Cavaleiros e hábitos das Ordens Militares

No século XVII português há muito que estavam remetidos à memória os feitos das Ordens Militares na conquista do território que viria a ser Portugal e na sua consolidação enquanto Reino. Todavia, o prestígio das Ordens permanecia bem forte – e o proveito monetário dos seus membros também. Com a passagem da tutela dos Mestrados das Ordens Militares para a Coroa no século XVI, instalou-se uma verdadeira economia da mercê, em que as comendas eram atribuídas livremente pelo rei a quem bem entendesse. Muito procurados por quem ambicionava aumentar a sua reputação social (e inerente pecúlio), os hábitos das Ordens Militares eram um sinal de privilégio e de proximidade ao monarca por parte deste grupo restrito de servidores. Em Portugal, ao contrário do que sucedia em Espanha, não era necessário ser-se fidalgo para requerer o hábito: bastava provar que os ancestrais do requerente, até à geração dos avós, não tinham desempenhado qualquer ofício mecânico (trabalho braçal), nem tinham sangue cristão-novo.

Durante a Guerra da Restauração, entre o exército pago que combatia nas fronteiras, muitos eram os oficiais que integravam Ordens. Não só portugueses, mas também espanhóis e de outras nações – o prestígio de pertencer a uma Ordem Militar era comum aos católicos de toda a Europa. Ostentava-se o privilégio através do hábito, que já nada tinha que ver com o trajo medieval, limitando-se a um capotilho, ou a uma capa fechada sobre o peito, na qual surgia a cruz  respeitante à Ordem. O negro era a cor mais comum destes hábitos – uma cor cara, por ser difícil de tingir uniformemente com qualidade e de manter-se no vestuário com o uso.

Mas o hábito podia significar, apenas, a insígnia da respectiva ordem, que se usava sob as armas ou o colete, pendente de um colar ou fita. O cónego Aires Varela escreveu, a propósito de um recontro nas proximidades de Badajoz em Setembro de 1642, o seguinte:

Nesta facção [combate] morreram Castelhanos nobres, pela notícia que se teve do sentimento que se fez em Badajoz, e porque também se achou no campo um hábito de ouro com a Cruz de Santiago, e outras insígnias de nobreza.

Outras fontes referem o uso frequente deste género de hábitos, especialmente entre os oficiais da cavalaria.

O capitão francês Henri de La Morlaye (chegado a Portugal em Setembro de 1641 e morto em combate em Outubro de 1642) era conhecido como o Maltês, por ostentar um hábito da Ordem de São João de Jerusalém (Hospitalários), designada como Ordem de Malta a partir de 1530. O Maltês tinha um primo com nome idêntico ao seu, chegado na mesma altura e seu companheiro de armas, o qual morreu em combate em Maio de 1649, quando já era comissário geral na Beira.

Numa época em que os uniformes ainda não eram comuns, os hábitos – sob a forma de capas ou capotilhos, ou apenas o colar com a insígnia – constituíam o sinal visível da pertença a uma unidade – não no sentido militar do termo, mas no de uma verdadeira irmandade.

Bibliografia:

OLIVAL, Fernanda, As Ordens Militares e o Estado Moderno. Honra, Mercê e Venalidade em Portugal (1641-1789), Lisboa, Estar Editora, 2001. (Não se trata de uma obra de História Militar)

VARELA, Aires, Sucessos que ouve [sic] nas fronteiras de Elvas, Olivença, Campo Maior e Ouguella, o segundo anno da Recuperação de Portugal, que começou em 1º de Dezembro de 1641 e fez fim em o ultimo de Novembro de 1642, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1906 (excerto: pg. 106).

Imagem: Pormenor de um quadro de Dirk Stoop (década de 1650), representando dois cavaleiros portugueses com seus hábitos e a Cruz da Ordem de Cristo. Museu da Cidade de Lisboa.

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