Os dragões na Guerra da Restauração: desfazendo um mito

Não é raro ver referências à existência de dragões como um dos dois tipos de cavalaria existentes durante a Guerra da Restauração, sendo o outro os cavalos couraças. Esta confusão entre dragões e arcabuzeiros a cavalo é um dos mitos sobre o período que mais tem persistido, em boa parte pela repetição de erros surgidos em obras de autores dos séculos XIX e primeira metade do XX, como Rebelo da Silva, Fortunato de Almeida e Carlos Selvagem (cujo Portugal Militar é uma verdadeira armadilha para quem o toma como “manual” de História Militar de Portugal).

Acontece que os dragões, nesta época histórica, eram infantaria montada. O seu emprego táctico era diferente da cavalaria: combatiam sempre desmontados, dando cobertura à infantaria e à cavalaria a partir de posições abrigadas (em pequenos bosques, atrás de muros, sebes, em casas ou ruínas, etc.) e emboscando o inimigo. Um dos exemplos célebres da utilização de uma força de dragões emboscada, surpreendendo um dos flancos do dispositivo inimigo, aconteceu na batalha de Naseby em 1645, durante a Guerra Civil Inglesa (o regimento do coronel Okey, do New Model Army de Cromwell). Além disso, ao contrário da cavalaria, estavam armados com arcabuzes de mecha e não com carabinas, o que impedia a sua utilização a partir da sela.

Dois motivos contribuíram para a origem desta confusão. O primeiro radica na origem dos genuínos dragões, surgidos no século XVI como infantaria montada – piqueiros e arcabuzeiros montados em rocins, para lhes conferir maior mobilidade. Os arcabuzeiros passaram a acompanhar regularmente a cavalaria pesada (os lanceiros e mais tarde os couraceiros, sobrevivência da cavalaria pesada medieval) e acabaram por dar origem ao tipo de cavalaria ligeira designada por arcabuzeiros a cavalo. A função táctica e o armamento foram sendo adaptados ao combate montado, e embora os dragões continuassem a ser utilizados, foram remetidos ao seu papel original de infantaria montada, separando-se dos arcabuzeiros a cavalo. Só na parte final do século XVII é que os dragões passaram a ser considerados como um tipo de cavalaria, podendo combater tanto a cavalo como desmontados.

O outro motivo tem origem em algumas fontes do período, onde se patenteiam os confusos saberes (ou melhor, a falta de conhecimentos sólidos) por parte dos conselheiros militares da Coroa portuguesa, logo após a Aclamação de D. João IV. Porventura fruto de leituras mal digeridas de tratados militares do início do século XVII e até do século anterior, o certo é que o projecto de Ordenanças Militares de 1643 preconizava a constituição (anacrónica e confusa) de companhias de lanças, couraças e dragões! Joane Mendes de Vasconcelos, nos seus comentários à proposta das Ordenanças Militares, procurou corrigir o absurdo – tratava-se de um militar com experiência de combate de cavalaria e tinha conhecimento de causa. Foi este general que aconselhou a formação de companhias de couraceiros e de arcabuzeiros a cavalo, esclarecendo que os dragões, conquanto fossem úteis, eram infantaria montada e não deviam, portanto, fazer parte da cavalaria.

O facto é que, durante alguns anos, houve uma companhia (portuguesa) de dragões no exército português e a sua organização era semelhante à das companhias de arcabuzeiros a cavalo. Além disso, houve várias ocasiões em que alguma infantaria dos terços foi montada em rocins e sendeiros, transformando-se assim provisoriamente em… dragões! Mas isso será tema para uma próxima entrada.

Imagem: Parte de equipamento de dragão – capacete, colete de couro, espada, bolsa e bandoleira com frascos. A bandoleira era idêntica à utilizada pelos mosqueteiros e arcabuzeiros da infantaria. Ilustração retirada da obra de P. H. Ditchfield, Vanishing England, London, Methuen & Co. Ltd., 1910.