O combate da Atalaia da Terrinha, 5 de Junho de 1647 (4ª parte)

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O desaire da Atalaia da Terrinha não foi diferente de muitos outros que ocorreram durante o conflito, fossem os vencidos do exército português ou do espanhol. Contudo, este sucedeu num período particularmente difícil para a cavalaria do exército do Alentejo. Martim Afonso de Melo, recém-nomeado governador das armas, tratou de afastar D. João de Azevedo e Ataíde do comando da cavalaria. O fidalgo foi preso e depois enviado a Lisboa para tratar de assuntos pessoais (uma forma airosa de não embaraçar ainda mais o comissário geral, que em 1641 levantara à sua custa a companhia de cavalos que comandava e fora dos primeiros combatentes na fronteira do Alentejo). Não escapou a um processo e consequente condenação, por causa do comportamento da cavalaria no combate da Atalaia da Terrinha. Como bom conhecedor das leis, D. João de Ataíde soube defender-se brilhantemente, interpondo recursos que resultaram na anulação da desonrosa sentença de perda do posto. Mateus Rodrigues refere que o seu comandante se retirou para os domínios que possuía em Coimbra, deixando definitivamente a fronteira do Alentejo e a carreira das armas. Mas uma carta de Martim Afonso de Melo ainda menciona uma operação levada a cabo por D. João de Ataíde em Junho de 1648, uma incursão ao outro lado da fronteira em represália pelo fracassado assalto espanhol a Olivença, durante o qual morreu o engenheiro João Pascácio Cosmander. Ter-se-á tratado de um breve regresso ao Alentejo para provar que vencera a argumentação legal e mantinha o posto, dele saindo só por sua vontade e com a honra intacta. Antes e depois desta ocasião, a companhia onde servia Mateus Rodrigues foi comandada interinamente pelo tenente Agostinho Ribeiro, sendo posteriormente entregue ao capitão Francisco Pacheco Mascarenhas.

Outros oficiais foram castigados em consequência do desastre militar na Atalaia da Terrinha. O capitão João da Silva de Sousa, que além de correr atrás do ajudante de D. João de Ataíde de espada na mão, insultou o comissário geral e o desafiou para um duelo (um crime muito grave), foi preso e condenado a degredo na província de Entre-Douro-e-Minho. Mas também este oficial soube mover influências, pelo que continuou a servir no Alentejo com a sua companhia. Outro capitão que foi preso, Luís Gomes de Figueiredo, acabaria de igual modo perdoado, tendo mesmo sido promovido a comissário geral. Poucos meses depois, em Setembro de 1647, seria mortalmente ferido num combate.

Em Outubro de 1647, a Atalaia da Terrinha foi palco da desforra portuguesa, com o general da cavalaria D. João de Mascarenhas (futuro Conde de Sabugal) a derrotar uma incursão do congénere espanhol recém-chegado à fronteira. Apenas mais um episódio, entre os muitos combates que se travaram nas proximidades da Atalaia durante a Guerra da Restauração.

Fonte: Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV e a El-Rei D. Afonso VI, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, vol. I,  pgs. 149, 171, 195 e 288.

Imagem: Cavalaria inglesa do período da Guerra Civil entre Realistas e Parlamentários. A aparência e o equipamento eram muito semelhantes ao da cavalaria portuguesa e espanhola da época. Reconstituição histórica, Kelmarsh Hall Festival of History, 2007. Foto de Jorge P. de Freitas.

O combate da Atalaia da Terrinha, 5 de Junho de 1647 (3ª parte)

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Recebera D. João de Ataíde ordem de atacar a cavalaria inimiga, mas a progressão foi feita com tanto vagar que a força espanhola passou primeiro o ribeiro e ficou do lado oposto, à espera da reacção portuguesa. Conforme relatou o governador das armas Martim Afonso de Melo…

(…) como não o investimos antes de o passar, com quatro tropas [companhias] que o comissário tinha apartadas, depois foi com grande risco avançar com o inimigo passada a ribeira, o que fez o capitão António Jacques de Paiva e Lopo de Sequeira, tenente da companhia de António Saldanha [da Gama], que ficou na praça [de Elvas] mal disposto, e como estavam da outra banda carregaram todas as tropas do inimigo, que seriam oitocentos cavalos, sobre estas duas nossas, que não puderam aguentar o choque e voltando feriram alguns soldados e o mesmo capitão António Jacques de Paiva e o capitão de dragões [René] Grudé [francês] e o capitão Van Ingen [holandês], a quem levaram prisioneiro por se ir nas companhias que passaram a ribeira; o general da artilharia me fez queixa que os oficiais da cavalaria não fizeram o que ele lhe ordenara (…), e hei-de castigar com todo o rigor ao que achar culpado em não querer investir quando o mandaram, porque o certo é que anda mal acostumada esta nossa cavalaria, mas contudo o inimigo se retirou e largou o posto e nós ficámos nele até às cinco da tarde (…).

O que aconteceu entre a ordem de atacar e a sua tardia e incompleta execução (estando a cavalaria espanhola já formada no lado oposto do ribeiro) é narrado pelo soldado Mateus Rodrigues, que participou na acção:

Dom João (…) chamou um ajudante da cavalaria para levar as ordens do que haviam de fazer, e como este tal ajudante lhe não eram os capitães fidalgos muito afeiçoados, por haver sido criado do mesmo Dom João de Ataíde, (…) quando (…) levou as ordens aos capitães houve uma descomposição com ele, e um capitão de cavalos, por nome João da Silva [de Sousa] lhe disse mui más palavras, e correu após dele com a espada na mão para lhe dar, e o dito ajudante se veio mui queixoso (…) ter com Dom João do que lhe haviam feito. De modo que o mesmo Dom João levou as ordens  pessoalmente a todos os capitães e mandou a um capitão, por nome António Jacques de Paiva, com três companhias, que era a sua e a do tenente Lopo de Sequeira e a (…) companhia de Dom João, que era a minha, e o cabo [ou seja, comandante] que ia na minha [era] o alferes Agostinho Ribeiro, e (…) disse Dom João ao capitão António Jacques que fosse sua mercê com aquelas três companhias a pelejar com o inimigo, mas que não passasse o ribeiro além (…), que assim como chegasse [a] averbar com o inimigo ao pé do ribeiro, lhe desse uma carga de cravinas e pistolas, mas que logo voltasse na mesma hora para trás, dando as costas ao inimigo, e que era força que, vendo-o o inimigo fugir, o havia de carregar logo, e tanto que o inimigo passasse o ribeiro após eles, era força que se havia de descompor (…).

D. João de Ataíde foi então dar as ordens aos capitães, para que atacassem todos ao mesmo tempo logo que o inimigo passasse o ribeiro em perseguição das companhias (quatro, segundo Martim Afonso de Melo; três, na versão de Mateus Rodrigues). Mas, segundo escreve o soldado, o mesmo foi dar-lhe[s] esta ordem que dizer-lhes que fugissem.  António Jacques de Paiva, por seu lado, excedeu as ordens que recebera, pois passou o ribeiro com as companhias, e na desorganizada retirada veio [o inimigo] logo sobre os nossos como um raio, fazendo tudo numa poeira. Mas o que os nossos batalhões haviam de fazer em investir o inimigo, fizeram em fugir todos à rédea solta para [a] Atalaia, e são [sic] o mais infame que jamais se há visto. Tanto que o inimigo (…) viu nossa pouca vergonha, aproveita-se logo da ocasião, seguindo-nos como uns cães, e o pior de tudo que quem ficava nas piores eram as três companhias que havíamos ido a picá-lo, pois lhe ficávamos mais à mão. E assim a perda que houve foi delas, que lhe tomou o inimigo mais de 60 cavalos (…), matando-lhe 20 ou 30 homens.

O general da artilharia André de Albuquerque, que estava na Atalaia com a infantaria, mal viu a fuga precipitada da cavalaria portuguesa, mandou avançar os terços.

(…) o inimigo, assim como viu nossa infantaria, logo se retirou mui depressa, visto haver feito já o que podia fazer, e se retirou a Badajoz, donde teve aquele capitão [D. Alonso Cabrera], que foi causa daquilo, grandes louvores do seu governador; e na verdade os merecia tanto como os nossos mereciam o castigo.

Do lado português, o governador das armas Martim Afonso de Melo ficou furioso com o sucedido. Das consequências finais tratará o derradeiro capítulo desta série.

(continua)

Citações: Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV e a El-Rei D. Afonso VI, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, vol. I,  pgs. 144-145; Manuscrito de Matheus Roiz, pgs. 176-178.

Imagem: Adam Frans van der Meulen, “Combate de cavalaria”, Kunsthistorisches Museum, Viena.

O combate da Atalaia da Terrinha, 5 de Junho de 1647 (2ª parte)

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Prossigamos a narrativa do sucedido na Atalaia da Terrinha com a versão “oficial”, o relatório do governador das armas Martim Afonso de Melo (vertido para português corrente). Conforme foi referido, tratou-se da primeira acção de importância após a chegada a Elvas, em 22 de Maio, daquele cabo de guerra.

Hoje, que foram 5 do corrente, das sete para as oito do dia, veio o inimigo com duas tropas grandes dando em uma nossa que estava de guarda, a qual se veio retirando até perto dos muros desta cidade; e dando-se-me aviso mandei montar a cavalaria e lhe ordenei que fosse tomar o posto que a nossa tropa de guarda ocupava; e porque poderia suceder que carregasse muita cavalaria do inimigo sobre a nossa, mandei marchar a infantaria também para que estivesse dentro nos olivais dando favor à nossa cavalaria, e tendo nós tomado o posto se me avisou que a cavalaria do inimigo se havia descoberto e que estava repartida, uma da ribeira para cá, e outra da outra parte; ordenei ao general da artilharia André de Albuquerque (por ser o cabo maior que está nesta fronteira) que fossem investir o inimigo, estando ainda dividido desta nossa parte da ribeira, e não estando a não passassem nem empenhassem a nossa cavalaria, e que mandassem marchar a infantaria de modo que não fosse vista do inimigo, e que pudesse ajudar-nos se fosse necessário; foi o general da artilharia e diz que achando ainda três tropas do inimigo desta nossa parte mandara ao comissário geral Dom João de Ataíde que com quatro nossas as investisse, e ele com o restante fora baixando da Atalaia da Terrinha, que era o posto que ocupávamos, o que vendo o inimigo passou o ribeiro (…)

É tempo de voltar ao testemunho do soldado Mateus Rodrigues, que pinta o quadro do lado da cavalaria espanhola (provavelmente reconstituindo a memória do sucedido a partir das conversas que tivera com soldados de ambos os lados – episódios como este eram contados e recontados ao longo dos anos, e as conversas entre soldados dos dois exércitos eram frequentes, pois tanto uns como outros se encontravam de vez em quando ora na situação de cativos, ora na de guarda de prisioneiros)

(…) de modo que o inimigo se veio encostando ao ribeiro da Veuda (…) e assim como ele se veio chegando para onde as nossas tropas estavam, mandou então André de Albuquerque ir as outras tropas que estavam detrás da Atalaia a incorporar-se com as outras que lá estavam. e uma ordem (…) mandou a Dom João de Ataíde que pelejasse com o inimigo, já que tinham tão boa ocasião, pois o inimigo fora desgraçado em vir naquela ocasião de ter ali a cavalaria das outras praças (…) [e] porque estava já averbado connosco [isto é, em contacto, ou a distância de fogo ou em escaramuça à espada] e não se podia já retirar sem pelejar, porque [senão] tinha a perdição certa. Mas um comissário que ali vinha de novo [ou seja, pela primeira vez] por cabo deles não queria pelejar, porquanto antevia a muita desigualdade que tinha, e como era a primeira vez que saía à campanha, não queria que logo lhe sucedesse uma desgraça. Mas vinha ali com eles um capitão de cavalos a que chamavam Dom Alonso Cabrera, natural de Badajoz, que foi o mais valente soldado que em os nossos tempos conhecemos ao inimigo, e assim como viu o seu comissário frio de pelejar e com determinação de se tornar a retirar e não pelejar, disse-lhe que no se havia de retirar que cuando no quisesse pelear que le dejase la ocasion por sua cuenta, que el se lo queria tomar a su cargo e que no tuviesse cuidado [Mateus Rodrigues mistura português e castelhano “aportuguesado” nesta parte].

E assim, com a confiança assente na experiência e bravura de D. Alonso Cabreira, o comissário geral espanhol decidiu pelejar. Do outro lado, D. João de Ataíde também recebera ordens de atacar…

(continua)

Citações: Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV e a El-Rei D. Afonso VI, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, vol. I,  pg. 144; Manuscrito de Matheus Roiz, pgs. 175-176.

Imagem: O teatro de operações na região de Elvas; a Atalaia da Terrinha aparece destacada a verde. Nota: o norte encontra-se para a esquerda da imagem, o topo aponta a leste. Mapa de Nicolau de Langres, década de 1650. Biblioteca Nacional, Reservados, F2359.

O combate da Atalaia da Terrinha, 5 de Junho de 1647 (1ª parte)

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Os anos de 1646 e 1647 foram muito difíceis para a cavalaria portuguesa da província do Alentejo. Foi uma época de transição nos comandos, de mudança estratégica (as campanhas ofensivas do exército no Verão, que marcaram os anos de 1643 a 1646, foram suspensas a partir de 1647) e de reorganização administrativa (o Contrato com os capitães de cavalos entrou em vigor em Abril de 1647). No terreno, a supremacia da cavalaria espanhola sobre a portuguesa ficou exposta numa série de desaires para as armas lusas. Durante algum tempo, a cavalaria não teve general nem tenente-general a comandá-la no terreno. Esse papel coube a um comissário geral, o inepto D. João de Azevedo e Ataíde, a cuja companhia pertencia o soldado e memorialista Mateus Rodrigues. O combate da Atalaia da Terrinha, a cerca de uma légua (5 Km) de Elvas, marcou o fim da carreira militar do fidalgo. Os  ventos da Fortuna soprariam para longe na História, para o século seguinte, a fama imorredoira que o comissário sonhara para si, presenteando com ela um seu trineto, um tal Sebastião José de Carvalho e Melo…

Tudo começou com a chegada do novo governador das armas do Alentejo, o regressado Martim Afonso de Melo, Conde de São Lourenço. Seria ele a recuperar a cavalaria do Alentejo, mas o começo não podia ter sido menos auspicioso. O governador das armas convocou todas as companhias de cavalos do exército para uma mostra na cidade de Elvas – existiam então 26 companhias, que alinhavam cerca de 1.000 efectivos. Estavam todas juntas na cidade quando tocou a rebate: havia cavalaria castelhana nos olivais das cercanias de Elvas! O general da artilharia André de Albuquerque Ribafria (que se distinguiria, anos depois, como brilhante general da cavalaria) mandou toda a cavalaria sair da cidade. Uma companhia foi adiante, para entrar em contacto com a força de reconhecimento inimiga, composta por 100 cavalos, e afastá-la das tropas que se formavam na encosta. Segundo recorda Mateus Rodrigues…

…assim como eles viram (…) a nossa cavalaria fora, foram (…) andando para a Atalaia da Terrinha; e a nossa cavalaria foi um vale abaixo, encoberta [para] que não a visse o inimigo, porque já se sabia muito bem que o inimigo tinha [montado] emboscada em Guadiana, que fica da nossa Atalaia um quarto de légua. (…) Desceram as tropas de Elvas abaixo à campanha, e as outras de Olivença e de Campo Maior deixaram-se ficar detrás da nossa Atalaia, que as não visse o inimigo. E já neste tempo o nosso general da artilharia André de Albuquerque estava na Atalaia com os três terços de Elvas, mas não via o inimigo nada. Assim como a sua [(dos espanhóis, entenda-se)] emboscada que estava em Guadiana viu (…) as tropas lá em baixo em o ribeiro da Veuda, saiu de Guadiana à rédea solta com 600 cavalos que lá tinha, não mais, e que em bem má hora vinha ele, se não houvera tanta desordem como houve ou, para melhor dizer, tanto medo e pouca vergonha entre todos [nós], que naqueles casos não se culpa mais senão tudo em geral, porque todos têm culpa. (Manuscrito de Matheus Roiz, pgs. 173-174)

(continua)

Imagem: “Combate de Cavalaria”, de Jan Martszen de Jonge, meados do séc. XVII.

Batalha das Linhas de Elvas, 14 de Janeiro de 1659

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Passam hoje 350 anos sobre a batalha das Linhas de Elvas.

Aqui fica um breve resumo do evento. Um exército de socorro (8.000 infantes, 2.900 cavaleiros e 7 peças de artilharia), sob as ordens do Conde de Cantanhede, D. António Luís de Meneses, foi enviado para tentar pôr fim ao cerco de Elvas, que o exército espanhol comandado por D. Luís de Haro (inicialmente, 14.000 infantes, 5.000 cavaleiros e 19 peças de artilharia) mantinha desde Outubro de 1658. A 14 de Janeiro, pelas 8 horas da manhã, beneficiando do denso nevoeiro que cobriu a aproximação da força, e também do erro de julgamento de D. Luís de Haro, o exército português rompeu as linhas de cerco inimigas e desbaratou os sitiantes, os quais fugiram precipitadamente, imitando o seu comandante-em-chefe. Ao mesmo tempo, D. Sancho Manuel, comandante das forças sitiadas, fez uma surtida para ajudar ao êxito das forças portuguesas. Somente cerca de 5.000 infantes e 300 cavaleiros das forças sitiantes conseguiram chegar a Badajoz. Para trás deixaram toda a artilharia, o depósito de munições, mantimentos e os pertences de D. Luís de Haro, incluindo toda a secretaria com importantíssima documentação. As baixas portuguesas também foram pesadas, com saliência para a morte de André de Albuquerque Ribafria, general da cavalaria.

Apesar desta vitória portuguesa, que apagou a lembrança do tremendo fracasso que tinha sido o cerco de Badajoz no ano anterior, a iniciativa da guerra continuou a pertencer ao exército de Filipe IV. Só as derrotas espanholas nas batalhas campais da década seguinte (1663, Ameixial, e 1665, Montes Claros) levariam a uma inversão dos papéis, até à ratificação da paz no início de 1668.

Imagem: Cerco de Elvas, 1659, por Pedro de Santa Colomba. Biblioteca Nacional, Iconografia, E1090V.

Artilharia (6) – Artilharia da Praça de Elvas em 1663

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Descrição pormenorizada do número de peças existentes, em 31 de Dezembro de 1663, na praça de Elvas. Em primeiro lugar, é referido o local, em segundo, o número e tipo de peça, e em terceiro, o calibre em libras (lb). Remeto os leitores para os artigos já publicados sobre a artilharia, de modo a compreender as designações das peças e respectivos calibres.

Castelo: 1 meio canhão de 24 lb; Baluarte de S. João: 1 meio canhão de 24 lb, 1 meia colubrina de 16 lb, 1 meio sacre de 4 lb; Baluarte de S. Vicente: 1 meio canhão de 12 lb, 1 sacre de 7 lb; Baluarte de Stª Maria: 1 sacre de 7 lb; Quartina de S. Domingos: 1 quarto de canhão de 10 lb; Baluarte de S. Pedro: 1 meio canhão de 24 lb, 1 sacre de 7 lb, 1 pedreiro de 10 lb; Quartina da Porta de Olivença: 1 peça de Suécia de 6 lb; Baluarte da Cruz: 2 meios canhões de 24 lb; Muralha junto à cisterna: 1 falcão de 2 lb; Porta da Esquina: 4 meios canhões de 24 lb, 1 pedreiro de 8 lb; Muralha de trás do trem: 1 peça de Suécia de 9 lb; Baluarte do Príncipe: 1 falcão de 2 lb; Forte de Stª Luzia: 2 meios canhões de 24 lb, 2 terços de canhão de 16 lb; 3 peças de Suécia de 9 lb; 1 quarto de canhão de 10 lb, 1 sacre de 7 lb.

Peças montadas no trem: 1 terço de canhão de 16 lb, 3 meias colubrinas de 12 lb, 1 quarto de canhão de 10 lb, 3 peças de cavalaria de 4 lb, 1 falcão de 2 lb, 1 peça de ferro de 4 lb, 1 falcão da escola de 1 lb.

TOTAL: 42 peças.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1664, maço 24, relação anexa à consulta de 30 de Janeiro de 1664, reportada a 31 de Dezembro de 1663.

Imagem: Mapa do cerco de Elvas (Outubro 1658-Janeiro 1659), in La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII.

O capitão de cavalos André Mendes Lobo – breve retrato de um fiel servidor da Casa de Bragança

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André Mendes Lobo foi um capitão de cavalaria diferente dos demais. Sem nunca ter atingido maior projecção na hierarquia militar, foi durante alguns anos um dos mais importantes elementos na estrutura do exército da província do Alentejo, se não na tomada de decisões ao nível da condução das operações, pelo menos para o funcionamento daquele exército enquanto força militar. De origem plebeia, embora abastado (um vilão muito rico do Alentejo, como refere Felgueiras Gayo), arriscou a sua vida e empenhou a sua fortuna na defesa dos Bragança – talvez mais do que fizeram alguns nobres de sangue que colheram benefícios com a separação de Portugal da Monarquia Hispânica.

A preocupação de André Mendes Lobo era, também, defender o património próprio. As suas terras espalhavam-se pelas zonas que serviam de palcos de combate, de Elvas a Juromenha, passando por Borba, de onde era natural, e Vila Viçosa, onde residia.  A sua ligação à Casa de Bragança era muito forte. A ela devia a sua ascensão social, anterior ainda à Aclamação: por serviços prestados ao Duque D. João, fora elevado à fidalguia. Para mais, André Mendes Lobo integrara o grupo restrito dos que tinham um contacto bem próximo com o futuro monarca, pois fora Guarda-Roupa do Duque, ou seja, responsável pela câmara que antecedia o quarto de D. João, no Paço de Vila Viçosa. Tremenda carreira ascensional para um plebeu que, em 1625, quase fora assassinado por parentes da sua esposa, a fidalga D. Leonor da Silveira, indignados com o matrimónio do vilão com alguém que lhe era socialmente superior.

Também D. Leonor da Silveira privara com a família ducal, tendo sido ama de leite do Príncipe D. Teodósio. Mais do que isso, privara intimamente com o próprio D. João em manobras de Eros e Afrodite. Mancebia à qual Felgueiras Gayo atribui os favorecimentos feitos a André Mendes Lobo já depois do Duque cingir a coroa de Rei.

Após a Aclamação, André Mendes Lobo quedou-se pelo Alentejo. As suas acções como capitão de cavalos surgem em algumas relações e documentos oficiais, em nada sendo deslustrosas, mas também sem lhe valerem avanço na carreira das armas – não seria essa, de resto, a sua ambição. Embora continuasse a servir, era também pagador geral do exército do Alentejo, tendo chegado a desembolsar a soma de 18.000 cruzados (7.200.000 réis) para financiar os custos de uma campanha militar no Alentejo. Fazia questão de mostrar a sua riqueza e empenho no serviço através da dimensão da sua companhia de cavalos: na década de 50 e inícios da de 60, tanto a sua unidade como a do seu genro Dinis de Melo de Castro (futuro Conde de Galveias) ultrapassavam a centena de cavalos, quando a média das demais não ia além das 46 montadas; em 1661 chegaram a corresponder, no seu conjunto, a mais de 12% dos efectivos de cavalaria do exército do Alentejo.

Ia o ano de 1661 avançado quando André Mendes Lobo deixou o serviço na cavalaria. Tão grande era a sua companhia, que foi ordenado fosse repartida e dela se formassem duas. André Mendes Lobo faleceu no final de 1661. Uma carta do Conde de Atouguia, de 3 de Janeiro de 1662, ao Conselho de Guerra (ANTT, CG, 1662, maço 22, consulta de 14 de Janeiro) refere a petição feita por D. Leonor da Silveira, mulher que foi do pagador geral deste exército, e capitão de cavalos André Mendes Lobo, em que a viúva declara desejar continuar a servir a Coroa com o zelo que o fazia seu marido defunto, pedindo que, após a divisão da companhia que fora do seu marido, se desse uma companhia a D. António de Almeida e que outra, com mais cavalos que ela determinava comprar, ficasse assistindo no forte com capitão por ela nomeado, ou que então os cavalos se dessem ao genro, Dinis de Melo de Castro. O Conde de Atouguia refere que mandou o vedor geral do exército do Alentejo fazer proporcionalmente a partilha: achando-se 86 cavalos, deu para duas companhias de 43, e os 110 soldados também se repartiram com igualdade. As companhias foram entregues aos capitães D. António de Almeida (carta patente de 8 de Novembro de 1661) e Philipe Suel (francês, carta patente de 21 de Outubro de 1661). Sobre o pedido de D. Leonor para poder prover o capitão que melhor achar para a companhia que ela queria refazer, o Conde foi de opinião que assim lhe fosse concedido, em graça pelos muitos serviços que o seu marido prestara. Realçou as vantagens tácticas  da companhia assistir no forte – mesmo que ela não o pedisse, seria necessidade fazê-lo, pois ficava acudindo a Elvas, Juromenha, Vila Viçosa e lugares que se seguem Guadiana abaixo, cobrindo muitas herdades, assim das que ficaram de André Mendes como de muitos outros donos, impedindo as partidas que de Arronches (então na posse dos espanhóis) pretendessem passar a Olivença; e assim ficavam os soldados com melhor comodidade de quartel e os cavalos com mais erva. O Conde mostrou-se contra a proposta para que os cavalos se incluíssem na companhia de Dinis de Melo de Castro, pois na mostra de 29 de Dezembro de 1661 havia 117 cavalos naquela companhia.

A que forte se referia D. Leonor da Silveira, não esclarece o documento. No entanto, pode ser o que refere esta passagem da História de Portugal Restaurado: quando, em 1662, D. João José de Áustria invadiu Portugal de novo pela fronteira do Alentejo e marchou sobre Juromenha, (…) na marcha rendeu o exército uma casa-forte do capitão de cavalos André Mendes Lobo, situada entre Vila Viçosa e Juromenha, e guarnecida com uma companhia de infantaria. Mandou D. João de Áustria arrasá-la (…) (ERICEIRA, Conde de, História de Portugal Restaurado, edição on-line, Parte II, Livro VI, pg. 473). Por essa altura já a companhia a que D. Leonor da Silveira pretendera destinar o comandante estava incapaz de operar, pois segundo uma carta do Marquês de Marialva (13 de Junho de 1662, anexa à consulta de 19 de Junho), houvera ordens régias para que nela não fosse provido qualquer capitão e as deserções e incúria tinham-na deixado de todo perdida.

Bibliografia: além dos meus livros O Combatente durante a Guerra da Restauração… e A Cavalaria na Guerra da Restauração…, onde são tratados vários aspectos da carreira militar de André Mendes Lobo e Dinis de Melo de Castro, veja-se também:

COSTA, Leonor Freire; CUNHA, Mafalda Soares da, D. João IV, s.l., Temas e Debates, 2008, pgs. 84-85.

CUNHA, Mafalda Soares da, A Casa de Bragança 1560-1640. Práticas senhoriais e redes clientelares, Lisboa, Editorial Estampa, pgs. 569 e 588.

FELGUEIRAS GAYO, Manuel José da Costa, Nobiliário de Famílias de Portugal, Braga, Carvalhos de Basto, 1989, vol. IV, t. XI, pgs. 247-248, e vol. VI, t. XVII, pg. 428.

Imagem: “Um combate de cavalaria”, Adam Frans van der Meulen (2ª metade do séc. XVII), Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque.