Bandeiras, estandartes, guiões – exército português (2)

As bandeiras, os estandartes e os guiões eram habitualmente confeccionados em diversos tipos de seda, como por exemplo damasco, tafetá, ruão, etc. Existem referências quanto às dimensões dos estandartes da cavalaria, que teriam uma vara de lado (ou seja, 1,1m). As bandeiras e guiões eram maiores, embora não tenha encontrado referências precisas às dimensões.

guião real (por vezes designado por estandarte real) tinha numa das faces as armas do Reino (sobre o lado, como no guião de capitão general já aqui apresentado – o qual poderá ser, porventura, um guião real); e na outra, desde 1646, a representação de Nossa Senhora da Conceição. Quanto à cor do fundo, presume-se que fosse branco, havendo até a sugestão de uma hipotética orla azul, mas aqui, tal como nos outros casos da vexilografia restauracionista, as certezas são poucas. De concreto, sabe-se que  só fazia a a sua aparição quando um exército saía em campanha. Quando cumpria à companhia do general da cavalaria transportá-lo, era ao alferes da dita companhia que cabia a honra, o qual ia metido no meio da fileira intermédia da formação (Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição dactilografada do Arquivo Histórico Militar, pg. 116).

As fontes iconográficas do período mostram, com muita frequência, as bandeiras da infantaria e os estandartes da cavalaria ostentando a Cruz de Cristo. Tratava-se de um elemento identificativo das forças portuguesas, tal como a Cruz de Borgonha o era para o exército espanhol. Há um ou outro pormenor dissonante desta aparente ubiquidade – por exemplo, a bandeira que surge no quadro de Dirk Stoop referente ao cortejo no Terreiro do Paço, já aqui tratado noutra entrada.

Havendo uma bandeira ou estandarte por companhia (note-se que os terços de infantaria não tinham bandeiras identificativas da unidade como um todo, apenas as das suas companhias), é provável que houvesse variantes nas cores e até no símbolo de cada uma. Gastão de Melo de Matos (ver bibliografia) duvidava da uniformidade do verde como cor de campo das bandeiras e estandartes, conforme fora sugerido no estudo do padre Ernesto Sales. O eclesiástico tomara como fonte iconográfica segura a este respeito o biombo do Visconde de Fonte Arcada (Pedro Jacques de Magalhães, general durante a Guerra da Restauração), hoje patente no Museu Nacional de Arte Antiga. Mas Gastão de Melo de Matos argumentava que as bandeiras talvez tivessem cores diferentes, fundamentando-se em fontes literárias muito diversas, como obras de tratadistas militares anteriores à Restauração (Luís Mendes de Vasconcelos, 1612; João Brito de Lemos, 1631), ou poemas laudatórios do período da guerra (Epinício lusitano à memorável victoria de Montes Claros, de João Pereira da Silva; Phaenix da Lusitania, de Manuel Tomás). Do Epinício… respiga:

“Mil vezes dezasseis Lusos armados/(…)/Em terços vinte e nove moderados/(…)/Volteando tafetás de várias cores/Dão lisonjas ao vento, enveja às flores” (estrofe 68).

Já da Phaenix da Lusitania cita o seguinte: “Animan ondeandose, as bandeiras/Os terços com as cores variadas” (Livro X, estrofe 48).

Há outras fontes que sugerem o uso da Cruz de Cristo em campo branco. De resto, não será difícil admitir a predominância do verde e do branco como fundo para bandeiras e estandartes, pois estas eram então as cores da Casa de Bragança (foram mudadas em 1707 para azul e vermelho).

Imagens: Em cima, alferes volteando bandeira com cruz verde em fundo branco (pormenor de um quadro atribuído a Dirk Stoop, Museu da Cidade de Lisboa); em baixo, pormenor de estandartes de cavalaria, ilustração de Pedro de Santa Colomba (1662) relativa à batalha das Linhas de Elvas; bandeira ou estandarte, ilustração do mapa de João Teixeira Albernaz, c. 1650 (Biblioteca Nacional, Iconografia, respectivamente E1090V e CC254A). Nestes dois últimos documentos está presente a Cruz de Cristo, o que não acontece no primeiro.

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