O coronel François de Huybert de Chantereine

Entre os muitos oficiais estrangeiros que estiveram ao serviço da Coroa portuguesa durante a Guerra da Restauração, um dos que mais se destacou nos anos iniciais do conflito foi François de Huybert, senhor de Chantereine. O nome deste oficial aparece escrito com ligeiras diferenças nas muitas fontes, impressas ou manuscritas, que a ele se referem.

O coronel Chantereine chegou a Portugal em Agosto de 1641, integrado no contingente enviado pelo cardeal Richelieu com o objectivo de auxiliar o exército português. Devia comandar um regimento de cavalaria ligeira, mas os efectivos trazidos de França eram insuficientes para compor as quatro companhias de 40 ou 50 elementos cada (era este o efectivo apontado no contrato estabelecido com a Coroa portuguesa). Nos regimentos de cavalaria do período (excepto no exército português, onde não existia o sistema regimental na cavalaria), o coronel comandava a primeira companhia, estando as restantes sob o comando de capitães. Os subordinados de Chantereine eram Louis de Chivray du Plessis – parente do próprio Richelieu, de acordo com a carta de recomendação apresentada a D. João IV – e Henri de Belys de Billon. A quarta companhia do regimento passou a ser comandada pelo capitão Michel du Bocage a partir de Dezembro de 1641.

Chantereine foi enviado para a província do Alentejo nos finais de 1641. Aí se distinguiu pela sua bravura e mestria no comando táctico da cavalaria. Era admirado por todos, desde os simples soldados aos cabos de guerra mais importantes. As suas acções constam de variadas relações dos feitos de armas – a propaganda impressa do período – e de documentos oficiais. O memorialista Mateus Rodrigues também se refere elogiosamente a este oficial, sob as ordens do qual combateu. François de Huybert era conhecido entre os soldados portugueses como “o coronel da arcada”, devido ao brinco que usava na orelha direita. Todavia, a sua estadia em Portugal foi relativamente curta, tendo regressado a França na segunda metade de 1643, provavelmente desiludido com a condução da guerra e com a falta de pontualidade no pagamento dos soldos.

Existe a uma página francesa sobre história local na qual são reveladas mais informações sobre este oficial, principalmente após a sua saída de Portugal. Pertencente à nobreza, François de Huybert era senhor de várias terras: Chantereine (na região de Yonne, na Borgonha), Colméry, Saint-Malo e outros lugares. Em 1655 é mencionado nos registos paroquiais de Colméry. Era então conselheiro do jovem rei Luís XIV. Em 1664, certamente já idoso, vivia em Cessy-les-Bois, paróquia vizinha de Colméry. Consulte-se a página da autoria de Philippe Cendron.

Quanto aos feitos marciais do “coronel da arcada”, serão abordados numa próxima entrada.

Foto do autor: combate de cavalaria, reconstituição histórica do período da Guerra Civil Inglesa, Kellmarsh Hall, Agosto 2007.

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5 thoughts on “O coronel François de Huybert de Chantereine

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  4. Interesse-me saber si ha alguma referência a outro francês, François Blaise de Pagan, comte de Merveilles (o famoso autor do tratado da fortificação de 1645), que paresse que chegou a Portugal no ano 1642, e saiu no ano seguinte a causa de ficar-se cego (já perdiu um olho em 1622). Não ha nenhuma referência no índice dos decretos do Conselho de Guerra (CG) da Madureira dos Santos, e desafortunadamente, na minha última visita aos arquivos (no ano 2003), não estava buscando referências delle.
    Também interesse-me muito saber os nomes dos 5 engenheiros que chegaram com monsieur de Lassart (Carlos de Lassart, mais tarde engenheiro-mór) em agosto de 1641 na esquadra do marquês de Brézé. Encontre-se os nomes numa nota junto dum decreto do CG com data de 14 de outubro de 1641, que diz Madureira dos Santos (p. 148 no Boletim do Arquivo Histórico Militar, vol. 25, 1955). Paulette Demerson, num artículo sobre a correspondência de François Lanier, agente de France em Portugal nessa época, da os nomes de dois delles: M. de l’Ile (= Nicolau de Lila, que lista Sousa Viterbo no seu dicionário), e M. de la Vergne (sob o que não sé nada!). Pode-me facilitar os nomes dos 5 engenheiros, se faz favor?!
    Se quer enviar-me um email, posso enviar-lho copias de alguns artigos meus sobre a guerra de 1640-1668, publicados em Espanha e EEUU.
    Estas páginas seus são extemamente interessantes! Muito obrigada!!

    • Cara Dra Lorraine White

      Muito obrigado pelo seu simpático comentário.
      Em relação ao que me pede, eu não tenho qualquer informação sobre François Blaise de Pagan nos meus ficheiros. No entanto, poderei procurar na Torre do Tombo, nos Livros de Registo da Secretaria de Guerra, onde surgem cópias de documentos que não se encontram nos maços das Consultas e Decretos do Conselho de Guerra. Pode ser que haja algum documento registado relativo ao Conde de Merveilles.
      Quanto aos nomes dos engenheiros, terei de procurar entre as cópias dos documentos que possuo. Não os tenho aqui em ficheiro digital, senão enviá-los-ia de imediato.
      Muito agradeço a sua disponibilidade em me enviar cópias dos seus artigos. Contactá-la-ei por mail particular.

      Com os melhores cumprimentos

      Jorge P Freitas

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