Ainda os “cavalinhos de pau”

011_Telena

O estimado amigo e investigador Julián García Blanco, a propósito do artigo sobre os “cavalinhos de pau”, enviou-me cópias de dois documentos impressos em Espanha durante a Guerra da Restauração, nos quais é feita menção àquele engenho que a infantaria portuguesa utilizava para se proteger da cavalaria inimiga. Obstáculos deste tipo eram usados desde a Idade Média e algumas variantes foram utilizadas durante a Guerra dos 30 Anos, como por exemplo o  jocosamente denominado por “Penas Suecas”, ou “Penas de Porco” – uma forquilha para mosquete, na qual estava incorporado um espigão para a defesa do infante atirador contra a cavalaria. No entanto, no contexto da guerra entre os vizinhos ibéricos, pelas referências até agora encontradas, parece ter sido de uso exclusivo dos portugueses, embora os obstáculos do género fossem bem conhecidos pelos militares espanhóis.

Na Verdadera Relación de la famosa Batalla, y vitoria que han tenido las armas Catolicas contra Portugal, viniendo a sitiar la Ciudad de Badajoz, de 1646, há uma passagem em que se demonstra a eficácia dos “cavalinhos de pau”. De acordo com o autor espanhol da Relación:

Nuestra cavalleria apretava fuertemente la contraria, y ella peleava siempre opuesta para salvar su infanteria. (…) Viendo el Marqués [de Molinguen] que el enemigo llegava ya al esguazo, dexando la mitad de la cavalleria de reten con la otra mitad, y con determinada, y no vista resolucion embistio la del enemigo hasta hazerla bolver las espaldas, y huir a su infanteria, que corriera la misma fortuna, si llegando a ella, no la toparan los nuestros guarnecida con un frente de crizos (que aqui llaman cavallos de palo) todos encadenados, y puestos a modo de peynes, de donde no pudo passar nuestra cavalleria, antes le fue fuerza retirarse de las muchas, y menudas cargas de mosqueteria que le dava el enemigo, logrando la ocasion que le dava el estorvo referido (…).

A descrição dos “cavalinhos de pau” corresponde à que o soldado Mateus Rodrigues deixou (com um detalhe mais minucioso) nas suas memórias sobre a campanha do forte de Telena e que aqui foi reproduzida.

Referência que se repete em outro documento, uma carta enviada pelo Marquês de Molinguen a Filipe IV de Espanha sobre a mesma campanha, entre 15 e 21 de Setembro de 1646, na qual, a dado passo, se descreve a disposição do exército português:

En 18 por la mañana amanecio en batalla, y su carruage y demas bagaje puesto en ordenança entre el esguazo del rio Guadiana y el fuerte de Telena, que dista menos de un tiro de cañon, deixandolo cubierto por el costado derecho de los vallados y viñas, que los ay desde el fuerte hasta el mesmo esguazo, y por el izquierdo le guarnecio de una hilera de carros, y otra de puerco espines, que ellos llaman cauallos de palo.

Note-se a designação de “porco-espinhos” aos obstáculos. Na relação, também impressa, do Marquês de Molinguen sobre a composição do exército português, pode ler-se que havia “quinientos cavallos de palo” entre o material de guerra do exército comandado por Matias de Albuquerque, Conde de Alegrete.

Fontes:

Copia de carta del Marques de Molinguen General del Exercito de Badajoz, escrita al Sñor Don Iuan de Santelizes e Guevara, del Consejo de Su Magestad en el Real de Castilla, y Governador de là Audiencia de Sevilla, su fecha en 21 de Setiembre deste año de 1646, en que se le dà quenta de lo sucedido en el Campo de Telena desde 15 del dicho mes, hasta los dichos 21. En que se incluye otra copia de la Relacion que el dicho Marques de Molinguen embió a Su Magestad sobre lo mismo, cuyo tenor es como se sigue, Sevilla, Juan Gomez de Ilas, 1646.

Verdadera Relación de la famosa Batalla, y vitoria que han tenido las armas Catolicas contra Portugal, viniendo a sitiar la Ciudad de Badajoz, Madrid, Carlos Sanchez Bravo, 1646.

Imagem: Planta de Telena, c. 1655, publicada em La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII.

Com um grande obrigado ao amigo Julián García Blanco.

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