Cerco e tomada de Olivença, 1657 (1ª parte – 13 e 14 de Abril de 1657)

Luís XIV com soldados franceses no cerco de Tournai, 21-6-1667, Adam Meulen

Inicio aqui a transcrição de um manuscrito existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), com o título Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657. Este manuscrito anónimo foi transcrito e publicado por Horácio Madureira dos Santos em 1973, em Cartas e outros documentos da época da Guerra da Aclamação, Lisboa, Estado-Maior do Exército, pgs. 185-212. No entanto, dado o interesse do documento e a restrita divulgação do mesmo, creio ser oportuna a sua apresentação aqui. A diferença em relação ao original e à transcrição efectuada por Horácio Madureira dos Santos consistirá na actualização da ortografia utilizada, da pontuação (para facilitar a inteligibilidade do texto), na correcção de alguns erros de transcrição da versão de Horácio Madureira dos Santos e o acrescento de alguns apontamentos (mantendo, porém, os que foram da lavra de Madureira dos Santos, identificados com HMS). Trata-se um documento longo, que irá ocupar uma série de entradas superior à habitual, pelo que será possível que intercale esta série com outros artigos.

Relação de tudo o que [se] passou em Olivença e no campo do cerco e tomada da praça pelos Castelhanos. Abril ano de 1657

A 12 de Abril tocaram arma as atalaias que ficam dando vista à ribeira, quarta-feira [erro; trata-se de quinta-feira, conforme notou HMS] pelas sete horas da manhã, e como não tínhamos particular aviso que o inimigo marchava para Olivença, tivemos que seria rebate ordinário. Montou-se a cavalaria governada pelo tenente-general Achim de Temarachut [Tamericurt], e foram descobrindo para aquela parte [de] Joana Castanha. Tinham parado doze batalhões direito ao caminho que vai de Juromenha para Olivença, a fim de não deixarem passar pelo porto de Guadiana nenhuma coisa de uma praça para a outra. Com este aviso se acolheram à praça todos bem sentidos de ficar a cavalaria dentro, pela falta que faria aquele troço de nove companhias no nosso exército.

Pelas dez horas do dia vimos a vanguarda do exército marchando da coutada da ventana pela de Fiselha para a fralda da serra de Olor e se foram entrando pelos olivais, ocupando o outeiro do Espinhaço de Cabra e Vale de São Francisco o Velho, e ali começaram o seu primeiro quartel que por muitos dias foi o da Corte [ou seja, o do Estado-Maior do Exército].

Sexta-feira 13 do dito mês saíram da guarda as companhias dos tenentes-generais e as de D. Luís da Costa e João do Crato da Fonseca, que por ser mais antigo as governava, e indo ele descobrindo pela parte do Pereirão, deu vista de uma partida do inimigo, que trazia língua [ou seja, um civil português, capturado para da informações] e uns burros; arrojou-se a ela com cinco cavalos e tomou doi do castelhano e a presa.

Pelas dez horas do dia quis o inimigo reconhecer a praça e a viu em redondo, e todos os sítios em que podia aquartelar-se. A artilharia da praça fazia com que eles vissem tudo mais ao largo e com pouca segurança.

Estava o capitão D. Luís da Costa com a sua companhia junto da ponte de Ramapalhas e os batalhões do inimigo iam pela outra parte do ribeiro, e atrás deles dois soldados infantes por verem também, mas logo que foram vistos da nossa tropa mandou o capitão três soldados que pegassem deles, e intentando tomaram um que era vilão [civil, paisano], e não acharam o outro.

Nesta vista que o inimigo deu à praça chegou ao olival de João cabelo e para receber melhor o sítio, travou uma escaramuça com a companhia do tenente-general Dinis de Melo [de Castro], governada pelo seu tenente Manuel Dias Veloso, que se houve com muito valor e resolução. Da muralha e do forte lhe deram, ao inimigo, carga alguns mosqueteiros [dar carga, neste sentido, significa disparar], com que se  afastou e foi continuando em ver a praça e quartéis ou sítio acomodado para eles, e no fim se recolheu para o vale de São Francisco o Velho.

Pelo meio-dia veio marchando a bagagem e artilharia do inimigo e retaguarda do seu exército pelo mesmo caminho, e se recolheu tudo em o mesmo sítio que a vanguarda.

Logo que o inimigo chegou, mandou o governador Manuel de Saldanha guarnecer a estrada coberta tudo ao redor da muralha, a qual, em poucos dias que havia que estava na praça, tendo vindo da Corte, a mandou reformar com estacas de novo, que eu tinha nos meses de antes conduzido, e mandou consertar os parapeitos que em muitas partes estavam arruinados, e com o terço do mestre de campo João Álvares de Barbuda mandou trabalhar ao forte que Gilot [Jean Gilot, engenheiro militar] tinha principiado defronte da porta do Calvário, o qual era uma obra curva que continha três baluartes e dois meios, tudo pequeno, e fechava na estrada coberta com duas linhas, ficando a porta ou rastilho dela em o meio delas.

Estava esta obra muito imperfeita e a meu juízo feito menos de metade dela, conforme ao voto de todos se pudera escusar com um forte pequeno que ali tinha mandado fazer o mestre de campo João Lopes Barbalho, o qual se guarnecia com cinquenta mosqueteiros e bastava para impedir ao inimigo o alojar-se ali e bater daquela parte, e este outro nos ocupava nove companhias de guarnição com um cabo [no sentido de “cabo de guerra”, oficial superior, provavelmente um sargento-mor], e assim ficava a estrada coberta menos sortida de gente, e aquela ocupada com pouca utilidade e grande discómodo.

Abril 14. Teve notícia por algumas pessoas que passaram de Juromenha para Olivença que o inimigo não tinha impedido o caminho, o que foi parte para que a guarnição da atalaia de São João se recolhesse à praça depois de queimar a pólvora que tinha.

De tarde se mandaram aplicar as cavalgaduras que tinham vindo com o último comboio, e sendo noite as mandaram pelo caminho de Juromenha a cargo de um condutor da artilharia que tinha vindo com elas e passaram todas segundo nos informaram. Nesta noite partiu para o nosso exército [o exército de socorro, comandado pelo Conde de São Lourenço], com cartas, o ajudante de cavalaria Manuel da Silva Falcão, e chegou a ele com elas. Também entrou na praça um correio do Conde de São Lourenço.

(continua)

Imagem: Um cerco dez anos posterior ao mencionado na relação que acima se transcreve, e noutra latitude – Luís XIV de França assistindo ao cerco de Tournai em Junho de 1667. Quadro de Adam Meulen.

18 thoughts on “Cerco e tomada de Olivença, 1657 (1ª parte – 13 e 14 de Abril de 1657)

  1. AS MURALHAS DE MATIAS DE ALBUQUERQUE – OLIVENÇA

    Com a Guerra da Restauração em agitado pano de fundo (1640-1668), a sua construção foi lenta e intermitente. Matias de Albuquerque traçou o ambicioso desenho – com nove baluartes e duas portas – continuadas por Nicolau de Langres, João Gillot e o jesuíta João Ciermans (Cosmander). Em linhas gerais, as fortificações oliventinas correspondem ao primeiro dos sistemas formulados por Vauban.
    No séc. XVIII, os engenheiros portugueses introduziram uma série de reformas e melhoramentos, como o desaparecido forte de S. João, um baluarte a cavaleiro das Portas do Calvário, a ornamentação destas portas com mármore e a abertura das chamadas Portas Novas, a construção de revelins e praças de armas, etc. A finais do século, contudo, a situação era de abandono, não conseguindo impedir a rendição incondicional de 1801.
    http://www.olivenca.org/visitaVirtual_13.htm

    http://www.7rm7de.eb.mil.br/institucional/rm.php?opc=4

    Denominação histórica Matias de Albuquerque

    “Matias de Albuquerque” é a denominação histórica do Comando da 7ª Região Militar e 7ª Divisão de Exército Brasileiro. Mas, quem foi Matias de Albuquerque Coelho? Nasceu em Olinda, em 1595, e faleceu em Lisboa, em 1647. Era filho do olindense Jorge de Albuquerque Coelho e neto de Duarte Coelho Pereira, terceiro e primeiro donatários da Capitania de Pernambuco, e bisneto do navegador Gonçalo Pires Coelho, comandante da 1ª expedição exploradora ao Brasil. Adolescente, Matias sentou praça no Exército Português, no “Regimento Geral das Ordenanças” e, muito jovem, recebeu o hábito da Ordem de Cristo. Foi designado para a histórica praça-forte de Ceuta, na África. Próximo a essa cidadela, no litoral norte africano, teve seu batismo de fogo e, por três anos, participou de várias expedições.
    Atuou em Tênger, no Marrocos, em missão de patrulhar o Mediterrâneo. Quando surgiu a notícia de que a Companhia das Índias Ocidentais planejava invadir o Brasil foi, então, designado para planejar e executar a defesa da capitania de Pernambuco, como capitão-mor e lugar-tenente do donatário. Em 1624, foi eleito governador de Pernambuco.
    Durante a invasão, foi o chefe onipresente que a tudo provia, o grande herói da resistência. Combateu os invasores e construiu o Arraial do Bom Jesus, em 1630, que por cinco anos, resistiu e incomodou os invasores e de onde eram lançadas as companhias de emboscadas, que levaram os holandeses a incendiar e a abandonar Olinda, por não poderem sustentá-la.
    A D. Marcos Teixeira foi conferido o mérito de organizar as primeiras companhias de emboscada. Porém, os aperfeiçoamentos feitos por Matias de Albuquerque transformaram-nas na espinha dorsal da defesa contra os invasores batavos.
    O escopo das emboscadas era levar ao inimigo a inquietação e a morte, quebrando aasim sua vontade de lutar ou de atuar fora dos muros da capital. Nascia assim a versão luso-brasileira da Guerra Brasílica, forma genuinamente nacional de combate e primeiro emprego efetivo da atual Estratégia da Lassidão.

    Organizou o 1º corpo de soldados, dos terços dos “henriques”, assim denominados em homenagem ao seu chefe, Henrique Dias e dos terços dos índios de Felipe Camarão. Sua retirada para Alagoas, com aqueles que não quiseram viver sob o domínio holandês, marcou sua última vitória com o justiçamento do traidor Calabar. Seguiu para o Reino onde o esperavam o dissabor e a prisão. No Velho Mundo, Matias foi responsabilizado pela perda de Pernambuco. Processado e preso, não teve, entretanto, sentença final. Com a restauração da monarquia portuguesa, em 1640, foi posto em liberdade, colocando sua espada experiente a serviço de D. João IV. Foi designado para instruir e disciplinar as guarnições de Alentejo, melhorando as fortificações, melhorando as fortificações de Elvas, Olivença e Campo Maior.
    Foi preso injustamentem, uma outra vez, pela suspeita de participar da conspiração em que se envolveram seus parentes, o Marquês de Vila Real e o Duque de Caminha. Provada a sua inocência foi novamente nomeado Governador das Armas de Alentejo e demonstrou toda sua bravura e valor na Batalha de Montijo, quando sua iniciativa e ação de comando o consagraram como um grande general dos tempos modernos. Como reconhecimento pela vitória alcançada, D. João IV proclamou-o Conde de Alegrete.
    Foi herói do Novo e do Velho Mundos, luso-brasileiro dos mais típicos, defensor da integridade territorial da pátria de seu pai e defensor da terra em que nasceu. Seu princípio de vida era a lealdade. Assim dizia a seu rei: “Tem Vossa Majestada a seus pés o mais leal vassalo que pode desejar”.

    • Caro Tarciso Couceiro,

      Muito obrigado pelo seu comentário e interessante apontamento biográfico de Matias de Albuquerque. Proximamente irei dar o destaque devido à sua colaboração, transformando-a numa entrada autónoma.
      Na correspondência de Matias de Albuquerque surgem, por vezes, alguns termos menos usados em Portugal mas correntes no Brasil, que ele bem conhecia. A palavra “sertão”, por exemplo, para se referir aos campos do Alentejo (vulgarmente designados, de uma maneira genérica, por “campanha”, naquela época), é um dos que retenho de memória.

      Com os melhores cumprimentos

      Jorge P Freitas

    • Apenas um esclarecimento a propósito da seguinte afirmação: “Em linhas gerais, as fortificações oliventinas correspondem ao primeiro dos sistemas formulados por Vauban”. Na verdade, não é bem assim. Trata-se de um erro frequente associar qualquer tipo de fortificação abaluartada do séc. XVII à influência de Vauban. No caso de Olivença, era impossível ter existido essa influência. Sébastien Le Prestre, Marquês de Vauban, nasceu em 1633, e só aos 22 anos se tornou engenheiro militar. Mais: só a partir dos finais da década de 60 do séc. XVII a sua influência se torna evidente em França. Ora, tendo as fortificações de Olivença sido traçadas nos anos 40 do mesmo século, não era de todo possível ter havido qualquer influência de Vauban, na altura uma criança. O sistema abaluartado de Olivença, tal como foi desenhado e construído, revela a influência da escola holandesa de fortificação – tal como, aliás, as outras fortificações do período.

  2. FORTE ORANGE – ITAMARACÁ – PERNAMBUCO

    Tenho a satisfação de informar que já se encontra disponível em nossa home Page
    http://www.magmarqueologia.pro.br

    o trabalho recém publicado sob o titulo Arqueologia do Forte Orange II.
    Neste trabalho abordamos o forte holandês que foi descoberto sob o atual forte de origem luso-brasileira. O próximo artigo tratará do material arqueológico encontrado nos dois fortes.
    Para acessar diretamente o artigo pode seguir o link:

    http://www.magmarqueologia.pro.br/publicacoes/2010/Revista%20DaCultura%20-%20Arqueologia%20do%20Forte%20Orange%20II.pdf

    Dependendo da velocidade de conexão pode demorar um pouco a baixar pois o artigo está com 27Mb

    Assista ainda filme sobre o forte
    em

    http://www.magmarqueologia.pro.br/camera.asp

    Atenciosamente
    Marcos Albuquerque – Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco.

  3. IGREJA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO DOS MILITARES, Recife

    O forro do templo, em contrapartida, é o mais ornamentado do Recife. Suas janelas e portas são decoradas com sanefas trabalhadas. O forro do coro, apresentando um painel histórico da Primeira Batalha dos Montes Guararapes, foi executado em 1781. Pintado em tábuas, encontra-se registrado o seguinte texto no painel:

    VICTORIA ALCANÇADA PELOS PORTUGUESES NA PRIMEIRA BATALHA DOS MONTES GUARARAPES EM 19 DE ABRIL DE 1648, CONTRA OS HOLLANDEZES, QUE CONTAVM 10:500 HOMENS, E OS NOSSOS 2:500 COM ÍNDIOS E HENRIQUES, ENTRE AS MAIS BATALHAS HONROSAS QUE TIVERAM EM 7 ANNOS CONTINUOS, LIBERTARAM TODA ESTA CAPITANIA DA TIRANIA DOS BARBAROS HOLLANDEZES, E A OFERECERAM COMO FIEIS VASSALOS AO NOSSO AUGUSTO SOBERANO REI. E PARA ETERNO MONUMENTO NOVAMENTE MANDOU POR EM ESTAMPA ESTA MEMORAVELVICTORIA O ILLMO. EXMO. SR. JOSÉ CEZAR DE MENEZES GOVERNADOR E CAPITÃO GERAL EM PERNAMBUCO, EM 1781.

    veja mais em

    http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=663&Itemid=1

  4. Permintindo um aparte.

    Síntese da história do Amazonas

    Amazonas … Alvares de Castro, Manoel Couceiro, Simão Rodrigues e André
    Fernandes de Arrábida. Tão poucos combatentes não puderam resistir aos
    holandeses, …

    Síntese da história do Amazonas
    Por Antonio José Souto Loureiro
    Publicado por Impr. Oficial do Estado do Amazonas, 1978
    Original da a Universidade da Virgínia -USA
    Digitalizado pela 8 abr. 2008
    299 páginas

  5. A Manoel Couceiro, de huma Companhia de Infan teria
    que houvesse de ficai* de guarnição no Recife. 23 de setembro de 1649

    Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
    Por Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Instituto historico, geografico e ethnographico do Brasil
    Publicado por
    Observações do item: v.67
    Original da Universidade de Michigan
    Digitalizado pela 28 jul. 2006

  6. O Real Forte do Príncipe da Beira, também conhecido como Fortaleza do Príncipe da Beira, localiza-se na margem direita do rio Guaporé, atual Guajará-Mirim, no município de Costa Marques, estado de Rondônia, no Brasil.

    Em posição dominante na fronteira com a Bolívia, esta fortaleza é considerada uma das maiores edificadas pela Engenharia Militar portuguesa no Brasil Colonial, fruto da política pombalina de limites com a coroa espanhola na América do Sul, definida pelos tratados firmados entre as duas coroas entre 1750 e 1777.

    “A soberania e o respeito de Portugal impõem que neste lugar se erga um Forte, e isso é obra e serviço dos homens de El-Rei nosso senhor e, como tal, por mais duro, por mais difícil e por mais trabalhoso que isso dê, (…) é serviço de Portugal. E tem que se cumprir.” (D. Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, Junho de 1776).

    Origem do nome

    “Príncipe do Brasil” era então o título do herdeiro ou herdeira da coroa portuguesa, assim como “Príncipe da Beira” era o título do seu primogênito ou primogênita (i.e., privativo dos netos primogênitos sucessores presuntivos na coroa dos Reis de Portugal).

    veja

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