Os “cavalinhos de pau”

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Os cavalinhos de pau – designação lusitana seiscentista para os obstáculos portáteis vulgarmente conhecidos pelo termo francês “chevaux de frise” – foram muito utilizados em Portugal durante todo o período da Guerra da Restauração. Destinavam-se a proteger a frente dos atiradores de infantaria (arcabuzeiros e mosqueteiros), os quais não dispunham de meios eficazes para se defenderem da cavalaria inimiga no combate corpo-a-corpo. Como uma parte dos atiradores era destacada para formar as mangas do esquadrão, ou para se dispor entre os batalhões de cavalaria, ficavam sem a cobertura próxima dos piqueiros. Daí a utilização dos obstáculos portáteis.

Existem várias referências ao uso dos cavalinhos de pau. O Conde de Ericeira atribui a Joane Mendes de Vasconcelos a responsabilidade da introdução do seu fabrico no Alentejo, província onde foram bastante utilizados devido à natureza do terreno. O soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz) deixou, nas suas memórias, uma descrição detalhada deste equipamento e do seu uso:

(…) [L]evavam os infantes os cavalinhos de pau às costas, cada dois soldados [levavam] um, e em cima deles levavam seus mosquetes, eram de comprimento de dez palmos [cerca de dois metros], com uma cadeia de ferro cada um em uma ponta, com um gancho, e no outro uma argola metida no mesmo pau, e assim como os queriam pôr como trincheira da infantaria, de noite ficavam todos pegados uns nos outros, de modo que não se podiam despegar; e estando postos na forma que digo, ficavam com uns bicos de pau para o ar, na mesma altura de um cavalo, pelos peitos, e em cada ponta dos paus tinha um bico de ferro como o de uma lança, mas maior e mais agudo, e não tinha cada pau mais de os mesmos dez palmos, mas cada cavalinho tinha cinco pontas destas, e por todas as partes que o pusessem ficava da mesma maneira; e assim a infantaria estava de noite tão segura com isto que bem podiam vir 20 mil cavalos, não haviam de romper a infantaria. (MMR, pgs. 106-107)

A descrição de Mateus Rodrigues reporta-se à campanha do forte de Telena (Setembro de 1646, erroneamente datada pelo soldado, nas suas memórias, em 1645). Ainda nessa campanha, o memorialista descreve um combate em que três terços de infantaria, protegidos por cavalinhos de pau, conseguiram suster os ataques de caballos corazas espanhóis junto às margens do Guadiana.

Os cavalinhos de pau eram, portanto, segmentos de madeira com cerca de dois metros de comprimento, os quais  comportavam cinco espigões de madeira revestidos de pontas de ferro bem aguçadas, e que se podiam atrelar uns aos outros através de um sistema de corrente com argola numa das extremidades, e gancho na outra. Não existe qualquer gravura coeva dos mesmos, mas em breve colocarei aqui um esboço de reconstituição de um desses segmentos.

Apesar de poderem ser transportados por dois soldados, os cavalinhos de pau não eram de fácil deslocação (note-se que os militares tinham ainda de arcar com o peso dos respectivos mosquetes ou arcabuzes). Por isso, havendo veículos hipomóveis disponíveis, os cavalinhos de pau eram neles transportados, como também descreve Mateus Rodrigues a propósito da campanha de Mourão em 1657, durante a qual 500 carretas puxadas por bois foram destinadas ao transporte daquelas defesas da infantaria.

Imagem: Exemplo de chevaux de frise (reconstituição moderna), maior, mais pesado e com mais espigões que os segmentos de cavalinhos de pau de construção portuguesa, mas destinado ao mesmo fim. Foto retirada deste site: http://www.geocities.com/lakeforts/Fort_Ontario.html

Nota à margem: por motivos profissionais, e também porque estou neste momento a avançar com a redacção de mais uma obra, não me tem sido possível actualizar com a frequência desejada a página da Guerra da Restauração. Quero, no entanto, aproveitar para agradecer de novo a Juan Antonio Caro del Corral e Julián García Blanco a preciosíssima ajuda que me têm dado com o envio de publicações e documentação de arquivos de Espanha, que muito úteis me têm sido para o prosseguimento do meu trabalho. O livro que a pouco e pouco vai tomando forma e que (assim espero) chegará aos escaparates no próximo ano será, também, fruto da colaboração daqueles estimados amigos e  investigadores. Bem hajam!

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One thought on “Os “cavalinhos de pau”

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