O uso de uniformes entre a infantaria

A dotação de vestidos de munição aos infantes dos terços portugueses não significava a existência de qualquer uniformização quanto à cor do vestuário ou ao padrão. É provável que, por uma questão de aprovisionamento do vestuário, as casacas, camisas e calças tivessem pontualmente uma cor comum, consoante o lote fornecido pelo vendedor. Contudo, isso seria fruto do acaso e não da determinação de qualquer ordem específica. Julgando pelas representações iconográficas coevas, já aqui apresentadas em anteriores artigos, os castanhos e os cinzentos predominavam entre os soldados. Mas no essencial, o trajo básico do militar de infantaria pouco diferia do trajo civil. A evolução da moda da época, com as variantes locais e as influências externas, encarregava-se de marcar as diferenças ao longo dos anos.

A este respeito, há equívocos que ainda hoje subsistem. Por exemplo, é muito vulgar encontrarmos desenhos e pinturas supostamente representando militares “do período da Guerra da Restauração”, que no entanto são quase decalcadas das ilustrações do célebre manual The exercise of arms de Jacob de Gheyn, impresso em 1607. A moda civil e militar das décadas de 40, 50 e 60 do século XVII já muito pouco tinha em comum com a representada naquelas gravuras, conforme revelará uma observação cuidada de algumas fontes iconográficas genuínas.

A influência estrangeira terá estado na origem da uniformização registada em algumas unidades portuguesas de infantaria na década de 60. As forças inglesas e francesas que combateram em Portugal nesse período já tinham uniformes – casacas vermelhas com vivos de diferentes cores para cada um dos regimentos ingleses, e casacas em cinzento claro debruadas com as respectivas cores regimentais no caso das francesas. Exceptuando os ingleses, cujo uniforme teve génese em 1645, com o New Model Army de Oliver Cromwell, os restantes exemplos parecem ter tido origem na vontade dos respectivos comandantes, embora em França a tendência corresse já para o uso de uniformes nos regimentos. Há também referências a unidades do exército de Filipe IV de Espanha que se apresentavam com uniformes na mesma época. Quanto ao exército português, as descrições mais completas surgem no Mercurio Portuguez, publicação mensal lavrada pela pena de António de Sousa de Macedo, que no número de Abril de 1664 reportava:

Aos 14 (…) à tarde fez uma bizarra mostra e exercício militar no Terreiro do Paço (estando Sua Majestade o Senhor Infante [D. Pedro] vendo de uma janela) o terço da Armada Real, de que é mestre de campo Simão de Vasconcelos e Sousa; saiu todo com casacas verdes, forradas e guarnecidas de amarelo; a do mestre de campo e oficiais e alguns soldados eram mais custosas, conforme ao cabedal [capacidade financeira] de cada um, mas as cores as mesmas; assim o eram também as bandeiras e a pintura das caixas [de guerra, tambores], e certo que faziam a vista mais alegre que se pode imaginar. (…)

Aos 17, também à tarde, à vista de Suas Majestades e Alteza, fez outra semelhante mostra e exercício no mesmo Terreiro o terço novo da guarnição desta Cidade de Lisboa, de que é mestre de campo Roque da Costa, todo com casacas azuis forradas e guarnecidas de vermelho, mais ou menos custosas, conforme a possibilidade de quem as vestia.

(Como é hábito, transcrevi as passagens em português corrente).

Note-se que as casacas seriam quase certamente compridas, ao estilo francês, imitando as usadas pelo Conde de Schomberg e pelas tropas francesas. Aliás, a influência estendeu-se ao exército espanhol, onde este tipo de casacas passou a ser conhecido por “xombergas”.

Bibliografia: Mercurio Portuguez, com as novas da guerra entre Portugal, e Castella.

Imagem: O uso de uniformes regimentais era comum no exército sueco de Gustavo Adolfo, bem como em ambos os campos da Guerra Civil Inglesa (1641-51). Foto do autor, reconstituição histórica, Kellmarsh Hall, 2007.

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Stéphane Auguste de Castille e a perda de Olivença em 1657 (parte 2)

Stéphane Auguste de Castille não chegou a cumprir o degredo na Índia, tendo permanecido preso no Reino depois de ter sido considerado culpado pela entrega de Olivença aos espanhóis. Continuava a reclamar inocência, que dizia ser “tão clara como o Sol”, dirigindo várias petições ao Conselho de Guerra para que fosse anulada a sentença. Ele, que viera para Portugal em 1648, servira a maior parte do tempo à sua custa, tendo uma experiência militar de 24 anos contínuos em guerras. Tinha sido capitão de infantaria e de cavalaria na Flandres e tenente-general na província da Baixa Bretanha, tendo abandonado a França por motivos de força maior (provavelmente a contas com a justiça). A sua permanência na prisão, desde 1657, já lhe custara para cima de 13.000 cruzados, uma pequena fortuna, como não bastasse a Coroa dever-lhe mais de 7 anos de soldos – uma situação frequente entre os capitães de cavalos.

“Não se devia descompor um cavaleiro estrangeiro, homem de tanta experiência, assim no formar das batalhas e batalhões, evoluções da cavalaria e nas mais ciências dependentes da milícia ofensiva e defensiva, e que tem servido a Vossa Majestade desinteressadamente tantos anos, com tanta satisfação e bons sucessos.”

Fora o único capitão de cavalos a permanecer em Olivença, tendo a restante força de cavalaria (400 homens sob o comando do tenente-general francês Achim de Tamericurt) abandonado a praça antes de começarem os trabalhos de cerco. Alegava ter procedido com muito valor durante o sítio e que só ficara em Olivença movido pelo zelo em servir numa arriscada situação. Todos os dias, ao amanhecer, saía a pelejar fora da estacada, “obrando acções memoráveis e dignas de grande estimação”. Dos 96 cavalos que a sua companhia tinha, veio a ficar somente com 37, muitos deles feridos, além de lhe terem matado 5, “a pistoletaços e estocadas, debaixo de sua pessoa”. Recordava ainda vários combates travados no tempo de D. João IV, “que o conhecia, amava, estimava e honrava com muitas cartas suas” (as cartas régias de agradecimento eram muito honrosas para quem as recebia, equivalendo às actuais medalhas como testemunhos de bravura e bom desempenho militar).

Numa das petições, Stéphane de Castille lamentava a acusação de que fora alvo, dizendo que todos os outros implicados se tinham conseguido livrar, incluindo o capitão António Barbosa de Brito, tido na devassa (inquérito) como o principal culpado. Só ele próprio e o compatriota Du Four tinham sido condenados. Acusava o eminente doutor de leis Jorge da Silva Mascarenhas, relator, de ter mandado aceitar como verdadeiros os depoimentos das testemunhas do processo, depois de numa primeira instância as testemunhas terem sido acusadas de faltarem à verdade. O doutor, com influência na Corte, teria procedido assim para livrar de culpa o juiz de fora de Olivença, que era seu sobrinho.

Este juiz de fora, de seu nome João Garcês de Teive, era tido pelo oficial francês como o culpado pela sua condenação, pois “não tendo por onde se livrar, o fez com a perda do suplicante, e alcançou de Vossa Majestade, em lugar de castigo, o cargo de provedor da comarca de Elvas, do qual cargo Deus, como tão justo e recto, não permitiu deixá-lo lograr, pois o alcançou à custa da honra e sangue do inocente que padece”. De resto, desde 1654 que era pública a inimizade entre o juiz de fora e o capitão estrangeiro. A invocação da acção da justiça divina é feita a propósito dos indivíduos que Stéphane de Castille acusava de conjura e falsos testemunhos, pois dos iniciais 106 que assim procederam por temerem o juiz de fora e o seu poderoso tio, já tinham morrido 92, apenas quatro anos volvidos sobre o acontecimento.

Não obstante todos os argumentos invocados, as petições do capitão Stéphane Auguste de Castille continuaram a ser indeferidas pela Coroa. Os nebulosos contornos da capitulação de Olivença nunca seriam esclarecidos. Passam hoje 351 anos sobre a queda da vila alentejana, que seria devolvida a Portugal após a assinatura da paz, em 1668.

Fonte: Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Conselho de Guerra, Consultas, 1661, maço 21-A, caixa 78, consulta de 19 de Julho de 1661 e documentos anexos.

Imagem: Vista de Olivença e arrabaldes a partir da fabulosa torre do castelo. É perceptível a configuração das fortificações seiscentistas, posteriormente melhoradas. Em primeiro plano, o antigo quartel de cavalaria. Foto do autor.

Stéphane Auguste de Castille e a perda de Olivença em 1657 (parte 1)

Em 30 de Maio de 1657, após um mês de cerco pelo exército espanhol, capitulava a vila de Olivença. O mestre de campo Manuel de Saldanha entregava a praça que até então governara ao Duque de San Germán, comandante das forças sitiantes. Contando inicialmente com uma guarnição de 4.000 infantes e uma companhia de 100 cavalos, Olivença viu perecer mais de 1.700 defensores durante as operações de sítio. Enquanto isso, o exército de socorro, confiado pela rainha viúva D. Luísa ao Conde de São Lourenço, desgastava-se inutilmente numa ousada tentativa de tomar Badajoz, em vez de se lançar sobre o exército de San Germán.

A queda de Olivença, coincidindo com o reacender da guerra nas fronteiras do Reino, trouxe consigo um imenso pesar e uma vaga de suspeitas de traição. Nem sequer foi poupado o Conde de São Lourenço, apesar do prestígio alcançado no governo das armas do Alentejo durante a década de 40. Caiu em desgraça, como alguns outros que foram acusados de envolvimento na entrega da praça alentejana ao inimigo.

Uma das acusações mais surpreendentes que os inquéritos em torno da queda de Olivença produziram foi dirigida contra um capitão de cavalos, o francês Stéphane Auguste de Castille, cujo nome aparece também aportuguesado em várias fontes como Estêvão Augusto de Castilho. Não causa estranheza que um estrangeiro fosse tido como suspeito, uma vez que, na época, existia uma enorme desconfiança em relação aos súbditos de reis estrangeiros, mesmo os que se batiam no exército português. Contudo, sobre Castille e um outro seu compatriota, François Du Four, recaíram as culpas da perda da praça, apesar de nenhum deles ter estado envolvido nas negociações da entrega da vila. Condenados, Du Four seguiu para as ferrarias de Tomar, enquanto Stéphane Auguste de Castille foi sentenciado no crime de lesa-majestade e degredado por toda a vida para a Índia por infame, ele e os seus descendentes. O caso deixa entrever uma complexa intriga de bastidores e o envolvimento de pessoas ligadas à burguesia e justiças locais, eventualmente receosas de perderem os bens se a capitulação proposta pelo Duque de San Germán não fosse aceite, e certamente receosas de perderem a vida se acusadas de traição após a rendição. Os estrangeiros poderiam ter servido, assim, de bodes expiatórios muito convenientes.

Entre 1660 e 1661, Stéphane Auguste de Castille escreveu várias petições ao Conselho de Guerra, reafirmando a sua inocência e clamando pela anulação da sentença. Para não tornar esta entrada demasiado extensa, amanhã será aqui publicada a argumentação do cavaleiro francês, bem como a sua versão da estranha intriga em torno da queda de Olivença.

Bibliografia on-line (História de Portugal Restaurado)

Gravura: Planta de Olivença, c. de 1700; Biblioteca Nacional, Iconografia, CC29P. A legenda em francês refere que a tomada da vila pelo exército espanhol ocorreu em 1658, quando na verdade foi no ano anterior. Olivença seria devolvida à Coroa portuguesa em 1668, após a assinatura da paz.

Batalha de Montijo, 26 de Maio de 1644

Comemora-se hoje o 364º aniversário da batalha de Montijo, travada nas proximidades da localidade com aquele nome, na província de Badajoz. Resultou de uma incursão levada a cabo pelo exército do Alentejo, comandado pelo governador das armas Matias de Albuquerque. Não se tratou de uma simples entrada para pilhagem, embora esse fosse também um móbil importante. O futuro Conde de Alegrete levou consigo praticamente todo o exército da província, oito terços pagos com cerca de 6.000 infantes e a cavalaria com 1.100 efectivos, o trem de artilharia com dois meios-canhões de 24 libras, quatro peças de campanha de 7 libras e uma extensa cauda de 205 carros de bois, carretas e 1.000 machos e mulas. Para trás, a guarnecer as praças, ficaram somente duas companhias de cavalaria e as unidades de infantaria da ordenança provincial e as que tinham vindo de Lisboa e de Coimbra. Saiu esta força de Elvas a 16 de Maio. Dez dias depois, após várias escaramuças e depredações, envolvia-se em confronto com o exército da Extremadura, comandado pelo Barão de Mollingen, com 7.000 infantes e 2.500 cavalos, entre os quais várias companhias de caballos corazas, os couraceiros que não existiam ainda entre a cavalaria portuguesa. O choque deu-se sob um intenso temporal, com muito vento e chuva forte, o que impediu a utilização efectiva das armas de fogo.

Não irei fazer aqui a descrição da batalha, pois há diversas relações sobre a mesma, recontadas ao longo dos séculos seguintes. A historiografia portuguesa tem tradicionalmente feito eco da propaganda impressa da época, evocando a vitória obtida por Matias de Albuquerque, que num arremedo de bravura reagrupa a infantaria e vinga a derrocada inicial do exército português, precipitada pela fuga precoce da sua cavalaria. Para os portugueses, Montijo foi uma vitória do exército de D. João IV, a primeira obtida numa batalha campal desde o início do conflito. Todavia, para a historiografia espanhola, a batalha de Montijo é apresentada como uma vitória do exército de Filipe IV, que destroçou o exército inimigo, não obstante o que sucedeu posteriormente. Fixa-se na memória e no imaginário, deste modo, a guerra de palavras a papel e tinta, depois da guerra dos actos, a ferro, fogo e sangue…

A ciência histórica é hoje mais rigorosa nos seus métodos de análise e exigente na interpretação. Revisitar a batalha de Montijo significa afastar os mitos que a encobrem, procurando em fontes esquecidas ou descuradas a resposta para diversas incongruências das narrativas panegíricas. Esta arqueologia da realidade possível tem revelado um cenário diverso e muito interessante em várias perspectivas de análise – mas ainda é cedo para a divulgação, neste caso, pois o estudo ainda está em curso.

Para além do combate propagandístico que ambos os lados levaram a cabo e que ainda marca o nosso imaginário, houve um outro, o ponto de partida bem concreto e terrível, que há mais de três séculos e meio teve lugar nos campos de Montijo. Em memória dos que ali se bateram relembramos o dia 26 de Maio.

Algumas narrativas sobre a batalha de Montijo:

ARAÚJO, João Salgado de, Successos Militares… (veja-se o capítulo XXIV, pgs. 228 v – 231)

AZEVEDO, Luís Marinho de, Apologia militar en defensa de la victoria de Montiio. Contra las relaciones de Castilla, y gazeta de Genoba, que la calumniaron mordaces, y la usurpan maliciosas, Lisboa, en la emprenta de Lorenço de Anveres, 1644.

Relaçam dos gloriosos svccessos, qve as armas de Sua Magestade ElRey D. Joam IV N. S. tiuerão nas terras de Castella, neste anno de 1644. atè a memorauel victoria de Montijo, Lisboa, Antonio Alvarez, 1644.

Relação da entrada que fes o gouernador das Armas Matthias de Albuquerque em Castella, e sucesso da batalha que os Exercitos Portugues e Castelhano gouernados pellos Generaes Matthias de Albuquerque e Barão de Mulingen tiuerão em quinta feira de Corpus dos des do dia ate as quatro da tarde nos campos do Montijo em 26 de Maio de 1644, transcrito in SANTOS, Horácio Madureira dos, Cartas e outros documentos da época da Guerra da Aclamação, Lisboa, Estado Maior do Exército, 1973, pgs. 171-176.

Relacion verdadera do qve lo svcedio en veinte y seis de Mayo passado, en el reencuentro que tuvieron las armas de su Magestad con las del Rebelde Portugues en la campaña de Montijo, Madrid, Carlos Sanchez, sem data [provavelmente 1644].

Estudos sobre a batalha de Montijo:

BARATA, Maria do Rosário Themudo, “Estudo Evocativo sobre a Batalha de Montijo”, in Revista Militar, nº 12, 1994, pgs. 1141-1166.

PIMENTA, Belisário, A Batalha de Montijo, Coimbra, Coimbra Editora, 1945.

Imagem: Poderia ser o cenário de um outro campo de batalha, o das Relações de feitos de armas durante a Guerra da Restauração, onde o combatente da propaganda empunha a sua arma, a pena de escrever. Os apetrechos eram os mesmos que aqui estão retratados. Foto do autor, casa-museu de Oliver Cromwell, Ely, Inglaterra.

Postos do exército português (8) – o capitão de infantaria

O capitão de infantaria comandava uma companhia. A insígnia do seu posto era uma gineta, espontão rematado com borlas na parte superior da haste. Em combate, o capitão podia encarregar o seu pajem do transporte da gineta e armar-se com um pique, um mosquete ou (o que era mais vulgar) combater com espada e rodela. O posto de capitão de infantaria era considerado inferior ao de capitão de cavalos, todavia era um posto de grande consideração na hierarquia militar seiscentista. Sobre a maneira de prover os capitães das companhias, tanto das tropas pagas como das milicianas, esclarece o título 9 do projecto de Ordenanças Militares de 1643:

Para capitães das companhias de infantaria se elegerão alferes reformados e ajudantes, em que uns e outros hajam servido oito anos na guerra com praça assentada debaixo de bandeira, que tenham as partes necessárias para exercitarem com prática e experiência o muito que a cada um deles se oferece e encarrega cada hora que exercitar, e os que forem de mais serviços e aprovados merecimentos nas ocasiões para maiores riscos e empenhos, precederão para serem escolhidos (…).

Porém, como em muitas outras passagens das Ordenanças Militares de 1643, Joane Mendes de Vasconcelos discordou de pormenores do projecto. No caso dos capitães de infantaria, a proposta ia contra a prática assente e instituída de facto, pelo que o experiente cabo de guerra contrapôs:

Nos terços fazem vantagem aos alferes reformados e vivos [isto é, no activo] os que são actualmente da companhia do mestre de campo, porque como governam (de ordinário) a melhor companhia deles, têm maior capacidade a este respeito que os outros, escusa consultarem-se a segunda companhia, que vaga em seu tempo, como também nos esquadrões a segunda manga de bocas de fogo do corno direito se lhes entrega firme. [Note-se, na parte final deste comentário, a referência à disposição e comando táctico.]

Também se devem admitir os alferes vivos para capitães de infantaria, toca também ao alferes entrar em capitão quando em ocasião de peleja morre o capitão da companhia, achando-se o tal alferes na mesma ocasião e proceder nela conforme as suas obrigações, e em sua pessoa concorrem as partes e requisitos convenientes.

As observações de Joane Mendes de Vasconcelos foram todas dirigidas à promoção dos alferes ao posto de capitão nas companhias de infantaria, pois que as funções inerentes ao posto eram bastante claras e sabidas, nem sendo sequer focadas no projecto – excepto no que respeitava aos ditames de ordem comportamental e moral que o capitão devia seguir. Mas aí, a resposta de Mendes de Vasconcelos foi clara:

A repreensão dos vícios que contém este capítulo toca a todos os postos, e assim me parece que se devia encomendar em título particular a conta que hão-de ter os conselheiros e os generais e não proporem a Vossa Majestade para os cargos militares pessoas conhecidas perniciosas, com escândalo.

Bibliografia: AIRES, Cristóvão, Historia Organica e Politica do Exercito Português – Provas, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908, pgs. 55-56.

Imagem: Nesta foto de uma reconstituição histórica levada a cabo pela English Civil War Society, representando uma força de infantaria do New Model Army de Oliver Cromwell, é visível em primeiro plano, à direita, com gola de aço (protecção para o peito), um capitão carregando a gineta (sem borlas). Repare-se na diferença entre a gineta e as alabardas dos sargentos que marcham na primeira fileira da formação, mais atrás.

Desfile no Terreiro do Paço, 1662

Água-forte da autoria de Dirk Stoop, aqui numa reprodução alemã. O pintor flamengo acompanhou a princesa D. Catarina de Bragança a Inglaterra, na ocasião dos esponsais com o rei Carlos II. A cena retrata o embarque da filha de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão em 20 de Abril de 1662. Note-se a semelhança da disposição da força militar, em segundo plano na parte superior da água-forte, com o quadro que representa uma formatura militar no Terreiro do Paço, do espólio do Museu da Cidade de Lisboa. Trata-se, com pouca margem para dúvidas, de uma composição inspirada na mesma ocasião. Stoop também pintou o desfile da entrada de D. Catarina em Londres, num quadro onde também são evidentes as similitudes com o cortejo apresentado em primeiro plano na parte superior da água-forte.

Biblioteca Nacional, Iconografia, E1977V.


Postos do exército português (7) – o tenente

O termo tenente (de tenere, possuir) é a designação abreviada de lugar-tenente, ou seja, o que usufrui de algo – neste caso, um cargo – em lugar do titular. No Portugal militar do século XVII só se encontrava o tenente na cavalaria, pois ao contrário do que sucedia em outros exércitos europeus do período, não existia este posto na infantaria – as funções de segundo-comandante de uma companhia cabia, neste caso, ao alferes.

De acordo com o já aqui referido esboço de tratado de D. João de Azevedo e Ataíde, surge entre páginas 31 e 33 sobre o tenente o seguinte:

A segunda pessoa que há em uma companhia de cavalos depois do capitão é o seu lugar tenente. Deve ser pessoa de valor, em que concorram muitas partes juntas com boa prática e experiência no serviço da cavalaria, por ser ele o que só em ausência do capitão governa tudo (…).

Havendo de pelejar a companhia em ausência do capitão, ou marchar por lugares suspeitos, vai o tenente diante no lugar do capitão, deixando em seu lugar um ou dois cabos mais antigos ou outro algum oficial reformado que seja pessoa de respeito, mas fora destes casos não passa diante, porque então o guiar a companhia toca ao alferes, que vai diante.

O tenente era, portanto, o comandante da companhia na ausência do capitão, mas a sua colocação à cabeça da formação era preterida em favor do alferes quando a companhia marchava sem perigo de encontro com o inimigo, ou quando desfilava em sossego. Assim o exigia o cerimonial militar.

Passando à tradução de Galeazzo Gualdo Priorato, feita pelo Conde de Sabugal, D. João de Mascarenhas, é referido a folhas 75-76 v sobre o tenente:

Há-de fazer-se obedecer rigorosamente dos soldados, (…) e que tenham cuidado com as armas e com os cavalos, porque de ordinário, pela negligência dos soldados e por pouco cuidado dos oficiais, se reduz tudo ao péssimo estilo.

Quando se ofereça ocasião de pelejar deve parar o tenente no seu posto detrás da companhia, com a espada na mão, e fazer que os soldados estejam bem recolhidos e que façam a sua obrigação, e se algum se quiser retirar da sua fileira pode matá-lo para dar exemplo aos outros.

Quando a companhia alojar em alguma povoação deve o tenente receber os boletos e dá-los ao furriel, para que ele os distribua com os soldados. (…) Em ocasião de montar a cavalo é obrigação do tenente ser ele o primeiro, e deve com diligência discorrer [acorrer] a uma e outra parte, para fazer que os soldados montem depressa, castigando aos negligentes.

Não deve nunca o tenente ter contenda com o seu capitão, nem cuidar que sabe mais que ele, porque disto nascem as desconfianças que são as ruínas das companhias (…).

Esta última observação será melhor entendida se nos recordarmos que muitas companhias de cavalaria, não só em Portugal como noutras partes da Europa, eram formadas às custas dos capitães seus comandantes; estes nem sempre tinham a experiência militar necessária, e não era invulgar que os tenentes fossem militares de carreira que colmatavam as lacunas dos seus superiores.

Tal como acontecia na infantaria com o alferes, que comandava efectivamente a primeira companhia de um terço (aquela que, em teoria, era capitaneada pelo mestre de campo), na cavalaria o tenente comandava habitualmente a companhia de um oficial maior (oficial superior, na designação actual): comissário geral, tenente-general, general ou governador, ou inclusive a companhia da guarda do governador das armas da província.

Imagem: “Cena de combate de cavalaria”, Joahnnes Lingelbach, 1651-1652, The J. Paul Getty Trust.