Bandeiras, estandartes, guiões – exército português (1)

É escasso o que nos resta de documentação sólida sobre este assunto. Em 1755, o arquivo da Tenência (Arsenal do Exército) foi destruído pelo Terramoto, e nos anos 30 do século XIX, um incêndio consumiu o arquivo da Junta dos Três Estados, privando-nos assim de informações preciosas sobre as bandeiras, estandartes e guiões utilizados durante a Guerra da Restauração pelo exército português. O que existe, tanto em fontes escritas como iconográficas, é muito fragmentado. Tanto quanto conheço, resta apenas uma relíquia do período, provavelmente um guião de capitão-general do exército – e nesse caso seria o do Marquês de Marialva, ostentado na batalha de Montes Claros em 1665. Foi oferecido à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, e aí se mantém em exposição.

Apesar das ambivalências dos termos, podemos tentar discernir, através da frequência com que são empregues, algumas diferenças no uso: o guião, apesar de Diogo do Couto (séc. XVI) se lhe referir como “pequena bandeira”, designava no século XVII uma bandeira principal, destinada a guiar o exército, ou a assinalar a presença de um general. Apresentava forma rectangular. A bandeira era de uso regulamentar em cada companhia de infantaria, fosse do exército pago (profissional) ou da milícia de auxiliares ou de ordenança. Tinha forma quadrada. Do mesmo formato, mas mais pequeno, era o estandarte das companhias de cavalaria. Por norma, só as companhias de couraceiros (cavalos couraças) deviam ter direito a estandarte (e portanto, incluírem um alferes na sua composição) mas, na prática, era vulgar as companhias de cavalos arcabuzeiros também os terem. Curiosamente, D. Luís de Meneses, 3º Conde de Ericeira, refere que, enquanto general da artilharia do exército do Alentejo em 1663, se fazia acompanhar de dois estandartes (em rigor, seriam guiões) – um com as armas reais (provavelmente semelhante ao que se conserva em Vila Viçosa) e outro com as suas próprias armas, “e ao pé delas uma peça de artilharia [bordada ou pintada], entre as quais se viam umas letras de ouro, que diziam: Sine qua non” (História de Portugal Restaurado, 1946, vol. IV, pg. 212).

Este tema continuará a ser abordado nas próximas entradas.

Bibliografia:

MATOS, Gastão de Melo de, Bandeiras militares do século XVII e a bandeira da Aclamação, sem local, sem nome, 1940.

SALES, Ernesto Augusto Pereira de, Bandeiras e Estandartes Regimentais do Exército e da Armada e outras Bandeiras Militares, Lisboa, Centro Tipográfico Colonial, 1930.

Foto: Guião de capitão-general do exército, batalha de Montes Claros (1665), preservado em Vila Viçosa. Note-se que era esta a configuração do guião – a haste à qual se prendia ficava do lado esquerdo da presente foto. As armas reais apareciam “sobre o lado”.

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