O combate do forte de Aldea del Obispo, 2 de Janeiro de 1664

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Motivos de natureza profissional obstaram a que desse uma continuidade célere ao episódio aflorado no anterior artigo. Retomemos a trama agora, enquadrando o relatório na operação militar onde se registaram as baixas reportadas.

O Duque de Osuna, Gaspar Téllez-Girón y Sandoval, ordenara a construção de um forte perto de Aldea del Obispo – fortificação que actualmente é referida como Forte de la Concepción, mas que não é nomeada nas fontes consultadas. O local poderia servir de base de operações contra as povoações da raia beirã – Vale da Mula era a mais exposta pela sua proximidade, conforme se pode ver na imagem. Para obstar à conclusão do forte, saiu de Almeida o governador interino daquele partido, Afonso Furtado de Mendonça, à frente de uma força de 6.000 infantes e 1.000 cavalos (Pedro Jacques de Magalhães, o governador em título, encontrava-se doente). O Duque de Osuna estava aquartelado junto de Aldea del Obispo e tinha sob o seu comando um exército de 7.000 infantes e mais de 2.000 cavalos. A infantaria portuguesa, na sua maior parte, era composta por milícias de auxiliares e da ordenança de ambos os partidos da Beira, enquanto a cavalaria contava com efectivos da Beira e com forças de socorro do Alentejo e de Trás-os-Montes (o contingente que vem referido no relatório).

Segundo o Conde de Ericeira, Afonso Furtado (…) tomou quartel pouco distante do inimigo, que não lhe pleitearam ganhar o posto que pretendiam. Estébanez Calderón, autor do século XIX, refere que Osuna había fortificado sus reales [ou seja, o seu campo] en un lugar ventajoso, teniendo a sus espaldas el baluarte, y enfrente de él, a distancia de un tiro de artilleria, se miraba asentado el campo de los enemigos. Afonso Furtado de Mendonça fez escavar uma trincheira, mas os seus intentos de atacar e destruir o forte desvaneceram-se ao constatar que este tinha já quatro baluartes levantados, e que era complementado por fosso, estrada coberta e estacada. Com a fraca qualidade da infantaria que possuía, não tinha a mínima hipótese de sucesso. Decidiu, por isso, mudar de estratégia e passou a enviar tropas de cavalaria a talar os campos do inimigo. Mas nem este propósito foi bem sucedido, pelo que determinou marchar sobre Ciudad Rodrigo e queimar os seus arrabaldes, de forma a atrair o Duque de Osuna para longe do forte e pelejar com ele em campanha rasa.

Para concretizar o objectivo, teria de pedir mais mantimentos a Almeida, a fim de sustentar o exército vários dias em terra inimiga. Enviou então um comboio (conjunto de carros, carroças e animais de carga) àquela praça, mas descurou a sua protecção. Avisado do facto, o Duque de Osuna resolveu interceptar e desbaratar o comboio. Compôs toda a sua cavalaria e fez marchar, na retaguarda desta força montada, um terço de infantaria – um reforço que havia enviado D. Juan de Áustria. D. Martinho da Ribeira, que comandava a segunda linha de cavalaria do lado direito do dispositivo português, puxou pela gente de cavalos, a fim de socorrer o comboio, e desfilada, a fez passar o ribeiro de Vale da Mula; e depois de subir por serras e tapadas que embaraçavam o terreno, achou aos inimigos formados, que o vieram buscar. O Duque de Osuna, con estas tropas, compartidas en tres escuadrones  (…) acometió al punto al enemigo. Como los nuestros eran superiores en número, a la primera y repentina carga desbarataron a los portugueses; pero éstos, viendo que no podían sostener con sus contrarios un combate igual, no trataron de rehacerse, sino, derramados como estaban, se defendían escaramuzando. Notando o perigo em que se encontrava a sua cavalaria, Afonso Furtado de Mendonça enviou um reforço de infantaria e mais cavalaria. Domingos da Ponte, o Galego, e Gomes Freire de Andrade, tenentes-generais, saíram a toda a pressa para se acharem na ocasião; e formando seis batalhões, dos que começavam a retirar-se, fizeram rosto aos castelhanos com ardor mais precipitado do que pedia a sua vantagem. Eram dezassete os batalhões, de que Domingos da Ponte fez duas linhas. Constava a vanguarda de nove, e de oito a reserva, e sem interpor a menor dilação, atacou furiosamente a vanguarda dos castelhanos com a nossa, que rompeu com grande facilidade. Julgaram-se os portugueses definitivamente vitoriosos, e seguros de su victoria, habían deshecho su formación, para entregarse al despojo y alcance de los fugitivos, sin tener en cuenta que quedaba en pie un escuadrón de castellanos, que era más fuerte todavía, por componerse de gente veterana. Esta reserva do inimigo, num vigoroso contra-ataque, desbaratou a vanguarda portuguesa. Pretendeu Domingos da Ponte reorganizá-la, passando pelos claros da segunda linha de cavalaria, só que… esta já não estava no seu posto, tendo fugido antes sequer de disparar um tiro ou trocar espadeiradas. Vendo esta situação, Afonso Furtado de Mendonça fez sair do quartel dois terços de infantaria e várias mangas soltas de arcabuzeiros e mosqueteiros, e foi atrás desta formação que a cavalaria finalmente se reorganizou e repeliu os perseguidores. O Duque de Osuna, por seu lado, ao verificar que Furtado de Mendonça desguarnecera o seu campo, tentou tomá-lo, mas ainda restavam para sua defesa três terços da Ordenança e duas companhias de cavalos, sob o comando do tenente-general da artilharia Diogo Gomes de Figueiredo, o qual resistiu bravamente. Quando o Duque de Osuna viu aproximar-se Afonso Furtado de Mendonça com as suas forças, optou por se recolher ao seu forte. Também Furtado de Mendonça não demoraria muito tempo a retirar, desistindo da sua pretensão. Em conselho com os seus oficiais, chegara à conclusão que seria impossível conquistar ou destruir o forte, optando então por se recolher de novo a Almeida.

Foi deste modo que se registaram as baixas entre as seis companhias enviadas de Trás-os-Montes e comandado pelo general de artilharia ad honorem (e tenente-general da cavalaria) Domingos da Ponte, o Galego. Uma operação típica da guerra de fronteira, bem violenta na refrega mas sem resultados estratégicos de importância. Ainda assim, em termos tácticos o Duque de Osuna pôde tirar partido da manutenção do forte, pois dele fez base de operações através da qual conseguiu destruir a ponte de Ribacoa, que facilitava a comunicação com Almeida.

Fontes:

ERICEIRA, Conde de, História de Portugal Restaurado, edição on-line (facsimile da edição de 1759), Parte II, Livro IX, pgs. 247-250 (a verde nas citações).

CAMPOS, Jorge (estudio preliminar y edición), Biblioteca de Autores Españoles, Obras Completas de Don Serafín Estébanez Calderón, Madrid, Ediciones Atlas, 1955, pgs. 114-115 (a azul nas citações).

Imagem: A zona de combate na actualidade. Fotografia aérea extraída do programa Google Earth. É visível, ao centro, o forte de la Concepción, que esteve na origem do combate. Para nascente fica Aldea del Obispo, e para poente, Vale da Mula. A linha amarela marca a fronteira.

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