Uma entrada nos campos de Brozas – Dezembro de 1652 (1ª parte)

Num cenário mais a jusante do que foi descrito no artigo imediatamente anterior ocorreu a incursão que a seguir é narrada. Os campos de Brozas foram o alvo da rapinagem perpetrada pelas forças portuguesas. Desta feita, a propaganda coeva dá lugar à palavra escrita pela pena de um combatente, o soldado Matheus Roiz (Mateus Rodrigues), em cujo testemunho se baseia a descrição da operação – corresponde ao capítulo 49 da versão transcrita, pertencente ao acervo do Arquivo Histórico Militar e já aqui referida.

Os campos de Brozas ficam já no distrito da província da raia da parte de Cidade Rodrigo e A Sarça [La Zarza], onde está um comissário do inimigo por nome Mazacan, que tem o seu regimento 700 cavalos, e como estes campos de Brozas são terras aonde o inimigo traz sempre muita quantidade de gados, quis o nosso mestre de campo general e governador das armas [do Alentejo] Dom João da Costa ver se por esta via podia armar ao inimigo a que lhe saísse, de modo a que pelejasse com ele.

Observe-se a semelhança de propósitos entre os chefes militares de ambos os lados, confrontando com o que foi descrito no artigo anterior. Era a constante da pequena guerra, causadora de desgaste para as forças militares, mas principalmente para as desgraçadas populações raianas. Era também um modo de assegurar alguns recursos para os combatentes, uma vez que os soldos eram escassos no provimento.

E assim se determinou a mandar aos ditos campos 10 ou 12 tropas de cavalo, porque tinham boa entrada pela parte de Campo Maior indo por Albuquerque, de modo que não fossem sentidas (…). Dois dias antes que Dom João da Costa o fosse aguardar, entrou [o capitão] João da Silva [de Sousa] ao longo de Albuquerque uma légua, mas não foi sentido, que nisso constava sua segurança.

Agora atentemos na disposição táctica da força mista de cavalaria e infantaria em marcha:

Assim como lhe pareceu a Dom João da Costa que eram horas de sair [de noite], marchou com os três terços de Elvas e com toda a mais cavalaria. (…) [Levou] toda a cavalaria de vanguarda e uma companhia muito mais avançada diante, que ia descobrindo a campanha, e levava batedores por todas as partes e a companhia que então ia diante era a minha, e o capitão dela Francisco Pacheco Mascarenhas, (…) levava o meu capitão dois batedores de cada lado, avançados da tropa um tiro de cravina [carabina], e um pela estrada adiante, (…) [que] era eu.

Na noite de claro luar, a cavalaria passou um curso de água conhecido por ribeiro do Judeu, que ficava no meio do caminho para Campo Maior, mas teve de deter-se para dar tempo a que a infantaria atravessasse o ribeiro, o que levou muito tempo. Enquanto se estava neste impasse e o grosso da cavalaria aproveitava para desmontar e descansar os animais, o batedor Mateus Rodrigues vigiava uma vereda que era habitual ponto de passagem de tropas espanholas quando faziam as suas incursões. Foi então que

(…) eu vi vir uma partida de seis ou 7 cavalos, uns atrás dos outros, pela mesma vereda; (…) não podiam ser dos nossos, que os [nossos] batedores eram menos e além disso iam já adiante, e tanto que os vi levanto o cão da pistola, que a tinha na mão, (…) e perguntando-lhe[s] quem vive duas ou três vezes (…) me não responderam nada senão avançar a mim à rédea solta, ao que eu logo toquei arma [ou seja, disparou um tiro de aviso] com a pistola.

Toda a cavalaria portuguesa entrou em alvoroço e o que se passou a seguir foi confuso. Mateus Rodrigues fugiu para junto da sua companhia. Procuraram os supostos inimigos, mas não toparam ninguém, pelo que Mateus Rodrigues foi acusado pelos camaradas de ter confundido tropas portuguesas com castelhanos. O memorialista manteve-se firme na afirmação de que avistara um grupo de 6 ou 7 cavaleiros inimigos, e segundo escreve, no decurso da operação os factos demonstraram que tinha tido razão. Encerremos por ora esta primeira parte com a narração da aproximação e entrada em território hostil:

Fomos marchando até Campo Maior aonde já os dois terços nos estavam aguardando cá fora no rossio; e assim como chegámos logo nos pusémos em marcha, (…) e quando o sol saía já nós íamos passando a ribeira de Xévora; fomos marchando pela campanha à vista de Albuquerque, que era aonde nós íamos fazer a espera da nossa gente que ia a Brozas, e assim quando era a tarde com duas horas de sol já tínhamos chegado ao posto que chamam ali As Duas Hermanas, porque são dois cabeços mui altos que estão um à vista do outro e por isso lhe puseram tal nome.

Bibliografia: Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição do códice 3062 [Campanha do Alentejo (1641-1654)] da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Lisboa, Arquivo Histórico Militar, 1952, pgs. 310-313.

Imagens:

Em cima, zona dos campos de Brozas na actualidade (a amarelo, a linha de fronteira); reprodução de imagem obtida a partir do programa Google Earth.

Em baixo, “Combate sobre uma ponte”, água-forte do pintor flamengo Peter Snayers (1592-c. 1667), Courtauld Institute of Arts, Londres.

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