – a infantaria

Joane Mendes de Vasconcelos foi general e membro do Conselho de Guerra durante a Guerra da Restauração. Era filho de Luís Mendes de Vasconcelos, escritor e tratadista militar dos inícios do século XVII (autor da Arte Militar, da qual só foi publicada a primeira parte em 1612). Com uma larga experiência militar, adquirida nos campos de batalha europeus ao serviço da monarquia dual e no Brasil, Joane Mendes foi encarregado por D. João IV de comentar o projecto manuscrito de Ordenanças Militares de 1643. Embora o projecto nunca tenha sido publicado, as práticas seguidas e muita da regulamentação impressa posteriormente demonstram a sua influência informal – ou, em certos casos, o prosseguimento de linhas de conduta que antecediam o projecto e que este procurou uniformizar.

O militar e investigador dos finais do século XIX e princípios do XX, Cristóvão Aires de Magalhães Sepúlveda, publicou o projecto de Ordenanças Militares e os respectivos comentários de Joane Mendes de Vasconcelos no 3º volume da Historia Organica e Politica do Exercito Português – Provas (Lisboa, Imprensa Nacional, 1908). Nessa mesma obra publicou também um manuscrito intitulado Advertências de Joanne Mendes Sobre Alguas Cousas Militares, com conselhos para o treino dos soldados e o significado de alguns termos militares usados na infantaria. É com base nesse documento que aqui são apresentados esses termos, que em certos casos também se aplicavam à cavalaria.

Disciplina militar – consiste em entender as ordens, conservar as distâncias e manejar as armas; isto se deve ensinar aos soldados, porque sabendo-o, se pode esperar que com facilidade e confiança executem tudo o que lhe for encomendado. Neste pressuposto, chegados os soldados à praça de armas e ajustados aos seus lugares, a primeira coisa que se deve encomendar é a obediência e o silêncio, ensinando-lhes que coisa é Esquadrão, Batalha, Guarnição, Manípulo, Fileira e Fila.

Esquadrão – é toda a quantidade de gente unida, armada de piques, mosquetes e toda outra sorte de armas, ordenadamente repartida em manípulos, filas e fileiras. [O termo para a formação táctica correspondente na cavalaria era batalhão, mas por vezes ambos os termos eram utilizados na infantaria e na cavalaria.]

Batalha – É uma quantidade de soldados unidos e armados de piques, ordenadamente repartidos em manípulos, filas e fileiras.

Guarnição – é o manípulo de gente armada de mosquetes, posto ao lado da batalha dos piques, repartido em filas e fileiras.

Manípulo – é o número de soldados piqueiros, ou mosqueteiros, ou de qualquer outra sorte de gente armada e unida, a tantos por fileira, a cinco, a seis, ou mais ou menos, repartidos em fileiras e filas.

Fileira – é o número de gente posta igual uma de outra, de ombro a ombro, ordenadamente em linha recta.

Fila – é o número de gente posta de trás uma da outra, em linha recta de peito e espalda.

Manga – é o manípulo de gente que, tirado fora do esquadrão, se põe diante e detrás dele, sobre os ângulos, em conveniente distância.

Ala – é o manípulo de gente posto ao lado do esquadrão, depois da guarnição, em conveniente distância, e que fecha o lado da manga da vanguarda até o da retaguarda.

Endireitar as fileiras (prática de treino) – Depois dos soldados conhecerem todos os termos acima referidos [o que não seria fácil a início, dado que os homens eram na sua maior parte analfabetos e completamente ignorantes dos assuntos militares], e estando nos lugares destimados, ordenará o cabo que se endireitem as fileiras, ou seja, que fiquem os soldados em linha recta de ombro a ombro. Mandará a seguir que se endireitem as filas, ou seja, que se ajustem os soldados uns detrás dos outros, de modo que fiquem em linha recta de peito a espalda. Ordenará também que se tomem as justas distâncias, mas porque estas são muitas, a saber, para marchar em ordenança, com o pique ao ombro, para pelejar contra a infantaria ou cavalaria, para fazer voluções, conversões e diversões, é necessário declarar e explicar as ditas distâncias, para não confundir os soldados.

Distância de marchar em ordenança – Para marchar, ou parar em ordenança com o pique ao ombro, será a distância de sete pés geométricos de peito a espalda, e três de ombro a ombro.

Distância para pelejar infantaria contra infantaria – Será a distância três pés de ombro a ombro, e outros tantos de peito a espalda.

Distância para pelejar contra cavalaria – Será a distância de pé e meio de peito a espalda e de ombro a ombro.

Distâncias para fazer voluções, conversões e diversões – Alguns preferem que seja de seis pés de ombro a ombro e de peito a espalda, outros preferem cinco somente.

Gravura: Formatura militar no Terreiro do Paço. Museu da Cidade de Lisboa, autor desconhecido, 2ª metade do século XVII.

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