Material de guerra existente na praça de Estremoz em Outubro de 1658

027_Estremoz

Em Outubro de 1658, o exército espanhol comandado por D. Luís de Haro punha cerco à cidade de Elvas. Era a resposta ao fracassado cerco de Badajoz, meses antes, que deixara exangue o exército da província do Alentejo e fizera cair em desgraça Joane Mendes de Vasconcelos, o responsável pela operação. Por todo o Alentejo contavam-se as armas. Literalmente. Ao Conselho de Guerra chegavam listas com o número de homens e material de guerra disponíveis. Uma dessas listas foi remetida pelo almoxarife de Estremoz, Gabriel Castro Barbosa. Na falta de Elvas, submetida a impiedoso cerco, Estremoz passava a ser a principal praça de armas do Alentejo. O material existente em armazém era o seguinte:

Barris de pólvora – 1000

Feixes de morrão [para mosquetes, arcabuzes e peças de artilharia] – 210

Cunhetes de balas para mosquetes e arcabuzes – 1050

Armas de fogo – 200

Piques – 300

Correias de bândolas – 200

Frascos – 200

Bacamartes – 60

Peitos de armas e espaldares, “são antigos e mal consertados” – 120

Granadas [de mão] – 1900

Balas de 16 libras [para colubrinas] – 600

Balas de 24 libras [para meios canhões] – 1000

Balas de 7 libras [para bastardas] – 900

Enxadas – 1024

Picaretas – 790

Pás de ferro – 600

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1658, maço 18, “Numero das monisois que ora estão nesta praça”, relação enviada por Gabriel Castro Barbosa.

Imagem: Praça de Estremoz, publicada em La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII.

Gaspar Pinto Pestana

Parrocel

Gaspar Pinto Pestana foi comissário geral da cavalaria do Alentejo durante três anos, entre 1641 e 1644. Nesse período, dada a pouca cavalaria existente e a limitada experiência militar do seu superior hierárquico, o general da cavalaria Francisco de Melo, Monteiro-Mor do Reino, era frequente recair em Gaspar Pinto a tarefa de formar e organizar em batalha a força de cavalaria. Gaspar Pinto Pestana teve também o título honorífico de coronel, para que pudesse ser equiparado aos comandantes dos regimentos de cavalaria estrangeiros (os franceses e o holandês) que se encontravam ao serviço da Coroa portuguesa nos primeiros anos da Guerra da Restauração. A sua carta patente, passada em 13 de Novembro de 1641, atesta a experiência adquirida durante a Guerra dos 30 Anos (texto vertido para português corrente):

D. João, etc, faço saber aos que esta minha carta patente virem, que por convir a meu serviço nomear pessoa de confiança, qualidade e experiência das coisas de guerra, para servir o cargo de comissário geral da cavalaria do exército da província de Alentejo, que está vago por morte de Francisco Rebelo de Almada, e concorrendo todas estas boas partes na do capitão de cavalos Gaspar Pinto, a quem tinha ordenado fosse no mesmo ofício servir as comarcas de Trás os Montes, por se haver ocupado há vinte e dois anos em guerra viva, assim em Itália como Alemanha, Palatinado, Boémia, Hungria e Saxónia, em que ocupou os postos de ajudante, tenente e capitão de cavalos couraças (…). (ANTT, Conselho de Guerra, Secretaria de Guerra, Registos, Lvº 2º (1640-1642), fls. 110-110 v)

As variadas fontes que referem as acções em que participou Gaspar Pinto Pestana deixam perceber que era um comandante competente, mas sem grande carisma. Após a batalha de Montijo, em 26 de Maio de 1644, foi alvo de um processo e perdeu o posto – tudo por causa do péssimo comportamento da cavalaria portuguesa nessa batalha. Morreu poucos anos depois. A sua viúva, D. Brites de Matos, casou com um outro oficial de cavalaria, o ajudante francês Carlos (Charles) de La Grizille, de quem teve um filho. Porém, a desditosa senhora enviuvou pela segunda vez em 1658, quando La Grizille faleceu em consequência de graves ferimentos recebidos durante o cerco de Badajoz.

Imagem: Joseph Parrocel, “Combate junto a um moinho”, segunda metade do séc. XVII.

O cargo de capitão-mor

002Juromenha

Existe alguma confusão a respeito do cargo de capitão-mor, não sendo raro encontrar em obras publicadas, de divulgação ou mesmo trabalhos académicos de valor, a referência à designação de capitão-mor como posto militar no contexto da Guerra da Restauração. Tê-lo-á sido, mas antes de 1640.

O capitão-mor era o oficial responsável pelo recrutamento, treino e comando de tropas da ordenança numa dada localidade, fosse ela cidade, vila ou aldeia. Quando em 1570 D. Sebastião mandou que houvesse, em cada terra de Portugal, um capitão-mor, a função desempenhada por estes correspondia à de uma patente militar – ou seja, um posto. Segundo o Regimento dos capitães-mores, o capitão-mor seria responsável por uma companhia da ordenança. Em cada comarca haveria também um sargento-mor, a quem caberia o comando superior do conjunto das companhias dessa comarca, organizadas em terço da ordenança. A companhia era a unidade básica administrativa, o terço era uma unidade táctica. O grosso do exército que D. Sebastião objectivava constituir seria composto por elementos recrutados em cada terra pelo respectivo capitão-mor.

Com o passar dos tempos e o surgimento do exército pago, já no período da Guerra da Restauração, o capitão-mor transitou de posto militar para cargo que podia ser desempenhado por militar com qualquer patente, fosse ele do exército pago ou da milícia de ordenança. Esta milícia passou então a ser uma reserva de segunda linha, relegada até para terceira linha, quando em 1646 surgiram os milicianos auxiliares a pé, e em 1650 os auxiliares a cavalo. Não obstante, a capitania-mor manteve o prestígio de tempos anteriores, pois além das já referidas tarefas de recrutamento, treino e comando de tropas da ordenança, implicava também as funções de governo militar da localidade (caso não existisse um governador especificamente designado por entidades superiores). Em algumas terras esse governo podia caber a um sargento-mor (da ordenança), embora as funções primordiais deste fossem eminentemente militares.

Compreenderemos melhor o caso das capitanias-mores se virmos a listagem dos indivíduos que em 1646 desempenhavam tarefas de governo militar nas várias localidades no Alentejo. Encontramos nessa lista capitães-mores, sargentos-mores e governadores de praça propriamente ditos. O soldo que auferiam dizia respeito à patente militar que tinham (ou que passaram a ter) na altura da nomeação para o cargo. Vejamos (para aceder à lista, basta clicar no link abaixo):

Alentejo CM 1646

Como se pode verificar, o cargo de capitão-mor podia ser desempenhado por militares de variadas patentes. Num outro documento, respeitante à província da Beira e datado de 1663, é possível encontrar militares propostos (os quais seriam todos nomeados) para capitanias-mores cuja proveniência era igualmente diversa:

Para Castelo Rodrigo, o tenente de mestre de campo general António Ferreira Ferrão, que recebeu a patente e o soldo de mestre de campo.

Para Castelo Bom, o capitão de infantaria (pago) António de Figueiredo, um veterano do exército da monarquia dual na Flandres.

Para Segura, um Diogo Freire, que era capitão-mor de Idanha, mas que se dava muito mal com a população dessa localidade.

Fontes: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, maço 6, nº 303; e maço 23, consulta de 18 de Janeiro de 1663.

Imagem: Fortaleza de Juromenha. Foto de J. P. Freitas.

Postos do exército português (18) – o general da cavalaria

Wouwerman

O posto de general da cavalaria correspondia a um dos quatro principais postos de qualquer exército provincial. A designação original, capitão-general da cavalaria, quase nunca era referida, acabando por impor-se definitivamente, com o passar do tempo, a designação abreviada de general da cavalaria.

Nem sempre o comandante supremo da cavalaria de uma província era o general. Quando os efectivos eram pouco numerosos, como sucedeu nos primeiros anos da guerra nas províncias do norte de Portugal, o comando podia recair num tenente-general, num comissário geral ou mesmo num capitão. Houve ocasiões em que esse cargo específico de comando, exercido com patente inferior a general, recebeu a designação de governador da cavalaria.

Sendo um posto de tanta importância, estranhou Joane Mendes de Vasconcelos que a proposta de Ordenanças Militares de 1643 não previsse, no capítulo respeitante ao general da cavalaria, que a este posto pudessem ascender imediata e preferencialmente os tenentes-generais da cavalaria. Uma lacuna de monta – passe a brincadeira semântica – a que o experiente Joane Mendes fez pronta referência e correcção no seu comentário:

Não se faz memória neste título [capítulo] dos que houveram sido tenentes-generais da cavalaria, para serem consultados em generais dela, sendo certo que estes devem nas consultas preferir a todos os outros [ou seja, ter precedência sobre os outros postos – o capítulo dava os capitães de cavalos e mestres de campo como postos a partir dos quais se poderia ascender a general, omitindo inclusive o posto de comissário geral], assim pelo conhecimento que devem ter mais próprio daquele exercício, como porque na cavalaria este é o posto imediato ao general dela, e também os generais da artilharia, em quem de ordinário [ou seja, habitualmente] concorrem grandes serviços.

Bibliografia: AIRES, Cristóvão, Historia Organica e Politica do Exercito Português – Provas, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908, pg. 53.

Imagem: Philips Wouwerman, “O assalto a Coevorden”. Note-se a cavalaria dando cobertura às tropas de infantaria que se lançam, com escadas e outros apetrechos, ao assalto das fortificações.

Os “cavalinhos de pau”

chevaux_2

Os cavalinhos de pau – designação lusitana seiscentista para os obstáculos portáteis vulgarmente conhecidos pelo termo francês “chevaux de frise” – foram muito utilizados em Portugal durante todo o período da Guerra da Restauração. Destinavam-se a proteger a frente dos atiradores de infantaria (arcabuzeiros e mosqueteiros), os quais não dispunham de meios eficazes para se defenderem da cavalaria inimiga no combate corpo-a-corpo. Como uma parte dos atiradores era destacada para formar as mangas do esquadrão, ou para se dispor entre os batalhões de cavalaria, ficavam sem a cobertura próxima dos piqueiros. Daí a utilização dos obstáculos portáteis.

Existem várias referências ao uso dos cavalinhos de pau. O Conde de Ericeira atribui a Joane Mendes de Vasconcelos a responsabilidade da introdução do seu fabrico no Alentejo, província onde foram bastante utilizados devido à natureza do terreno. O soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz) deixou, nas suas memórias, uma descrição detalhada deste equipamento e do seu uso:

(…) [L]evavam os infantes os cavalinhos de pau às costas, cada dois soldados [levavam] um, e em cima deles levavam seus mosquetes, eram de comprimento de dez palmos [cerca de dois metros], com uma cadeia de ferro cada um em uma ponta, com um gancho, e no outro uma argola metida no mesmo pau, e assim como os queriam pôr como trincheira da infantaria, de noite ficavam todos pegados uns nos outros, de modo que não se podiam despegar; e estando postos na forma que digo, ficavam com uns bicos de pau para o ar, na mesma altura de um cavalo, pelos peitos, e em cada ponta dos paus tinha um bico de ferro como o de uma lança, mas maior e mais agudo, e não tinha cada pau mais de os mesmos dez palmos, mas cada cavalinho tinha cinco pontas destas, e por todas as partes que o pusessem ficava da mesma maneira; e assim a infantaria estava de noite tão segura com isto que bem podiam vir 20 mil cavalos, não haviam de romper a infantaria. (MMR, pgs. 106-107)

A descrição de Mateus Rodrigues reporta-se à campanha do forte de Telena (Setembro de 1646, erroneamente datada pelo soldado, nas suas memórias, em 1645). Ainda nessa campanha, o memorialista descreve um combate em que três terços de infantaria, protegidos por cavalinhos de pau, conseguiram suster os ataques de caballos corazas espanhóis junto às margens do Guadiana.

Os cavalinhos de pau eram, portanto, segmentos de madeira com cerca de dois metros de comprimento, os quais  comportavam cinco espigões de madeira revestidos de pontas de ferro bem aguçadas, e que se podiam atrelar uns aos outros através de um sistema de corrente com argola numa das extremidades, e gancho na outra. Não existe qualquer gravura coeva dos mesmos, mas em breve colocarei aqui um esboço de reconstituição de um desses segmentos.

Apesar de poderem ser transportados por dois soldados, os cavalinhos de pau não eram de fácil deslocação (note-se que os militares tinham ainda de arcar com o peso dos respectivos mosquetes ou arcabuzes). Por isso, havendo veículos hipomóveis disponíveis, os cavalinhos de pau eram neles transportados, como também descreve Mateus Rodrigues a propósito da campanha de Mourão em 1657, durante a qual 500 carretas puxadas por bois foram destinadas ao transporte daquelas defesas da infantaria.

Imagem: Exemplo de chevaux de frise (reconstituição moderna), maior, mais pesado e com mais espigões que os segmentos de cavalinhos de pau de construção portuguesa, mas destinado ao mesmo fim. Foto retirada deste site: http://www.geocities.com/lakeforts/Fort_Ontario.html

Nota à margem: por motivos profissionais, e também porque estou neste momento a avançar com a redacção de mais uma obra, não me tem sido possível actualizar com a frequência desejada a página da Guerra da Restauração. Quero, no entanto, aproveitar para agradecer de novo a Juan Antonio Caro del Corral e Julián García Blanco a preciosíssima ajuda que me têm dado com o envio de publicações e documentação de arquivos de Espanha, que muito úteis me têm sido para o prosseguimento do meu trabalho. O livro que a pouco e pouco vai tomando forma e que (assim espero) chegará aos escaparates no próximo ano será, também, fruto da colaboração daqueles estimados amigos e  investigadores. Bem hajam!

As mulheres e a guerra

TERBORCH

Um dos títulos mais recentes na área da História Militar da Era Moderna é Women, Armies, and Warfare in Early Modern Europe, de John A. Lynn II (New York, Cambridge University Press, 2008 – este autor assinava anteriormente apenas como John A. Lynn). Não é a melhor das obras de Lynn: uma estrutura pouco clara, um texto assente sobretudo em fontes secundárias, uma quase ausência de fontes primárias. No entanto, não deixa de ter algum interesse, pois entra num campo ainda pouco estudado: a relação das mulheres com o meio militar, numa época em que os interditos e a representação de valores eram, em grande parte, desfavoráveis ao sexo feminino, mas que se esbatiam – sem se apagarem totalmente – no seio da comunidade castrense. A mulher como companheira, legítima ou ilegítima, do militar, ganhando a vida com o comércio, incluindo o do próprio corpo, participando, por vezes activamente, nos perigos dos combates ou, no mínimo, nas actividades rotineiras dos exércitos. Em qualquer dos casos, sempre sujeita a cair vítima da violência de campanha, tal como a mulher que não se integrava na comunidade militar, mas que se deparava com a rudeza dos combatentes quando irrompiam pelas suas casas e propriedades para se alojarem ou, pior, com o intuito de pilhar e violar.

No período da Guerra da Restauração não são muito numerosas as referências à presença feminina enquanto acompanhante regular dos exércitos no terreno. A sazonalidade das operações de maior envergadura e, por outro lado, a especificidade das pequenas operações de saque e pilhagem, não davam azo a que a mulher se encontrasse com frequência ao lado dos militares no terreno, ao contrário do que sucedia, por exemplo, com os exércitos da Guerra dos Trinta Anos. Todavia, no que concerne a situações em que a mulher se podia encontrar no teatro de operações, sob os mais variados aspectos, as fontes não são tão escassas. Respigo aqui algumas passagens de dois casos diferentes: a mulher que participa activamente na guerra e a mulher que é vítima acidental das operações militares. Incentivos ao aprofundamento da pesquisa e análise sobre o tema, vertidas, como é habitual neste espaço, para português actual.

1. A mulher combatente (não enquadrada no exército)

Durante o ataque espanhol a Ouguela, em 1644, saiu a esta defensa uma mulher com um chuço, que pelejou nas trincheiras como qualquer soldado animoso; e se afirma que dos castelhanos mortos teve ela sua parte; foi ferida, e querendo-a um soldado retirar, o não consentiu, antes com maior ânimo se embraveceu e continuou a peleja. (ARAÚJO, João Salgado de, Successos Militares das Armas Portuguesas em suas fronteiras depois da Real acclamação contra Castella. Com a geografia das Prouincias, & nobreza dellas, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1644, pg. 225 v)

Há nesta vila [de Olivença] uma moça, criada no campo, chamada Maria; serve a um seu parente lavrador; esta moça, tocando a rebate, sai no campo armada de peito e espaldar e morrião, com clavina [carabina] nas mãos, em um cavalo de seu amo; vai a ele, e sendo na vila acode à trincheira com valor e bizarria.

É esta moça de tantas forças, que um capitão de pouco mais de vinte anos de idade me afirmou, que pegando-lhe ela de uma mão, para se livrar foi necessário querer ela largar-lha. (Aires Varela, Sucessos que ouve nas fronteiras de Elvas, Olivença, Campo Maior e Ouguela, o primeiro anno da Recuperação de Portugal, que começou em 1º de Dezembro de 1640 e fez fim em ultimo de Novembro de 1641, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1901, pg. 33)

2. A mulher enquanto vítima das operações militares

Após a tomada da vila de Oliva pelas forças portuguesas, em 10 de Janeiro de 1654, e de acordo com as capitulações acordadas entre sitiantes e sitiados, o soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz) assistiu ao desfilar dos civis que abandonavam a vila, passando no meio das fileiras de soldados portugueses que ladeavam a estrada. Comoveu o soldado a situação em que muitas mulheres se encontravam: não poderei aqui encarecer as grandes lástimas que neste dia aqui vi, porque além destas mulheres se verem fora de seu natural [ou seja, da sua terra natal] para sempre, com suas fazendas perdidas, fazia tão mau tempo que não se podia bulir com a muita água que chovia, que quando elas começaram assim era logo pela manhã, em 10 de Janeiro, ao Domingo, de 1654, e até noite nunca jamais deixou de chover, que suposto que Jerez de los Caballeros estava dali duas léguas, [que era] para onde esta gente se havia de retirar, muita dela havia de ficar ainda fora (…). Estas mulheres (…) eram entre todas 704, fora meninos, que passavam de 1.000 crianças e as demais delas mui pequenas. E havia mulher que levava duas nos braços e três em o rabo (…) [ou seja, envoltas num xaile às costas], uns gemendo e as mais chorando. Que como iam carregadas de fato à cabeça e levavam muitas delas muitos mantéus e saias vestidas, e como chovia muito, enchia[m]-se-lhe os fatos de água e não podiam bulir, e a tudo isto nós ali parados (…) esperando a água a pé quedo, (…) que ainda que quiséssemos fazer algum bem áquelas mulheres, não podíamos. (…) E trazia o bom velho [o governador de Oliva] consigo diante as suas duas filhas donzelas, que eram bizarras [quer dizer, bonitas]. Mas vinham elas tão enfadadas, que vinham muito cobertas, e não davam lugar a que víssemos bem suas partes, que não era o tempo para elas se deixarem ver. (Manuscrito de Matheus Roiz, pgs. 385-386).

Imagem: “Homem oferecendo moedas a uma mulher”, 1660-1663, por Gerard Terborch, Museu do Louvre. Um militar (de cavalaria), uma jovem mulher, e a expectativa de uma transacção não inocente.