Postos do exército português (10) – o comissário geral da cavalaria

Fazendo uma comparação com a actualidade, poderemos ver no comissário geral o equivalente a um major. O fundamento para essa analogia reside nos atributos do posto: o comando de um conjunto de companhias. Contudo, este tipo de comparações cai facilmente no anacronismo se não atendermos às especificidades culturais da época, aos seus valores e aos modos de perceber e conceber a realidade, muito diferentes dos de hoje. Para além disso, existe a própria evolução e diferenciação do conceito militar de comissário geral de país para país durante o século XVII. Convirá, por isso, começar por definir aquele posto segundo o entendimento que dele se fazia à época – e que não era uniforme nos seus atributos, diga-se.

No exército francês, pelo menos até aos meados do século XVII, o comissário geral era um mero ajudante de campo do coronel que comandava um regimento. Não se tratava de um posto, mas de um cargo habitualmente confiado a um capitão com larga experiência na manobra e condução de companhias no terreno. Mesmo em exércitos onde o comissário geral era considerado um posto, casos do português e do espanhol, sobreviveu um certo conceito de cargo extraordinário de um capitão: por exemplo, a remuneração básica de um comissário geral era a de um capitão de couraças, acrescida de um bónus inerente à função que lhe competia, a de conduzir e dispor no terreno os troços compostos por várias companhias e chefiar em combate os vários batalhões, formações tácticas em que as mesmas companhias eram dispostas. Só nesta área tinham um poder superior ao dos capitães de cavalos. Não tinham outra jurisdição sobre qualquer companhia além da sua.

Não havendo regimentos em Portugal e em Espanha, excepto entre as forças estrangeiras que serviam em ambos os exércitos, cabia aos comissários gerais comandar os troços. Isto colocava-os quase ao nível dos coronéis. Todavia, os coronéis era geralmente proprietários dos seus regimentos, também eles formados por duas a quatro companhias cada, pelo que se consideravam superiores aos comissários gerais nos casos em que ambas as patentes se encontravam em simultâneo no terreno. Em Portugal, houve necessidade de atribuir, em 1643, a patente extraordinária de coronel a um comissário geral (o único existente na província do Alentejo), de modo a que pudesse impor a sua autoridade aos coronéis estrangeiros, que de outro modo se recusavam a obedecer-lhe.

O posto de comissário geral da cavalaria era inferior ao de tenente-general da cavalaria e, como é óbvio, ao de capitão-general da cavalaria (designação completa mas muito pouco utilizada do posto, sendo quase sempre substituída pela de general da cavalaria).

Na obra Maneio da Cavalaria, Galeazzo Gualdo Priorato ainda referia o comissário geral como um cargo que devia ser atribuído ao capitão com mais experiência e não ao de mais valor nem antiguidade, porque muito mais tem que fazer neste posto a experiência do que a valentia (pg. 72).

Bibliografia: para além da obra citada no texto do artigo, com ligação para a referência completa, e os livros que aparecem noutras partes deste blogue, gostaria de indicar também a entrada “Comisario”, in ALMIRANTE, José, Diccionario Militar, Madrid, Ministerio de Defensa, 1989, vol. I, pgs. 160-162.

Imagem: Escaramuça de cavalaria, Peter Snayers, Dullwich Picture Gallery, Londres.

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