Relação do saque e queima da vila de Membrio em 28 de Abril de 1644 (2ª parte)

A força portuguesa comandada por Diogo Gomes de Figueiredo (pai) chegara a Portalegre e fazia os preparativos para a jornada até ao objectivo. Continuando a narrativa:

Chamados os homens práticos que havia[m] de guiar ao tenente [de mestre de campo] general (…) se resolveu que se não podia partir aquela mesma tarde, (…) porquanto se não podia ir amanhecer a Membrio pela distância do caminho, pela sua fragosidade, pelos ruins passos de dois rios que desembocam no Tejo, Sever e Alburrel, e pelo cansaço das cavalgaduras, que até então não haviam parado, nem comido, e que assim mais convinha partisse ao outro dia pelas nove horas, para ir ao lugar à quinta-feira ao amanhecer, tempo mais acomodado para semelhantes facções.

Marchou-se na hora sinalada a quarta-feira, por caminhos tão ásperos e estreitos que sempre iam soldados enfiados uns atrás outros. Fez-se alto de noite, depois de passar os rios, [a] duas léguas [c. 10 km] de Membrio até sair a lua, que foi pela meia-noite, em que houve tempo, ainda que breve, para refrescar a infantaria e cavalaria.

Daqui se começou a marchar com grande silêncio e boa ordem por não serem sentidos, e chegados ao romper da alva à vista do lugar de Membrio, ocupou a cavalaria os postos mais altos, rodeando, e detrás de umas árvores, a pouco mais de tiro de mosquete, se apeou a infantaria, e formada em troços de mosqueteiros, depois de reconhecidas as partes por onde se havia de investir o lugar, se repartiu a todos com grande brevidade as granadas, os fechos e as escadas que haviam de levar (…).

Separou o tenente [de mestre de campo] general 80 piques, que levava em um batalhão com suas guarnições, que todos pelo desejo que tinham de pelejar ficaram de má vontade, e logo adiante com quatro mangas de mosqueteiros (…) a bom passo se foi para o lugarejo debaixo de sua mosquetaria. Dividiu aos quatro capitães para quatro partes sinaladas, para que se investisse a praça, e detrás, em socorro destas mangas, ordenou outras quatro (…).

Com pouca resistência treparam as primeiras trincheiras até abarbarem de carreira com a igreja [para] onde o inimigo se retirou fugindo, e se fez forte, porquanto uma hora antes de se avistar o lugar foi a nossa gente sentida, ou já por se haverem adiantado uns cavalos holandeses a furtar o gado, ou já porque a gente solta de nosso país, que saiem à pilhagem, deram com uns lavradores, de que escapando algum, foi dar aviso à vila, e fez recolher com tempo a mais da gente e mulheres à igreja, que assim o disse (…) um castelhano que pouco antes se havia tomado, e que no lugar havia uma companhia de 80 homens pagos e mais de 300 que tomaram armas.

A narrativa terminará no próximo artigo.

Imagem: Tropa de Cavalaria. Quadro de Peter Snayers, c. 1640. Kunsthistorisches Museum, Viena.

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