O combate de Castelo de Vide – 8 de Outubro de 1650 (3ª parte)

combate

Conclui-se hoje a narrativa do combate, segundo a descrição que é feita pelo soldado de cavalaria Mateus Rodrigues, que nele participou.

“Duraria a força da pendência uma hora, (…) mas como o inimigo viu que andava (…) já desbaratado, e além disso as companhias que lhe ficavam pela retaguarda, assim como nos viram, imaginaram que era toda a nossa cavalaria e logo se puseram em fugida, que deram ocasião a que os demais o fizessem também (…), de que nós tivemos grandíssimo gosto, que logo lhes fomos zurzindo em cima, daí uma grande légua até noite escura. E quando o inimigo se pôs em fugida, foi passando pelas barbas do nosso terço, mas já não havia lugar de lhe dar carga [quer dizer, disparar as armas de fogo], porquanto nós íamos já muito baralhados com eles, mas o mestre de campo [Gonçalo Vaz Coutinho], com a muita alegria de ver que nos fugia o inimigo, não se pôde ter que não mandasse dar carga aos soldados, que mais valera que nunca a dera, pois mataram de um mosquetaço o tenente do capitão Lopo de Sequeira, que era um bizarro moço, e alguns soldados mais.”

Note-se que o termo “bizarro”, aqui, significa “valente”. Os cavaleiros portugueses só abandonaram a perseguição após meia légua (c. 2,5 Km) percorrida, já anoitecia, na ermida de S. Amador. Os espanhóis tinham aí deixado perto de 800 infantes, mas este facto só veio a ser conhecido no dia seguinte.

Outro aspecto digno de nota é a inexperiência revelada pelo mestre de campo Gonçalo Vaz Coutinho numa situação de combate, ao dar ordem para os mosqueteiros e arcabuzeiros do terço dispararem sobre a cavalaria que passava ao seu alcance, sem ter em consideração que havia soldados portugueses colados ao inimigo.

“Agora direi o que sucedeu aos cem cavalos que o inimigo botou por cima, a tomar as entradas da vila. Assim como eles sentiam lá com as suas tropas a bulha, foi tratando do seu livramento, mas ainda levou seu esfola gato, que o corremos mui bem e ainda lhe ficaram mais de 20 cavalos dos que levava. E o capitão escapou pelo pó do gato, que esteve bem arriscado a matarem-no ou cativarem-no. Assim como foi noite começámos a juntar-nos e começaram a marchar para a vila de Castelo de Vide, que estava dali meia légua. E como fazia então mui bom luar, víamos mui bem o que havíamos de fazer, contudo, ainda não sabíamos quem nos faltava. Fomos para a vila levando connosco uma procissão de nus dos castelhanos (…).”

Era prática comum, tanto na Guerra da Restauração como em outros conflitos da era pré-industrial, despir os mortos e prisioneiros de guerra, a fim de aproveitar as roupas e todo o equipamento militar que fosse possível. Daí a referência aos prisioneiros nus.

Entre os mortos portugueses contava-se o tenente Agostinho Ribeiro, que comandava naquela ocasião a companhia do general da cavalaria André de Albuquerque Ribafria. Foi a sua morte muito sentida entre todos, principalmente pelo memorialista Mateus Rodrigues e pelos seus camaradas veteranos, pois Agostinho Ribeiro era um velho companheiro de armas, tendo começado a guerra como furriel da companhia de D. João de Ataíde, onde servia Mateus Rodrigues, quando esta foi formada em 1641 (depois de D. João de Azevedo e Ataíde ter deixado o exército em 1647, a companhia passou a ser comandada pelo capitão Francisco Pacheco Mascarenhas). Também o general da cavalaria ficou muito desgostoso com a morte do seu tenente, acontecimento que ensombrava a vitória alcançada e a captura de 250 cavalos.

“O capitão Dinis de Melo [de Castro] trouxe uma pelourada em uma perna, mas não foi coisa que fizesse mal (…). Morreriam 40 homens nossos e feridos mais de 80, mas o inimigo perdeu 5 capitães, 4 mortos e um cativo, destes 250 cavalos que nós lhe tomámos viriam 200 homens prisioneiros, e os mais morreram, de sorte que a minha companhia só trouxe 28 cavalos da ocasião (…). Mas não há dúvida que foi um sucesso notável, com o tão pouco poder que nós tínhamos, que o inimigo trazia treze tropas mui grandes, que constavam de 700 cavalos, e as nossas tropas eram 7, (…) que não éramos mais que 380.”

Fonte: Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM, pgs. 230-232.

Veja-se também a descrição do combate em ERICEIRA, Conde de, História de Portugal Restaurado, edição on-line, pgs. 333-334.

Imagem: Jan Martszen de Jonge, Combate de cavalaria (meados do séc. XVII).

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