O combate da Atalaia da Terrinha, 5 de Junho de 1647 (4ª parte)

cav

O desaire da Atalaia da Terrinha não foi diferente de muitos outros que ocorreram durante o conflito, fossem os vencidos do exército português ou do espanhol. Contudo, este sucedeu num período particularmente difícil para a cavalaria do exército do Alentejo. Martim Afonso de Melo, recém-nomeado governador das armas, tratou de afastar D. João de Azevedo e Ataíde do comando da cavalaria. O fidalgo foi preso e depois enviado a Lisboa para tratar de assuntos pessoais (uma forma airosa de não embaraçar ainda mais o comissário geral, que em 1641 levantara à sua custa a companhia de cavalos que comandava e fora dos primeiros combatentes na fronteira do Alentejo). Não escapou a um processo e consequente condenação, por causa do comportamento da cavalaria no combate da Atalaia da Terrinha. Como bom conhecedor das leis, D. João de Ataíde soube defender-se brilhantemente, interpondo recursos que resultaram na anulação da desonrosa sentença de perda do posto. Mateus Rodrigues refere que o seu comandante se retirou para os domínios que possuía em Coimbra, deixando definitivamente a fronteira do Alentejo e a carreira das armas. Mas uma carta de Martim Afonso de Melo ainda menciona uma operação levada a cabo por D. João de Ataíde em Junho de 1648, uma incursão ao outro lado da fronteira em represália pelo fracassado assalto espanhol a Olivença, durante o qual morreu o engenheiro João Pascácio Cosmander. Ter-se-á tratado de um breve regresso ao Alentejo para provar que vencera a argumentação legal e mantinha o posto, dele saindo só por sua vontade e com a honra intacta. Antes e depois desta ocasião, a companhia onde servia Mateus Rodrigues foi comandada interinamente pelo tenente Agostinho Ribeiro, sendo posteriormente entregue ao capitão Francisco Pacheco Mascarenhas.

Outros oficiais foram castigados em consequência do desastre militar na Atalaia da Terrinha. O capitão João da Silva de Sousa, que além de correr atrás do ajudante de D. João de Ataíde de espada na mão, insultou o comissário geral e o desafiou para um duelo (um crime muito grave), foi preso e condenado a degredo na província de Entre-Douro-e-Minho. Mas também este oficial soube mover influências, pelo que continuou a servir no Alentejo com a sua companhia. Outro capitão que foi preso, Luís Gomes de Figueiredo, acabaria de igual modo perdoado, tendo mesmo sido promovido a comissário geral. Poucos meses depois, em Setembro de 1647, seria mortalmente ferido num combate.

Em Outubro de 1647, a Atalaia da Terrinha foi palco da desforra portuguesa, com o general da cavalaria D. João de Mascarenhas (futuro Conde de Sabugal) a derrotar uma incursão do congénere espanhol recém-chegado à fronteira. Apenas mais um episódio, entre os muitos combates que se travaram nas proximidades da Atalaia durante a Guerra da Restauração.

Fonte: Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV e a El-Rei D. Afonso VI, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, vol. I,  pgs. 149, 171, 195 e 288.

Imagem: Cavalaria inglesa do período da Guerra Civil entre Realistas e Parlamentários. A aparência e o equipamento eram muito semelhantes ao da cavalaria portuguesa e espanhola da época. Reconstituição histórica, Kelmarsh Hall Festival of History, 2007. Foto de Jorge P. de Freitas.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s