Um crime em Abrantes (1ª parte)

Entre Abril e Maio de 1648, duas companhias de cavalaria que tinham estado em operações na fronteira da província da Beira, uma delas enviada como reforço a partir do Alentejo, encontravam-se em Abrantes.  Uma das companhias, a que tinha o seu quartel de origem no Alentejo, era comandada por Manuel Cornellis, capitão holandês, filho de Pedro Cornellis, cônsul das Províncias Unidas em Portugal. A outra era a do capitão Nuno da Cunha de Ataíde, que anos mais tarde se distinguiria como oficial general da cavalaria.

O desvio por Abrantes pode ter sido ditado pela necessidade de dar verde aos cavalos – isto é, proporcionar-lhes alimento de erva fresca, variante nutritiva da habitual dieta na maior parte do ano, os pensos de cevada. Esta actividade tinha lugar durante a Primavera, sempre que fosse possível. De qualquer modo, o regresso da companhia de Cornellis ao Alentejo foi feito sem a autorização de D. Sancho Manuel, governador das armas da Beira, conforme consta da carta que D. João IV escreveu ao governador das armas do Alentejo, Martim Afonso de Melo, Conde de São Lourenço:

Conde amigo, Eu El-Rei vos envio muito saudar, como aquele que amo. Com esta carta se vos remeterá outra de Dom Sancho Manuel, em que pede se castigue ao capitão de cavalos Manuel Cornellis, que havendo sido mandado ir à Província da Beira para se achar com os soldados da sua companhia na facção da Ponte de Alcântara, depois de acabada se veio dela sem ordem do mesmo Dom Sancho, e juntamente se vos remete  uma petição do mesmo capitão Manuel Cornellis, em que aponta as razões por que se deve recolher com a sua companhia a essa fronteira para nela se dar verde aos cavalos, e os guarnecer por ser a parte em que assistia mui nociva para eles, por razão dos mantimentos. Encomendo-vos que vendo tudo o que se contém na carta de Dom Sancho, e petição de Manuel Cornellis, ordeneis que aos cavalos da sua companhia se lhes dê verde, como já se lhe tem avisado, e a ele o façais logo prender no castelo de Vila Viçosa, e dando-lhe cargos [acusações] pelo que Dom Sancho avisa em ordem à sua desobediência, o ouçais sobre tudo, e não se descarregando nem dando satisfação a eles bastante o sentencieis, e castigueis como for justiça. Escrita em Lisboa, 2 de Maio de 1648.

Mas se o capitão holandês já tinha sobre si a justiça militar devido ao seu acto de desobediência, pior ficaria quando, estando ainda em Abrantes, alguns soldados da sua companhia praticaram um crime grave.

(continua)

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1649, maço 9, nº 47.

Imagem: Cavaleiros. Quadro de Philips Wouwerman, Museu do Louvre.

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