O combate de Cabeço de Vide, 23 de Abril de 1649 (3ª e última parte)

Originalmente, a data que surgia no título desta série de artigos era a de “22 de Abril”. Fora induzido em erro pelo texto de Mateus Rodrigues, mas ao reler um documento oficial (a carta do governador das armas Martim Afonso de Melo) pude verificar que o combate ocorreu, de facto, numa sexta-feira, 23 de Abril, dia de São Jorge. É ao combate e suas consequências que o texto de hoje é dedicado.

Em que consistiu o perder-se o inimigo foi o virmos a buscar para pelejar connosco. Que se se deixara estar como estava, tão forte, estava bem arriscado o não podermos romper, (…) e assim se averiguou que nisso consistiu, porque nunca quem buscou primeiro vai tão forte como o que está quedo. Finalmente, que assim como nós fomos chegando ao regato que estava ao pé do outeiro aonde estava o inimigo, vem-se abaixo com a vanguarda só a receber-nos e a pelejar connosco. Mas o famoso [tenente-general Tamericurt] fez logo alto com o seu batalhão, esperando que o inimigo o cometesse primeiro. Chegou o inimigo à nossa vanguarda com brava resolução (…), e logo deu primeiro uma notável carga de cravinas e pistolas, que não há dúvida que caíram alguns dos nossos com ela. E assim como a deu vem-se a eles à espada com uma fúria que parecia que levavam tudo de coalho, mas a nossa gente se deixou estar mui cerrados que parecia uma muralha, e mais já haviam caído muitos com a carga que o inimigo deu (…). Averbado (…) com a nossa vanguarda, já todos juntos, dando uns nos outros muita pancada, sem o inimigo poder nunca romper (…), que era o que determinava. Contudo, como eles viram que não puderam levar a vanguarda, fazendo-lhe as diligências possíveis, dão as costas outra vez para trás, mas apenas eles as tinham dado, já a nossa vanguarda lhe estava em cima com grande valor, matando e ferindo. E logo a nossa batalha e reserva, que até aquele tempo estavam vendo em que parava a nossa vanguarda, logo foram sempre nas suas costas, sempre formados, dando-lhe calor [ou seja, dando apoio]. E assim como o inimigo chegou ao cimo do outeiro aonde estava sua reserva, quis ali tornar a ter mão com a sua reserva (…). Ali em o outeiro houve mais pancadas que aonde o inimigo nos cometeu [primeiro], mas arrimou-se logo a nossa reserva toda, e com facilidade se determinou o inimigo a fugir (…).

Esta narrativa de um combate de cavalaria deixa bem claro quão importante era a resistência oferecida pela vanguarda que recebia o choque das tropas que a carregavam. Se se rompia essa primeira linha de batalhões, a perseguição podia levar a confusão às outras linhas (chamadas batalha e reserva). Por outro lado, se os atacantes não conseguiam romper a vanguarda inimiga e necessitavam de fazer meia-volta para se reagruparem à retaguarda, a perseguição de que seriam alvo poderia revelar-se fatal para a coesão das restantes forças. Foi isso que sucedeu às tropas comandadas por Juan Jacome Mazacan, neste combate perto de Cabeço de Vide.

(…) E tanto que ele se deliberou a fugir, então direi eu que não havia mãos a medir (…), antes que ele entrasse na coutada de Cabeço de Vide, que estava um quarto de légua de onde foi a bulha, (…) [já] os nossos iam tão enfrascados neles [que] não se podiam apartar deles, que não há gosto para um soldado como ir seguindo o inimigo que vai com a proa no vento, vendo por donde escapará.

Findo o combate com a fuga das forças de Mazacan, a população de Cabeço de Vide veio saudar os vencedores.

(…) Não ficou gente na vila, que todos saíram cá fora (…) e (…) nos davam grandes vivas e louvores e que nos não havia de faltar nada na vila aquela noite, e bem cumpriram sua palavra (…). Entrámos logo para dentro da vila de Cabeço de Vide com grandioso gosto e alegria de ver que nos dera Deus tão honrado dia, e o bem-aventurado São Jorge, que era em o seu dia, a quem o Conde Martim Afonso de Melo faz festa todos os anos por lhe dar aquela vitória. (…) Não sabia a gente de Cabeço de Vide que nos fizesse com tanto gosto como nos receberam aquela noite em suas casas, que não havia galinha que não matassem, nem tinham coisa boa que não nos dessem. De modo que toda a fazenda que o inimigo tinha junto, tudo ali ficou, e foram seus donos a buscar cada um o que lá tinha e não lhe faltou nada. E na verdade que ficavam aqueles lugares todos perdidos se o inimigo lhe levava aquela pilhagem.

No rescaldo do combate, segundo Mateus Rodrigues, foram capturados mais de 250 cavalos, mas os camponeses terão escondidos vários que encontraram pelos campos. As perdas da força incursora cifraram-se em mais de 50 mortos, entre os quais 3 capitães, e 260 prisioneiros. A cavalaria portuguesa sofreu menos de 30 mortos, mas 100 soldados ficaram feridos. A violência da refrega fica bem patente pelas baixas sofridas por ambos os lados, tendo em consideração que os efectivos seriam cerca de 600, do lado português, e cerca de 700, do lado espanhol. Entre os mortos do exército português contava-se o capitão Latouche, francês que servia o rei D. João IV desde 1641, dois tenentes e três alferes. Neste combate também ficou ferido o jovem capitão Dinis de Melo de Castro (uma bala em uma perna e todo o corpo por fora crivado um capotilho que levava sobre as armas), cuja brilhante carreira militar só terminaria no início do século XVIII, durante a Guerra da Sucessão de Espanha, já como Conde de Galveias.

(Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM: pgs. 159-162).

Imagem: Combate de cavalaria em frente de um moinho em chamas, Philips Wouwerman, Gemäldegalerie, Dresden.

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O combate de Cabeço de Vide, 23 de Abril de 1649 (2ª parte) – a disposição táctica

Juan Jacome Mazacan (ou Mazacani, pois era napolitano de nascimento) era um militar bem conhecido dos portugueses. O soldado Mateus Rodrigues refere-se-lhe algumas vezes nas suas memórias. Comandava desde 1644 a guarnição de Zarza la Mayor, e embora o seu território de operações fosse habitualmente a fronteira que confinava com a Beira, entrou por vezes com a sua cavalaria pela raia alentejana. É nesta província que se encontra com a cavalaria portuguesa sob o comando do tenente-general francês Achim de Tamericurt em 23 de Abril de 1649, nas proximidades de Cabeço de Vide, não muito distante da vila de Fronteira.

Na continuação da narrativa, percorremos hoje a disposição táctica das forças, segundo o testemunho de Mateus Rodrigues.

(…) De modo que o dito Mazacan, assim como nos viu a todos, disse para a sua gente (…) senhores, soldados e capitanes, nos tenemos aqui mui buena pillaje de ganados, pero mejor es la que hemos de tener de aquesta que aca viene [em castelhano no original]. (…) E passando o nosso comissário [quer dizer, o tenente-general Tamericurt] pela vanguarda de toda a nossa cavalaria, dizendo aos capitães e mais soldados que não houve[sse] descomposição nem rumor, senão mui calados e cerrados e que fize[sse]mos todos como ele esperava de tão bizarros soldados como nós éramos [na época, a palavra bizarro era aplicada áquele que se distinguia pela sua valentia]; de maneira que se foi para a vanguarda pelejar (…), que iam cinco companhias na vanguarda, muito boas e [com] bons capitães, que era a companhia de um francês, por nome Latuie [Latouche], que o mataram ali, e a companhia do capitão João Homem Cardoso, e a companhia do comissário de Olivença, Duquesne, e a companhia do capitão Dinis de Melo [de Castro], que foi a primeira ocasião em que se achou depois de [promovido a] capitão de cavalaria e procedeu tão bizarramente como adiante direi, e assim mais a companhia do capitão João de Oliveira Delgado, e estas cinco companhias que na vanguarda iam teriam 200 cavalos (…) e as outras iam 4 na batalha e outras 4 na reserva, tudo mui composto e com ordem, na batalha ia o capitão Fernão de Mesquita [Pimentel] por cabo , e na reserva ia o capitão António Jacques de Paiva por cabo. De maneira que assim como o inimigo nos viu com determinação de pelejar, não fez mais que formar-se em (…) vanguarda e reserva, mas na vanguarda pôs todos os bons soldados e oficiais (…), e fê-lo mui grosso, que trazia na vanguarda perto de 400 cavalos, porque fazia conta que, em nos rompendo a vanguarda, que nos fizesse fugir, que logo a demais [cavalaria] havia de fazer o mesmo. Que não há dúvida que era uma ocasião daquelas [em] que é necessário haver bons cabos diante e bons soldados, que se uma vanguarda se rompe, ou sua ou nossa, é necessário muito auxílio de Deus e valor para terem bem mão, vendo fugir a sua vanguarda, e por isso o inimigo se fundava nestas circunstâncias (…). Aonde (…) se formou era um cabeço alto, e ao pé dele corria um ribeiro (…). E todo o gado, assim bois como ovelhas e cabras e porcos e muitas cavalgaduras, tudo isto estava junto, ao pé do inimigo, por onde havíamos de passar forçadamente [forçosamente]. E pelo meio de lá rompemos, e era tanto o fato de roupa que estava pelo chão, que eles haviam roubado pelos montes, que podiam carregar um navio, que todos os castelhanos (…) largaram [d]as garupas para pelejarem mais à sua vontade, e desembaraçados.

(Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM: pgs. 157-159).

Agradeço muito especialmente a colaboração do amigo e investigador de Zarza la Mayor, senhor Juan Antonio Caro del Corral, que tem disponibilizado muita informação sobre o período da Guerra da Restauração – e neste caso, a obra de Gervasio de Velo Y Nieto, Escaramuzas militares en la frontera carcereña con ocasión de las guerras por la independencia de Portugal, Madrid, 1952, de onde me foi possível recolher alguns dados sobre o percurso militar de Juan Jacome Mazacan.

Imagem: Mapa de Portugal, cerca de 1700 (detalhe da província do Alentejo). Note-se a pequena diferença do topónimo, que surge como Cabeça da Vide. Biblioteca Nacional, Cartografia, CC164P.

Imagens de Cabeço de Vide, da arquitectura de hoje e do passado (e da tranquila paisagem dos arredores) podem ser vistas aqui.

O combate de Cabeço de Vide, 23 de Abril de 1649 (1ª parte)

As narrativas de Mateus Rodrigues (Matheus Roiz) sobre as operações militares em que participou são muito interessantes pelos detalhes que revela, ainda que escritas num português pouco correcto no estilo e na forma, mesmo pelos padrões do século XVII. Como as memórias foram passadas ao papel vários anos após os acontecimentos vividos, o autor comete, por vezes, erros de pormenor, principalmente quanto à datação dos eventos. É o caso da interessante narrativa que o ex-soldado de cavalaria produziu a respeito do combate de Cabeço de Vide, ocorrido em 23 de Abril de 1649 – mas que o memorialista situa no tempo dois anos e um dia antes. Uma carta de Martim Afonso de Melo, Conde de São Lourenço, datada de 24 de Abril de 1649 (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Conselho de Guerra, Consultas, 1649, maço 9, nº 93) permite corrigir o erro de Mateus Rodrigues e corroborar, no essencial, o que se passou nesse recontro. Mas para os detalhes bélicos vistos a partir do chão (ou melhor, da sela do cavalo), nada melhor do que seguir o que a pena do combatente riscou no papel há mais de 350 anos.

Martim Afonso de Melo, governador das armas do Alentejo, teve conhecimento que o inimigo tinha tenção de fazer uma entrada às nossas partes de Cabeço de Vide e Crato e Fronteira e Monforte. (…) Mandou logo a Olivença uma ordem, que viessem das companhias que lá estavam três ou quatro para Vila Viçosa, e assim mais a que estava em Terena e a do Alandroal. (…) E logo o Conde Martim Afonso de Melo mandou para lá ao comissário, que então era Achim de Tamericurt [mais uma confusão do autor – o francês Tamericurt era já tenente-general, e foi acompanhado nessa missão pelo seu compatriota Pierre Maurice Duquesne, esse sim, comissário geral] para que assistisse com elas, para dali acudir a qualquer parte donde o inimigo entrasse.

Passaram 5 ou 6 dias sem que houvesse notícia da cavalaria espanhola, até que o Conde de São Lourenço recebeu a informação de que as forças inimigas se preparavam para acampar entre Assumar e Arronches e que eram compostas por 800 cavalos e 600 infantes, e que enviara mais 700 cavalos a pilhar várias localidades. Os portugueses tinham menos de 400 cavaleiros para se lhes oporem, entrando aqui em conta as companhias de Elvas (segundo o Conde de São Lourenço, pois Mateus Rodrigues refere que eram quase 600).

(…) Mas não foram todas senão oito [Elvas tinha então 12 companhias], as maiores e melhores. E logo saímos para fora da cidade a sol posto e (…) já fora, junto dos arcos da Moreira, (…) chamou [Martim Afonso de Melo] o meu tenente, que era homem de grande préstimo e valor, e lhe disse que havia de ir (…) a Vila Viçosa avisar [Tamericurt] (…) que montasse com elas [as 6 companhias que lá estavam] e fosse ter a Veiros [n]aquela noite. (…) Partiu-se o meu tenente em um cavalo que tinha, que era um assombro, o nome do tenente era Agostinho Ribeiro. (…) E quando nós juntámos todas as nossas companhias em Veiros (…), algumas delas eram mui pequenas, mas ainda tinham mui perto de 600 cavalos, porque havia algumas companhias grandes (…), a minha não levava mais de 24 cavalos e não levava capitão, que já D. João de Ataíde (…) se havia ausentado para Coimbra [na verdade, havia quase dois anos que isso sucedera; a companhia foi entregue posteriormente ao capitão Francisco Pacheco Mascarenhas], não ia senão o tenente e alferes.

O tenente general Tamericurt recebera ordens escritas do governador das armas para se opor à entrada do inimigo, e que peleje com ele, pois é crédito nosso, e não repare em que tenha mais cavalaria, que a não o fazer assim se haverá El-Rei por muito mal servido de vossa mercê e em mim me terá por inimigo. (…) Saímos de Veiros já quase manhã e nos fomos marchando na via de Cabeço de Vide, aonde era que o inimigo se dizia andar. E já tínhamos marchado duas léguas de Veiros pela estrada adiante sem em todos aqueles campos haver notícia alguma de inimigo, (…) que como aqueles campos estão ainda povoados de montes com lavradores, era de espantar não haver um aviso, estando o inimigo naquelas partes. E assim como [o tenente-general Tamericurt] viu a quietação da campanha, mandou chamar todos os furriéis das tropas para que fossem diante tomar alojamentos para as companhias e livranças de mantimentos para os cavalos e pão para os soldados.

Partindo para a missão que lhes tinha sido confiada, os 17 homens destacados (os furriéis, alguns soldados e um ajudante da cavalaria) em breve toparam 40 cavaleiros espanhóis que guardavam uma passagem num ribeiro. Esta pequena força retirou, sendo seguida pelos portugueses, a quem procuravam os espanhóis atrair a uma emboscada. Pouco tempo depois travou-se uma escaramuça, à qual foram acudindo mais tropas portuguesas. Entretanto, os batedores informaram Tamericurt que tinham descoberto o grosso da força inimiga, a cerca de meia légua de Cabeço de Vide, perto do local onde se escaramuçava.

O inimigo [estava] mui bem formado em três formas, que era vanguarda e batalha e reserva. (…) Ele via-se com mais cavalaria do que nós íamos, e além disso tinha uma notável presa de gados (…) que havia juntado em todos os campos daqueles lugares que ficavam destruídos para sempre, e também via o inimigo que era a primeira vez que vinha a fazer entrada com a cavalaria lá de cima da Beira, que vinha ali por cabo um comissário da Sarsa [Zarza la Mayor] que chamam Mazacan, que o mandou vir o governador de Badajoz de lá com o seu partido para fazer a dita entrada. (Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM: pgs. 153-157).

A entrada fora ordenada pelo Barão de Mollingen, o qual estava quase a ser substituído como mestre de campo general pelo Marquês de Mortara. Como era costume na fronteira, quando um cabo de guerra estava prestes a deixar o seu cargo, mandava fazer uma grande incursão de pilhagem “de despedida”, visando obter lucros consideráveis com a venda das presas. E assim nos aproximamos do combate, que será descrito nos próximos artigos.

Imagem: Cavalos arcabuzeiros em acção. Reconstituição histórica, Kellmarsh Hall, 2007. Foto do autor.

Ainda os dragões e as razões da sua descontinuidade no exército português

Para além dos motivos financeiros enunciados por Martim Afonso de Melo, Conde de São Lourenço, para justificar a transformação da solitária companhia de dragões em cavalos arcabuzeiros na província do Alentejo, registe-se a opinião de D. Luís de Meneses, Conde de Ericeira, a respeito do mesmo assunto:

Mandou El-Rei dividir a cavalaria em tropas de Couraças, e Arcabuzeiros. Formaram-se algumas [na verdade, apenas uma, pois as outras não passaram do papel] de Dragões, que duraram pouco, avaliando-se o seu exercício em Alentejo por inútil, por haver naquela província poucos montes, e menos rios, e na campanha rasa ser mais arriscado que necessário o exercício dos Dragões.

(Conde de Ericeira, História de Portugal Restaurado, Parte I, Tomo II, Lisboa, na Officina de Domingos Rodrigues, 1751, pg.161)

Imagem: “Soldados equipando-se”, pormenor de um quadro de Jacob Duck, Minneapolis Institute of Arts. O militar da direita apresta-se a colocar a bandoleira com os “doze apóstolos” dependurados (cada frasquinho tinha pólvora suficiente para um tiro de arcabuz ou mosquete), mas o uso de botas e esporas revela que é um dragão.

O uso de “uniformes” na cavalaria

Com toda a propriedade, devemos colocar entre aspas a palavra uniformes quando nos referimos à indumentária da cavalaria durante a Guerra da Restauração. Se, entre a infantaria, o uso de uniformes no sentido moderno da palavra começava a dar os primeiros passos, mais por iniciativa pessoal dos comandantes dos terços do que por institucionalização, já entre a cavalaria seria difícil levar a cabo a distinção de unidade para unidade com base no equipamento usado. Em primeiro lugar, porque o equipamento defensivo da cavalaria era muito semelhante em qualquer exército do ocidente europeu do período – coletes ou casacas de couro e couraças de aço. Em segundo lugar, porque a companhia continuava a ser a unidade administrativa básica nos exércitos português e espanhol e as preocupações imediatas que sobrecarregavam os capitães em termos financeiros tinham que ver com a manutenção das montadas e do material de guerra imprescindível aos combatentes. A aparência distinta da sua unidade em relação às demais era um luxo impensável para a esmagadora maioria dos comandantes de companhia.

Além disso, é questionável que o conceito actual de uniforme estivesse formado na época. O uso de casacas de cores idênticas no seio de uma unidade, distinguindo-a das outras do mesmo exército, se não constituía novidade (veja-se como exemplo o exército sueco de Gustavo Adolfo), era pouco frequente, e quase sempre encontrado na infantaria. É provável que a preocupação de um comandante como Roque da Costa Barreto em dotar a sua unidade com casacas de cores específicas relevasse mais da ideia de libré (cor tradicional usada pela criadagem de uma casa nobre), do que aquilo que a partir dos finais do século XVII seria tido como norma militar. Mesmo nos casos em que uma determinada cor predominava num exército, ao ponto de se tornar um símbolo de identificação do mesmo (o vermelho das casacas inglesas, introduzido a partir do New Model Army de Cromwell em 1645), os motivos originais da escolha eram económicos e de facilidade logística – por exemplo, o corante que produzia a tonalidade escura de vermelho era relativamente comum e barato, sendo adequado ao tingimento de uma quantidade considerável de tecido.

Apesar de tudo o que acima ficou escrito, é possível encontrar na cavalaria alguns exemplos de unidades que se notabilizaram, em dada altura, pelo uso de equipamento distinto das demais. A sua excepcionalidade é revelada pelos documentos que os referem. Nenhuma delas era composta por portugueses. Assim, a companhia da guarda do Conde de Schomberg, durante a campanha do Alentejo em 1663, usava casacas azuis sobre as armas de corpo (ou seja, sobre a couraça de peito e espaldar). Note-se que não era invulgar o uso de casacas de tecido sobre as armas de corpo. Dois anos mais tarde, na batalha de Montes Claros, a mesma guarda usava capas vermelhas com cruzes brancas. Menos certo é que a cavalaria inglesa usasse casacas vermelhas, como a sua infantaria, mas a hipótese não é de pôr de parte. Outra unidade distinta era a cavalaria da guarda de D. Juan de Áustria, que na batalha do Ameixial, em 1663, usava casacas amarelas. E um documento inglês relativo à batalha de Montes Claros refere o regimento de cavalaria do alemão Conde de Rabat (que pertencia ao exército espanhol comandado pelo Marquês de Caracena) uniformemente equipado com casacas de cor castanho-claro, embora a passagem possa significar que todos usavam apenas casacas de couro. São, todavia, momentos excepcionais em que unidades de cavalaria são referenciadas pela sua aparência peculiar.

Bibliografia:

A Anti-Catastrophe, Historia d’ElRei D. Affonso 6º de Portugal, publicada por Camilo Aureliano da Silva e Sousa, Porto, Tipographia da Rua Formosa, 1845.

“A Relation of the last summers Campagne in the Kingdome of Portugall, 1665”, anonymous (by an officer of an English Regiment of Horse), 23 June 1665, The National Archives, SP89/7, fl. 49.

Imagem: Pormenor de um quadro de Jacques Callot (da colecção do Museu de Versailles), onde dragões do exército francês (reinado de Luís XIII) ostentam capas vermelhas com cruzes brancas. Uma inspiração para a cavalaria do Conde de Schomberg que se bateu em Montes Claros? Todavia, a moda e o trajo eram já diferentes por altura da batalha de 1665, nas proximidades de Vila Viçosa.

Postos do exército português (9) – o capitão de cavalaria

De todos os postos militares, aquele que maior peso tinha no imaginário seiscentista era o de capitão de cavalos. Associado aos valores herdados da nobreza medieval, do capitão de cavalos se esperava, no mínimo, que servisse com a honradez que os ancestrais pergaminhos exigiam. E por isso, a ideia de que o posto devia ser confiado apenas a pessoas de nobre nascimento ainda prevaleceu nas mentes mais conservadoras de alguns, pelo menos nos anos iniciais do conflito. A realidade, todavia, encarregar-se-ia de demonstrar que era preciso muito mais do que uma ascendência fidalga para encabeçar uma companhia de cavalos. A evolução dos modos de fazer a guerra não se compadecia com alguns arcaísmos que teimavam em subsistir. Mas num aspecto o mundo material não desenganava a concepção imaginada das qualidades do posto: os capitães de cavalos eram responsáveis pelas suas companhias ao ponto de garantirem, do seu próprio bolso, a aquisição e manutenção das montadas. A Coroa nunca conseguiu cumprir pontualmente as suas obrigações com os soldos e outras despesas necessárias à manutenção das companhias de cavaria. Isto explica, em parte, o grau de autonomia dos capitães de cavalos e a não introdução do sistema de regimentos no exército português (aliás, também não o havia no exército espanhol).

Em Portugal, as companhias de cavalos do exército pago ou das milícias da ordenança, auxiliares, pilhantes ou moradores eram sempre comandadas por capitães. Exceptuavam-se as companhias dos oficiais superiores, que na prática estavam a cargo dos respectivos tenentes. Havia, no entanto, uma distinção entre os capitães de couraças e os capitães de cavalos arcabuzeiros. As disputas quanto à primazia de uns sobre outros foram motivo para quezílias e mal-entendidos. Só em 1651 ficou assente que os capitães de couraças seriam considerados superiores, na hierarquia militar, aos de cavalos arcabuzeiros, pois até essa data valia a antiguidade das cartas de patente de cada um, o que causava ressentimentos entre os capitães de couraças, cujas companhias eram mais prestigiadas.

Mas o que seria de esperar de um capitão de cavalos? Alguém que passou pelo posto sem grande experiência prévia, nem brilhantismo no desempenho, apesar de possuir a qualidade da nobreza associada à condução de uma companhia, deixou assim escrito no seu esboço de tratado:

O posto de capitão de cavalos, por ser de tanta autoridade e reputação em Espanha, foi sempre pretendido e requisitado de Príncipes e Senhores grandes, em que ainda ordinariamente e assim se devia sempre de prover, não deixando contudo de fora aos soldados de nome e de merecimentos, entendendo-se que na guerra o valor se iguala à melhor nobreza, que só por si não basta para fazer a um capitão perfeito sem ser acompanhada com alguma prática e experiência das armas (…).

Pelo que o capitão que não tiver de guerra muita experiência procurará trazer junto a si algum bom oficial ou soldado velho de suficiência, para que faça menos faltas ou lhe encubra algumas (…).

(…) Os capitães são todos livres administradores de suas companhias e provêem os cargos delas como lhes parece absolutamente, como é tenente, alferes e os outros todos, podendo-os dispor e despedir na mesma forma, dando conta ao general ou ao seu lugar-tenente em sua ausência, que devem deixar aos capitães em sua liberdade, por ser esta a sua preeminência.

Uma visão que reflecte uma noção mais assente na realidade da guerra no terreno. Foi D. João de Azevedo de Ataíde que assim escreveu, a páginas 34 até 37 do seu tratado de cavalaria, entre os anos de 1644 e 1647.

Imagem: Oficiais de cavalaria. Pormenor do painel de azulejos relativo ao último combate da Guerra da Restauração na fronteira de Trás-os-Montes. “Sala das Batalhas”, Palácio dos Marqueses de Fronteira.

Relação do saque e queima da vila de Membrio em 28 de Abril de 1644 (3ª e última parte)

Enquanto a força comandada pelo tenente de mestre de campo general Diogo Gomes de Figueiredo (pai) se preparava para iniciar o assalto a Membrio,

(…) O terço de Dom Nuno Mascarenhas (…) fez alto, formado em dois batalhões para aquela parte donde podia vir socorro inimigo, e os nossos batedores de cavalo bem ao largo do lugar por fora da cavalaria, para avisar se de Valença [Valencia de Alcántara], Ferreira [Herreruela], Carvajo [Carbajo] e outros lugares daqueles redores lhe vinha algum socorro.

É de notar a referência ao emprego, muito vulgar nas incursões, de uma força de cobertura e apoio, normalmente composta por um ou mais terços de infantaria e alguma cavalaria. A sua missão era aguardar, num determinado ponto afastado do objectivo, pelas unidades mais móveis que executavam o golpe de mão, evitando a intercepção destas por eventuais forças inimigas de reforço. Finda a acção de saque e pilhagem, a força pilhante incorporava-se com a de cobertura e apoio, regressando às suas praças de origem com o produto do saque. Este procedimento era posto em prática por ambos os exércitos beligerantes nas respectivas entradas em território inimigo. Mas prossigamos com a acção em Membrio:

Resistiram os nossos pelejando contra o inimigo fortificado na igreja mais de quatro horas, fazendo-lhe muito dano com a mosqueteria e granadas, e porque o principal intento era queimar o lugar depois de saqueado (…), brevemente ardeu de sorte que nenhuma casa ficou por abrasar, aproveitando-se do saque mais os moradores de nossas fronteiras do que os soldados, que nesta ocasião só se empregaram em pelejar, não largando nunca as armas da mão.

Vendo o tenente [de mestre de campo] general Diogo Gomes que tinha satisfeito com a ordem que levava, porque para o mais que a ocasião e o ânimo dos soldados lhe oferecia não levava instrumentos convenientes, e que os mesmos capitães, por falta deles, faziam torneiras [buracos por onde podiam disparar] nas paredes com as adagas e as espadas, e que as informações que se deram do lugar foram que não havia nele coisa forte, e que da igreja lhe matavam alguma gente, não podendo atalhar este dano por[que] as nossas granadas não eram de proveito por ser muita a distância, mandou pôr fogo às casas junto da igreja, para que com o fumo, ou não fôssemos vistos, ou se o inimigo saísse nós entrássemos com ele de companhia na sua fortificação. E reconhecendo tudo pessoalmente, ordenou aos capitães que retirasse a gente com estes intentos, o que se fez com muito vagar e boa ordem, e porque então com mais ousadia se descobria o inimigo, é provável que se lhe matou muita gente, assim o disse um prisioneiro (…).

Retirada toda a gente à parte donde havia desmontado a infantaria das cavalgaduras de albarda, juntamente cinco soldados mortos e dois artilheiros, catorze ou quinze feridos, entre os quais foi o capitão Inácio Pereira com três balázios, o ajudante António da Costa e três sargentos e os demais soldados, a que o padre Frei Simão de Lima acudia entre as balas a confessar e fazer curar com grande caridade e valor, e postos todos a cavalo por caminho mais breve se marchou para Castelo de Vide à vista de Valença, recolhendo a nossa cavalaria toda a sorte de gado que se achou por aqueles distritos, que foi muito, e fermoso.

O inimigo saiu de Valença com intento de impedir-nos o passo no rio de Sever, que por ali não é tão fragoso, e tendo disto notícia (…) [Diogo Gomes] se adiantou com 200 mosqueteiros e duas tropas de cavalos da vanguarda a ocupar primeiro aquele passo (…).

Passou a nossa gente o rio antes da noite, e (…) a sexta-feira de madrugada se entrou em Castelo de Vide, donde depois de se refrescarem os soldados e a cavalaria com pão e cevada que ali tinha Dom Nuno Mascarenhas, prevenido se partiu cada um a seu alojamento, entrando nesta cidade de Elvas ao sábado último de Abril passado (…).

Fonte: Rellação do saque e queima da Villa de Membrio em 28 de Abril deste prezente anno de 644 (AHM, 1ª divisão, 2ª secção, caixa 2, nº 26).

Imagem: Cavalaria e infantaria do período da Guerra Civil Inglesa, contemporânea da Guerra da Restauração. Foto do autor. Kellmarsh Hall, 2007.