Badajoz, 1652 – a intentona frustrada (5ª parte)

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Os preparativos

D. João da Costa estava impaciente para iniciar a operação que iria conduzir – assim pensava ele – à tomada da importante praça da Extremadura. João Leite de Oliveira refere que, como o Guadiana ia cheio e impossível de passar a vau, o mestre de campo general

(…) mandou com muita pressa obrar em Juromenha uns batelões para passar a gente com brevidade, dos quais o inimigo teve notícia, e começou a andar com cuidado, tomando línguas todos os dias [“tomar língua” significava capturar paisanos ou soldados do inimigo, a fim de obter informações]; e também entre nós se rompeu [ou seja, surgiram os rumores], pela novidade das barcas, que havíamos de fazer alguma jornada para aquela parte de Olivença (…). (Relação…, pg. 181)

Difícil manter o sigilo, de um e de outro lado da fronteira. D. João da Costa considerou então que aquele era o melhor momento para se ausentar para Lisboa, onde iria contrair matrimónio, aproveitando também para dar conta ao Rei do andamento do negócio de Badajoz. A viagem e o motivo dela (o casamento) teriam o efeito de despistar as intenções de que algo de grande se estava a preparar. Mantiveram-se, no entanto, os contactos entre o tenente-general e os sargentos, pois de Lisboa continuava D. João da Costa, por meio de correios, a ser informado e a dar ordens. Ficou combinado que o novo encontro entre o mestre de campo general, entretanto elevado a Conde de Soure, e os sargentos teria lugar na noite de 12 para 13 de Março, em Elvas.

Foi aí que ficou tudo decidido. Com o pretexto de que seria necessário infiltrar novamente João Leite de Oliveira no castelo, com a desculpa de que o tenente-general não tinha conseguido ver, da primeira vez, todas as particularidades do local, D. João da Costa acordou com os sargentos que o militar português repetiria aquele feito na noite de 21 de Março, uma quinta-feira. Por precaução, foi dito aos sargentos que o tenente-general iria acompanhado apenas por uma outra pessoa. Mesmo nesta fase adiantada, temia-se que os sargentos fizessem jogo duplo, e não se lhes revelou que a operação estava em marcha.

Movem-se as peças

Portanto, a intenção dos portugueses era outra. Relata João Leite de Oliveira que a 19 de Março

(…) estava o mestre de campo [general] com as portas de Elvas fechadas, gente amunicionada [ou seja, milicianos de auxiliares] e tudo pronto para quarta-feira, 20 do [mês de Março] (…) se meterem em Olivença com tudo, e eu saí no mesmo dia desta vila de Estremoz com 400 cavalgaduras para entrar no mesmo dia em Olivença, de onde havíamos de sair à quinta-feira, dia de São Bento, e eu marchava diante com 500 soldados escolhidos de todo o exército, com os capitães de maior opinião e dois sargentos-mores, engenheiros, um tenente-general da artilharia, condestáveis [posto equiparável a furriel, na artilharia] e artilheiros com cartuchos feitos, granadas, lanças de fogo, e todos os mais apetrechos.

E atrás de mim marcharia o senhor mestre de campo general com tudo o mais, e perto do moinho [o habitual ponto de encontro, a caminho de Badajoz] onde havia de esperar o sargento, me havia eu de adiantar com cinco ou seis homens, e achando-o (…) lhe havia de declarar tudo o que levava, fingindo que não queríamos mais dilatar o negócio, e assim que fossemos à meia-lua, como da outra vez, e fingíssemos o mesmo, ou outra coisa que lhe parecesse por amor [ou seja, por causa] das sentinelas, no que ele veria sem dúvida, e entrando eu com três ou quatro homens na meia-lua com adagas nas mãos, pressionaríamos as duas sentinelas, que no castelo não havia outras para aquela parte; o que feito, me não era dificultoso meter os 500 homens, e metidos eles me podia sustentar dentro vinte dias, por ser um castelo fechado por si com muito boas muralhas, e dentro muito biscoito e munições, e fora dele não tinha o inimigo nenhuma, e a muralha para a parte da cidade era capaz de se pôr nela bateria contra a cidade, por o castelo lhe ficar superior. (Relação…, pg. 182)

Era este o plano. Todavia, não se concretizou, pois no dia 19, já com tudo preparado para a marcha, vieram dois rapazes castelhanos, que se tomaram por línguas pela parte de Campo Maior, os quais disseram que naquela manhã se havia mandado chamar de Badajoz a cavalaria com pressa, e já quando saíram tinham entrado duas ou três companhias (Relação…, pg. 182). D. João da Costa decidiu suspender tudo, não sendo conveniente fazer a marcha, pois mesmo que o inimigo não soubesse do intento dos portugueses (como não sabia), bastaria estar alerta e ter batedores espalhados pelos campos, para que toda a esperança de sucesso da operação se perdesse. Soube-se posteriormente que todos aqueles cuidados da parte de Badajoz tinham ficado a dever-se à informação (provavelmente originada em línguas tomadas por cavaleiros espanhóis, ou por intermédio de espiões) que os portugueses estavam a concentrar tropas; mas quando os espanhóis tomaram mais línguas para a parte de Olivença, sossegaram com as notícias de que, afinal, não havia novidade e tudo estava calmo. Assim, despediram da cidade as companhias de cavalaria que apressadamente tinham mandado chamar.

João Leite de Oliveira voltou a contactar o sargento, para lhe dizer o motivo pelo qual tinha faltado ao encontro na noite combinada. E ficou ajustado que o novo encontro (e a nova ida ao castelo) teria lugar na noite de Domingo de Pascoela. O tenente-general deu mais alguns dobrões ao sargento e recomendou-lhe que não fosse mais gastador do que o costume, para não levantar suspeitas.

Entre os portugueses, era tempo de repetir os preparativos para a operação. Mas a deusa da Fortuna tinha outras intenções a respeito de Badajoz…

(continua)

Imagem: O rio Guadiana junto a Juromenha. Foi aqui que se fizeram os batelões para passar as tropas para o lado de Espanha, conforme se refere no texto. Foto de Jorge P. de Freitas.

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