Balas e consequências, ou a eficácia das armas de fogo pessoais

Ia Bento Maciel reconhecer a trincheira, a bala de um mosquete lhe deu nos peitos, e o derrubou; foi julgado por morto, acudiram ao retirar; ele se levantou, e desabotoado lhe acharam o jubão de tafetás passado, e uma grande pisadura, que o teve molestado muitos dias. (Aires Varela, Sucessos que houve nas fronteiras (…), o terceiro anno da Recuperação de Portugal, que começou em o 1º de Dezembro de 1643, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1900, pgs. 90-91).

O mestre de campo João de Saldanha recebeu um balaço de mosquete nos peitos que deu com ele em terra dez palmos atrás, e não lhe fez mais dano que um inchaço na carne, tão boas eram as armas que levava, mas ficou quase sem acordo. (João Salgado de Araújo, Successos Militares das Armas Portuguesas em suas fronteiras depois da Real acclamação contra Castella. Com a geografia das Prouincias, & nobreza dellas, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1644, pg. 189 v)

Já neste tempo haviam dado um pistoletaço em meu irmão, que era alferes da minha companhia, por nome Feliciano Gomes, mas não lhe fez nenhum mal, (…) meteram a pistola a queima-fato, não fez mais que queimar-lhe o couro por uma ilharga e o gibão (…). (Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM, pg. 299).

As narrativas do período da Guerra da Restauração referem amiúde casos curiosos como os que acima foram transcritos. Se nos reportássemos apenas a exemplos destes, ficaria a ideia de que as armas de fogo eram quase ineficazes. Não era bem assim.

As armas de fogo pessoais mais utilizadas durante a Guerra da Restauração eram a pistola, a carabina, o arcabuz, o mosquete e o bacamarte. Por vezes surgem referências à espingarda, variante do arcabuz que era usada na caça, principalmente por civis, mas que também se encontrava aqui e ali nos arsenais militares. À excepção da pistola e da carabina usadas pela cavalaria e que tinham fecho de pederneira, as restantes eram armas de fecho de mecha. A alma lisa (ou seja, interior do cano sem estrias) destas armas
conferia ao projéctil disparado uma baixa velocidade e uma trajectória errática, para o que também contribuía a forma esférica da bala de chumbo. O alcance dentro do qual era esperado causar baixas ao inimigo era limitado: cerca de 5-10 metros para a pistola, cerca de 60-80 metros para a carabina e o arcabuz, cerca de 100 metros para o mosquete (alcances aproximados, segundo as estimativas da época e reconstituições actuais, nem sempre coincidentes entre elas).

Um conjunto de variáveis influenciava a eficácia: as condicionantes atmosféricas, o estado de conservação da arma, a qualidade da pólvora (e a quantidade utilizada para permitir a detonação), o cansaço do militar, o moral e o seu treino ou experiência. Na cavalaria, por exemplo, com os solavancos da montada e o efeito da gravidade, mesmo utilizando uma segunda estopa para fixar melhor o projéctil, podia acontecer que a bala se deslocasse no interior do cano e se afastasse da carga de pólvora que provocava a detonação. Deste modo, a velocidade inicial e logo a capacidade perfurante seriam muito reduzidas.

As características acima referidas condicionavam o emprego táctico das tropas equipadas com armas de fogo. As carabinas eram disparadas antes de se iniciar uma carga ou durante uma escaramuça à distância, enquanto as pistolas eram reservadas para o corpo-a-corpo, sendo disparadas muito perto do contacto, antes de se recorrer à espada, ou até desfechadas à queima-roupa. Arcabuzes e mosquetes eram muito mais eficazes se disparados em salva: tiro efectuado à voz de comando, normalmente pelas duas primeiras fileiras.

Devido à rápida perda de velocidade da bala, aconteciam situações como as citadas no início deste artigo. Por isso, um colete ou casaca de couro podia ser suficiente para proteger o combatente de cavalaria, poupando os mais temerários ao incómodo suplementar de uma couraça metálica (o uso destas peças entre a infantaria era mais raro, excepto entre os oficiais). Mas se o militar fosse atingido, principalmente por uma bala mais pesada e volumosa como a de mosquete (cerca de 18mm de diâmetro), as consequências podiam ser bem complicadas. Até 40 ou 50 metros de distância, com alguma sorte a bala podia passar através do corpo sem atingir ossos ou tocar artérias ou órgãos vitais, ou ficar alojada num local de fácil extracção. Este tipo de feridas sarava bem com os tratamentos empregues na época. O pior era quando um projéctil atingia um osso, quebrando-o, e depois deflectia para outras partes do corpo. Os ferimentos internos assim causados pela bala (que podia, ela própria, fragmentar-se, assim como ao osso, ampliando os danos) eram muito graves e quase sempre fatais. Na maior parte dos casos, a fractura de um membro provocada por uma bala levava à amputação do mesmo.

Os autores das narrativas de guerra dão ênfase aos eventos curiosos de pessoas atingidas por balas que pouco ou nada as incomodavam – o inverso não merecia grande destaque, porque era mais frequente.

Bibliografia adicional:

HUGHES, Major-General B. P., Firepower. Weapons Effectiveness on the Battlefield, 1630-1850, Staplehurst, Spellmount, 1997.

JÖRGENSEN, Christer, e outros, Fighting Techniques of the Early Modern World, AD 1500-AD 1763, Equipment, Combat Skills and Tactics, London, Amber Books, 2005.

Imagem: Mosqueteiros e piqueiros da Guerra Civil Inglesa. Reconstituição histórica em Old Sarum. Foto do autor.

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