Postos do exército português (11) – os ajudantes de sargento-mor e de comissário geral

Entramos aqui no terreno do que, à época, se designava por oficiais colaterais. Não existe um paralelo directo com a actualidade, a menos que queiramos ver nesta categoria de oficiais um ajudante de campo – algo que, neste escalão de comando, seria bastante invulgar (sargento-mor na infantaria e comissário geral na cavalaria corresponderiam, com alguma liberdade de aproximação, ao actual posto de major).

Tendo em consideração as necessidades dos postos de sargento-mor e de comissário geral, exigindo o comando e disposição no terreno das companhias, tornava-se necessária a colaboração de um – ou mais vulgarmente dois – ajudantes. Na infantaria existia uma hierarquia entre estes oficiais: o ajudante do número e o ajudante supranumerário. A raiz desta distinção estará relacionada com o facto do sargento-mor poder delegar funções num dos seus ajudantes quando tivesse de se ausentar do terço (conforme refere René Quatrefages na sua obra Los Tercios, Madrid, Servicio de Publicaciones del Estado Mayor del Ejército, 1983). Daí necessidade de se estabelecer uma hierarquia entre os ajudantes, para evitar situações de pouca clareza sobre quem teria a primazia numa situação de emergência em que o sargento-mor estivesse ausente ou incapacitado. A função habitual dos ajudantes era a distribuição das ordens pelos capitães, mas também colaboravam com o sargento-mor na demorada tarefa de preparar o esquadrão (formação táctica) a partir do terço. Ao posto de ajudante do número podiam ser promovidos os alferes de infantaria e os ajudantes supranumerários, e a este último posto os alferes de infantaria, dando sempre primazia ao da companhia do mestre de campo.

No caso da cavalaria não havia esta distinção. As funções dos ajudantes de comissário geral eram a de distribuir as ordens pelos capitães e a de auxiliar o comissário geral na disposição táctica dos batalhões. A promoção fazia-se a partir do posto de tenente de couraças ou de cavalos arcabuzeiros.

Imagem: Militares de meados do século XVII. Reconstituição histórica, Old Sarum. Foto do autor.

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4 thoughts on “Postos do exército português (11) – os ajudantes de sargento-mor e de comissário geral

  1. Isto dos postos militares tem que se lhe diga.
    Soube ontem que no Exército Britânico , no fim do sec XVIII inicio do XIX havia “postos regimentais” [do regimento], entre eles Capitão-Tenente.
    Tratava-se do comandante da companhia do tenente -coronel.
    Como o TC comandava o regimento, a companhia do TC era entregue a outro oficial o qual teria o posto de Capitão-Tenente. Era o mais velho dos tenente e mais dos novo dos capitães.
    Tal posto regimental só foi abolido em 1802.

    Entre nós temos os oficiais supranumerários ( agregados) , que é difícil de explicar a quem está por fora destas coisas.

    João Centeno

  2. É verdade, às vezes torna-se complicado, principalmente quando tentamos estabelecer comparações com os postos actuais. Mas eu creio que na marinha de guerra ainda era pior (estou a pensar, em particular, em passagens do “Trafalgar – The Biography of Battle”, de Roy Adkins, que li há pouco tempo).
    Já agora, aproveito para dizer que a designação capitão-tenente é encontrada frequentemente nos documentos portugueses do período da Guerra da Restauração. Não designava um posto, mas uma função: precisamente nos moldes em que relata no seu comentário, referia-se ao tenente da companhia de cavalaria do comissário geral, do tenente-general, do general ou do governador das armas da província, que assumia de facto o comando da unidade. Mas ao contrário do caso britânico que aponta, entre o nosso exército nunca se transformou em posto.
    Como o termo capitão designava genericamente qualquer comandante de uma força militar desde, pelo menos, a Idade Média tardia (séculos XIV-XV), pode ter resultado daí, posteriormente, o aparecimento do termo por justaposição (o “tenente que comanda”).

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