Badajoz, 1652 – a intentona frustrada (4ª parte)

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A missão de João Leite de Oliveira (noite de 5 para 6 de Fevereiro de 1652)

Segundo o relatório do tenente-general da artilharia, ficou tudo combinado com os sargentos para que se infiltrasse em Badajoz, na missão de reconhecimento, na noite de 5 para 6 de Fevereiro. Na narrativa de Mateus Rodrigues, foi numa das vezes que um dos sargentos se deslocou a Elvas, a recato da noite, que D. João da Costa revelou que iria enviar o tenente-general, e que não se enfadasse o sargento com aquela decisão e cautela, mas que era necessário ver tudo muito bem. E o oficial português devia entrar e sair de Badajoz numa só noite (ao contrário do que sucedeu com o furriel João Dias de Matos).

Prossigamos com a relação de Leite de Oliveira:

E logo sendo na noite assinada, saí à tarde com todo o recato de Elvas, eu só, e onde se chama Malpica de Castela se tinha mandado vir de Olivença uma guia prática [seria o furriel Dias de Matos?] e o capitão Aguiar, que é engenheiro, o qual não sabia nada, nem a guia, e ajuntando-me aí com eles, lhe[s] disse que tínhamos uma jornada que fazer e aqui neste lugar pasámos o dia, e ao pôr do sol disse ao guia me guiasse ao ribeiro, que passa pela outra parte de Mérida, ao qual chmam ribeiro de Redilhas, e estando já perto dele lhe disse me mostrasse o moinho, e depois de o fazer, mandei se retirasse (…) os três cavalos, e eu me adiantei ao moinho, do qual me saiu o sargento flamengo [Alejandro Perez], e depois de nos reconhecermos tornei atrás, e chamei o engenheiro, e então lhe comuniquei ao que íamos.

Deram dez horas da noite e saiu a lua [ou seja, estava uma noite de luar], que nos podia fazer dano, sem embargo disso nós chegámos ao pé da muralha do castelo, um à vista do outro, sem haver sentinela por aquela parte na muralha, e fomos seguindo (…) até uma meia lua, que fecha por uma e outra parte na muralha do castelo, que terá 18 ou 20 palmos ao mais de alto, a esta meia lua sai uma porta do castelo, que fica de noite somente ferrolhada, porque a meia lua não tem saída para a campanha, e essa é a causa.

Chegou o sargento, que me guiava, diante da meia lua onde estava o outro sargento com dois soldados, que ali havia de sentinela, e lhe perguntou «eres tu?», ao que lhe respondeu o nosso guia «yo soy y no pude pilher el carnero, y aqui vienen comigo dos amigos, que alla topé, que se habian quedado fuera pera el mesmo efecto», com o que nos deu o sargento que estava dentro um chuço pelo pé, e pegando nele, e na muralha nos baldeámos dentro todos três, eu saudei aos soldados, que ali estavam de sentinela, e não repararam no trapilho do vestido que eu levava, e assim abriram o postigo da porta, que estava cerrado, e entrámos no castelo os quatro, no qual eu andei até uma hora depois da meia-noite, correndo a muralha, reconheceno a artilharia, e armazéns de munições e mantimentos, e o trem da artilharia, e onde moravam os almoxarifes que têm as chaves dos armazéns.

O castelo tem só uma porta, que sai para a cidade, e a companhia que entra de guarda todas as noites tem cuidado de a fechar às nove da noite, e abrir pela manhã, o que tudo vimos mui devagar, por estar um dos sargentos esta noite de guarda com 2 homens, que é o mais que entram de guarda pela muita falta que têm de gente. Visto tudo à nossa vontade, nos viémos à meia lua, fingindo tornávamos fora ver se os pastores dormiam para lhes furtar o carneiro, e nos viémos. (Relação…, pgs. 180-181)

Segundo Mateus Rodrigues (exagerado, por vezes, no que tocava a referir recompensas materiais), D. João da Costa terá oferecido aos sargentos que preparavam a traição 3.500 réis em moedas de dobrão, só para que esta missão de espionagem se efectuasse, mas os sargentos recusaram, dizendo que, se Deus quisesse, haveria tempo para que o governador das armas os pudesse recompensar. Esta recusa em aceitar o dinheiro fez acreditar D. João da Costa ainda mais na boa fé dos dois sargentos, e afastar qualquer receio de traição por parte deles em relação aos portugueses. Quanto ao resto, a narrativa de Mateus Rodrigues não é completamente coincidente com o relatório em alguns pormenores: diz o soldado que Leite de Oliveira se fez acompanhar por 30 cavalos (e não por três), os quais ficaram afastados da muralha “um bom tiro de mosquete” (correspondente a pouco mais de 100 metros, aproximadamente) – o que é um absurdo, pois seriam facilmente detectáveis. Depois, refere que o tenente-general foi comer e beber com os sargentos a um mesão, falando com eles em bom espanhol, repetindo assim a façanha de João Dias de Matos – outra fantasia do autor, pois para além do despropósito da acção, dada a hora tardia da noite, seria um risco desnecessário e de todo improvável de ser corrido pelo tenente-general. No entanto, o que Mateus Rodrigues descreve sobre o resto do episódio está de acordo com o relatório. (MMR, pgs. 254-257)

Os sargentos continuavam a visitar D. João da Costa em Elvas, de cada vez que vinham a Portugal sob pretexto de fazerem pilhagens, e recebiam algum dinheiro de recompensa do mestre de campo general, pois de facto não levavam nada pilhado.

No próximo artigo serão descritos os preparativos para a operação de conquista de Badajoz, e no seguinte (e último), o resultado final de todos estes planos.

Imagem: “O descanso dos cavaleiros”, quadro de Philips Wouwerman, Koninklijk Museum voor Schone Kusten, Antuérpia.