O destino dos inválidos

O militar que recebia um ferimento grave e ficava impossibilitado exercer qualquer ofício podia passar o resto da vida na maior das misérias. A invalidez era, na maior parte dos casos, causada pela amputação de um membro ou, pior ainda, pela cegueira ou por uma incapacidade motriz mais extensa. Sem qualquer tipo de assistência, restava aos militares inválidos a atribuição de uma mercê régia que minorasse financeiramente, por pouco que fosse, a existência futura. A qualidade social da pessoa em causa e o serviço prestado à Coroa influenciavam a decisão sobre a quantia a atribuir como pensão e a sua extensão no tempo. As petições eram enviadas ao Conselho de Guerra, o qual emitia um parecer que depois era levado ao Rei (ou Rainha regente, entre 1656 e 1662) para despacho.

Se a invalidez ainda permitisse o desempenho de qualquer tarefa auxiliar, o ex-militar poderia ficar adstrito a um forte ou praça militar, prestando o serviço para o qual fosse capaz, recebendo em troca a pensão. Um destes casos foi o de Sebastião Lopes, natural de Távora, comarca de Pinhel, o qual durante 20 anos servira como soldado de infantaria, quer na sua província de origem, a Beira, quer nas de Entre-Douro-e-Minho, Trás-os-Montes e Alentejo. Portanto, em todas as fronteiras de guerra. Foi precisamente em 1665 que, tendo a sua unidade sido enviada como reforço ao exército de Entre-Douro-e-Minho, foi gravemente ferido. Conforme escreveu na sua petição, participou com a sua companhia no cerco de Lapela, tendo o inimigo quebrado a sua perna com uma bala de artilharia. Remediou-se com uma perna de pau, mas gastou tudo quanto tinha na cura, caindo então na maior pobreza e miséria. Pedia ao Conselho de Guerra lhe fosse concedida a mercê de dois tostões por dia em qualquer praça ou forte do partido de Riba Coa (a província da Beira estava dividida em dois “partidos”, ou distritos militares), “onde apoiado na muralha se oferece dar a vida por Sua Majestade, havendo ocasião”.

A petição foi apoiada pelo governador das armas de Riba Coa e pelo vedor geral (responsável pelas finanças e material de guerra) daquele partido, pelo facto de Sebastião Lopes ter servido sempre com valor. O Conselho de Guerra deu parecer favorável, mas apenas para a concessão de um tostão (ou seja, 100 réis) por dia, o que foi aprovado pelo Rei D. Afonso VI em Setembro de 1665. A quantia correspondia ao dobro do vencimento diário de um soldado pago de infantaria, mas não nos devemos iludir com a aparente generosidade: era uma quantia escassa face ao custo de vida do período, e as garantias que o ex-soldado a viesse a receber com pontualidade eram poucas. Refira-se que os soldados no activo recebiam uma ração diária de pão e carne, o que não era concedido, por regra, aos que estavam na situação de Sebastião Lopes.

Falhando a mercê régia, o ex-militar ficava reduzido à caridade, quase sempre a cargo das irmandades religiosas e providenciada aos indigentes de muitas cidades e vilas do reino.

Fonte documental: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1665, maço 25, caixa 91, consulta de 28 de Agosto de 1665.

Imagem: Peter Snayers, Combate de cavalaria.

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Narrativas de feitos de armas (3)

Serviço particular, me parece, fiz ao reino com estes Comentários, que irei prosseguindo por satisfazer aos desejos das nações estrangeiras, a que faltam verdadeiras notícias da ocupação, que tivémos nos primeiros anos de sua restauração: cuidando que dormimos sobre nossa felicidade, se desenganaram, que as valorosas armas Lusitanas sabem desempenhar seus créditos, quando menos exercitadas.

Assim escreve, no proémio não paginado, o capitão Luís Marinho de Azevedo. Apesar deste propósito enunciado de prosa laudatória, os Commentarios dos valerosos feitos, que os portuguezes obraram em defensa de seu Rey, & patria na guerra de Alentejo que continuava o Capitaõ Luis Marinho d’Azevedo (Lisboa, na officina de Lourenço de Anveres, 1644), dedicada a Pero da Silva, Conde de São Lourenço, são relativamente objectivos na exposição dos acontecimentos. Transparece, aqui e ali, uma compreensão das vicissitudes dos militares – tanto portugueses como estrangeiros – que raramente se encontra em outras narrativas. A obra contém diversos pormenores interessantes sobre a manobra e as tácticas das forças militares, sendo uma fonte valiosa para o estudo da História Militar do período.

Cota da Biblioteca Nacional: H.G. 5632 P.

Em edição digital, formato PDF, através da ligação à Biblioteca Nacional Digital (veja-se a ligação na barra lateral – pesquizar por Azevedo, Luís Marinho; há 3 obras deste autor).

Postos do exército português (13) – o mestre de campo

Os mestres de campo ou são feitos por grande qualidade [fidalguia] ou por grandes serviços [desempenhados na guerra].

(carta de Matias de Albuquerque, Conde de Alegrete, 22 de Agosto de 1644, in Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV e a El-Rei D. Afonso VI, publicadas e prefaciadas por P. M. Laranjo Coelho, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, vol. II, pgs. 57-58).

O posto de mestre de campo tinha grande prestígio. Ao tempo da Guerra da Restauração existia também nos exércitos espanhol e francês. Encontrava-se apenas na infantaria e correspondia ao posto de coronel, designação que em épocas posteriores iria substituir por completo a de mestre de campo. Em rigor, havia coronéis no exército português em simultâneo com mestres de campo, pois por tradição as grandes unidades da ordenança de Lisboa eram designadas regimentos (e não terços, embora este nome surja de vez em quando nos documentos, um pequeno erro gerado pelo hábito).

De facto, atendendo ao que exigiam as regras militares, reflectidas no projecto de Ordenanças Militares de 1643, para se ascender ao posto de mestre de campo era necessário ter servido durante 12 anos em cenário de guerra, dos quais 4 no posto de capitão. Desta conformidade estavam isentas as pessoas de qualidade e nobreza, o que na prática significava que os terços podiam por ser entregues a elementos da fidalguia sem a necessária experiência militar. Sobre o sargento-mor recaía então uma responsabilidade maior.

De qualquer modo, se exceptuarmos os primeiros anos da guerra, esta situação foi relativamente rara. Houve fidalgos que se revelaram bons mestres de campo. Ao posto ascenderam também vários soldados de fortuna, com tirocínio feito nos escalões inferiores, vários deles estrangeiros. Isto no exército pago, pois nos auxiliares e na ordenança era frequente o sargento-mor ter de desempenhar o comando efectivo do terço, dado o absentismo dos mestres de campo, ou a sua inexperiência militar.

O mestre de campo dispunha de um cavalo, se bem que houvesse quem preferisse desmontar e munir-se de espada e rodela, combatendo a pé no calor da refrega.

Imagem: Combate de infantaria. Recriação histórica da Guerra Civil Inglesa, Kelmarsh Hall, 2007. Foto do autor. Reorganizar o esquadrão de infantaria depois da confusão do choque era uma tarefa difícil, mesmo que se rompesse o contacto com alguma ordem. A maioria dos mestres de campo confiava na experiência dos seus sargentos-mores para esse fim.

Narrativas de feitos de armas (2)

Um dos primeiros exemplos de imprensa periódica em Portugal foi a Gazeta, publicação surgida em 1641. Além do intuito propagandístico de divulgação dos episódios bélicos, incluía ainda algumas notícias sobre acontecimentos passados no estrangeiro. Era impressa na oficina de Lourenço de Anveres. Sobre esta e outras publicações, veja-se TENGARRINHA, José, História da Imprensa Periódica Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho, 1989.

Em edição digital, formato PDF, através da ligação à Biblioteca Nacional Digital (veja-se a ligação na barra lateral; depois de aceder, procure-se o ano de 1641; apesar da indicação que os exemplares se reportam ao período de 1641-1647, a colecção disponível em suporte digital termina com o número de Agosto de 1645).

Cota da BNL: Res. 109 v.

O assalto a Zarza la Mayor, 11 a 16 de Junho de 1665 (2ª parte)

O saque e incêndio de Zarza la Mayor pelas forças comandadas por Afonso Furtado de Mendonça ocorreram após a imposição de severas capitulações e a evacuação da guarnição e população locais. Somente dois anos e meio depois, com a assinatura da paz, regressariam os habitantes, aos quais se juntariam algumas famílias de Ceclavín, Brozas, Membrio e outras localidades. O sucedido em 1665 reflectiu-se no topónimo pelo qual a vila ficou conhecida durante algum tempo: Zarza la Quemada. Mas vejamos a descrição do assalto pela pena de um habitante de Zarza, aqui transcrita no castelhano original, que não será de difícil entendimento:

“… En las pocas ocasiones que he tenido en que servir a Vmd. no me han dado lugar a que haya tenido hasta agora ninguna en que escriba a Vmd, aunque en mi memoria y voluntad siempre ha estado vivo el recuerdo de servirle. Y porque ahora le considero no solamente apesarado, sino confuso con la variedad de nuevas que por allá han corrido, he querido en esta darle a Vmd. cuenta de todo cuanto ha sucedido en nuestra Zarza.

Vinó el enemigo, jueves medio día 11 del corriente, con 4000 infantes y 600 caballos, y de hecho se arrimó a tiro de pistola de la muralla, porque como el tiempo era de segada y el lugar se componía de gente trabajadora, estaban los más fuera, con que adentro no se hallarón más de 204 hombres, soldados y vecinos, en que entraba la compañia de caballos naturales; puso tres ataques; el uno se entró luego en la ermita de Nuestra Señora del Castillo; el otro desde la Fuente Concejo, aquel arroyo abaxo a su cortina de Vmd. hasta San Gregorio, y el otro hasta San Sebastian en unos huertos que estaban muy arrimados a aquel fuerte de este sitio. La poca gente nuestra se repartió, poniendo en cada fuerte de los dos que había, en el de San Roque 40 hombres, en el de San Sebastian 30 y en los demas fuertes, que eran 11, unos a 3 y otros a 4, y los caballos repartidos por puestos a 10 y 12 en cada uno para defender los lienzos que estaban desmantelados; de este modo se ajustó la gente y pelearon con tanto valor que el enemigo no pudó conocer nuestra flaqueza.

En viernes en la noche, a la 10 della, dió avance general y se resistió tanto que el enemigo se volvió atrás muy de veras. El sábado, con 5 piezas de artillería que tenía de a 25 y de a 30 libras, se disparó sobre 200 cañonazos, cosa increíble para los soldados, pues todos decían que era cosa de admiración tanto disparar. Y echaron 6 bombas, que aunque atemorizaron, no hicieron daño; las baterías tampoco lo hicieron, porque las pusieron a los fuertes, que era lo de mayor resistencia. En la noche volvieron a dar dicho avance general y por la parte de San Gregorio subieron la escala muchos que desde encima la muralla tuvieron la fortuna de volver a salir fuera, porque los caballos estuvieron tan briosos que no dieron lugar a que osasen entrar dentro. En esta noche arrimaron mantas al fuerte de San Sebastián y lo minaron, porque aunque procuraron con paja, aceite y otras cosas quemarle las mantas, no pudieron, porque las traían aforradas en hoja de lata.

El enemigo había pedido capitulaciones y no se habían admitido, pero ya con la mina y la demasiada artillería y bombas que los iba descomponiendo y más el demasiado trabajo que no podía ninguno reposar un instante, procuraron capitular y ajustaron lo siguiente: Que habían de salir los soldados con sus armas cuerda encendida y vala en boca los de a caballo desmontados y con sus armas, que para la gente de guerra habían de dar 20 carros en que sacasen su ropa y para los vecinos 50 cabalgaduras que sacasen cargadas, y que cada uno, tanto soldados y vecinos, como mujeres y zagales, sacasen sobre sí lo que pudiesen.

De contrario sentir fueron muchos que no querían todavía capitular; otros quisieron, y Martín Sánchez Pardo, con otros majaderos que le acompañaron, los ajustó y firmó, domingo a 5 de la tarde, con que si con socorro real no fuese socorrido, entregaría la plaza martes a las 6 de la mañana. No lo fué, y entrególa, saliendo la gente para Ceclavín los más. y algunos para esta villa, que así fué el trato.

Entró el enemigo, quemó y destruyó el lugar tan de todo punto que no quedó casa sin esta diligencia. Y a la iglesia hizó 3 minas, con que la arruinó toda, cosa tan lastimosa que esto me tiene sin sentido.

La gente se hallaba tan desvalida que todos a una quisieran volverse. Y para ello han despositado dinero con su demasiada pobreza para que mi primo Don Juan Fernández Cabronero vaya a esa Corte a pedir el que S.M los fortifique y le de pan de munición por familias y 200 caballos que montarán 200 naturales y servirán a S.M, destruyendo el país vecino como lo han hecho hasta aquí.

Esto se ha entibiado algo con la rota de nuestro ejército, que porque Vmd. por allá ya lo sabrá por extenso no escribo como fué.

Ante ayer en la noche vino el enemigo a Herrera, que está a la parte de Valencia; quemó el lugar, retiróse ayer a medio día, quedó el castillo; no sé la resolución que tomarán los vecinos, que han sido también muy famosos y han hecho mucho daño por aquella parte; dícese que su exército está junto y quieren dar en Plaza; Dios nos remedie, que esto está de muy mala calidad.

Vmd. me avisará de su salud y de la resolución que para ella se toma con estas cosas de nuestra Zarza; no murieron más de 2 hombres y 2 forasteros; llevaron los ornamentos de la iglesia, el Santo Cristo que habían traído de esa Corte, a la Virgen del Rosario y la de Sequeros, a Santa Clara, San José y otros santos, y en medio de la codicia dejaron a la Virgen Santísima del Castillo, con quien ellos tienen toda devoción. Y ya la tenemos en Ceclavín, cosa que habíamos tenido a milagro de su Divina Majestad. Al Santo Cristo del Paso le quitaron un brazo para desnudarle la túnica de tafetán que tenía tanto tiempo ha; a San Marcos descabezaron, y de este modo hicieron otras infamias ellos, que entre nosotros no faltaron, pues el cura por sacar en 2 carros que le dieron azúcar y cera a medias de solos vasos sagrados y todos los ornamentos de la iglesia, de que el general enemigo hizo mucha novedad, en que se conoce que ya la codicia seria en todos sujetos.

Guarde Dios a Vmd. muchos años. Alcántara y junio, 26 de 1665…”

Agradeço ao estimado amigo Juan Antonio Caro del Corral o envio do documento acima transcrito e do seu trabalho Zarza la Mayor: tierra de frontera y escenario de guerras, recentemente apresentado durante as 1as. Jornadas Culturales Zarceñas, bem como de várias outras informações que permitiram a elaboração deste apontamento sobre o assalto a Zarza la Mayor. De facto, a ele cabe todo o mérito da investigação, eu aqui fui somente escriba.

Imagens: Ambas da autoria de Juan Antonio Caro del Corral – a primeira mostra a vila de Zarza la Mayor em 1665 e os locais de assédio das forças portuguesas, e a segunda apresenta o campanário da igreja paroquial, onde ainda são visíveis os danos sofridos durante o assalto.

O assalto a Zarza la Mayor, 11 a 16 de Junho de 1665 (1ª parte)


O estimado amigo e investigador Sr. Juan Antonio Caro del Corral tem sido de uma inexcedível gentileza ao enviar-me muitos documentos, além de excelentes trabalhos de sua lavra (nomeadamente sobre a história de Zarza la Mayor), que muito enriquecem o conhecimento sobre um teatro de operações menos citado que o do Alentejo, mas nem por isso menos importante: o da raia da Beira Baixa e Extremadura (partido de Alcántara). Cabe hoje trazer aqui, precisamente, um acontecimento que marcou os anos finais da Guerra da Restauração no que a Zarza la Mayor diz respeito: o assalto e destruição da vila extremenha, que ficou despovoada até à cessação das hostilidades, cerca de dois anos e meio depois.

A operação, que decorreu ao mesmo tempo que o Marquês de Caracena entrava em Portugal pela fronteira do Alentejo e punha cerco a Vila Viçosa (uma campanha que culminou na importante batalha de Montes Claros, em 17 de Junho), mereceu algumas linhas no Mercurio Portuguez de Junho de 1665, a publicação periódica redigida por António de Sousa de Macedo:

(…) O governador das armas do partido de Castelo Branco na Província da Beira, Afonso Furtado [de Mendonça], entrou em Castela pela Estremadura (que é a mesma província do governo [do Marquês] de Caracena), com parte de cinco mil infantes, e de quinhentos cavalos, com que se achava, e de seis peças de artilharia; e aos 14 deste mês, depois de três dias de brava peleja, se lhe entregou a Sarça, praça de mil vizinhos. que, demais de sua muralha, tinha três fortes, e outras fortificações modernas, governada por Martim Sanches Pardo general da artilharia ad honorem, com guarnição de cem cavalos, e duzentos infantes, além dos moradores ordinários. Custou-nos a vida de vinte e dois soldados, e de um mestre de campo auxiliar; e arrazámos esta praça de modo que não ficasse habitável, nem pedra sobre pedra dela, em castigo da insolência de seus habitadores [sic], cujo ofício, ainda dos que não professavam ser soldados, era não só roubar os campos, mas também ter por gosto matar os nossos a sangue frio.

Para melhor compreender esta última afirmação, convém dizer que Zarza tinha uma companhia de caballos naturales, conhecida por Montados de la Zarza – o equivalente às companhias de moradores ou cavalos pilhantes dos portugueses. Esta unidade, que tanto servia para defender os campos de Zarza como para fazer incursões de pilhagem em território português, era um pesadelo para os habitantes da raia beirã. A julgar pelo modo como eram considerados, dentro do exército português, os próprios pilhantes (intratáveis e indisciplinados), não será de admirar que Sousa de Macedo tenha estendido a todos os zarzenses a crueldade que, muito provavelmente, seria perpetrada pelos milicianos dos caballos naturales.

Na segunda parte veremos como o assalto foi reportado por um habitante de Zarza la Mayor.

Imagens: Na primeira foto, reproduzida a partir do programa Google Earth, vemos a localização de Zarza la Mayor, a leste de Salvaterra do Extremo (para ampliar, basta clicar sobre a imagem). Na segunda foto, da autoria de Juan Antonio Caro del Corral, a igreja paroquial de Zarza, muito danificada nos combates de 1665.

Artilharia (5) – mais algumas narrativas dos seus efeitos

Episódios ocorridos durante o cerco de Badajoz em 1644, narrados por Aires Varela, Sucessos que houve nas fronteiras (…), o terceiro anno da Recuperação de Portugal, que começou em o 1º de Dezembro de 1643, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1900:

(…) Uma bala de dez libras deu entre dois soldados do capitão Jerónimo Correia, e ficaram quase cobertos com o pó que levantou, e em seu seguimento outra, que entrou pelo valado mais de doze palmos. (pgs. 104-105)

Uma bala de dez libras fazendo chapeletas entrou nos alojamentos, e quase fria matou ao padre Manuel Braz Fialho, capelão dos dragões; não se lhe achou ferida no corpo. (pg. 105)

As pesadas e maciças balas de artilharia produziam uma onda de choque com uma pressão bastante forte quando o projéctil passava perto da vítima, podendo matar uma pessoa sem lhe deixar qualquer marca no corpo. Curiosamente, um episódio semelhante é citado por Roy Adkins no seu livro Trafalgar – The Biography of a Battle (London, Little, Brown, 2004). Cerca de 160 anos separam o evento ocorrido durante a célebre batalha naval e o narrado por Aires Varela, mas o tipo de artilharia manteve-se praticamente inalterado durante o período. Contudo, dada a referência às “chapeletas” (resultantes de ricochetes), é provável que o infeliz capelão tenha sofrido alguma concussão fatal.

Imagem: Artilheiros e peça de artilharia do período da Guerra Civil Inglesa. Ilustração presente na obra de Philip Haythornthwayte The English Civil War 1642-1651. An Illustrated Military History, London, Brockhampton Press,1994.