Cerco e tomada de Olivença, 1657 (2ª parte – de 15 a 19 de Abril de 1657)

Duck

Abril 15. Domingo, por noite, partiu o tenente-general [Achim de Tamericurt] para Elvas levando consigo oito companhias e ficou na praça a do capitão Agostinho Estevão de Castilho, francês [Stéphane Auguste de Castille, capitão francês de cavalaria, cuja desventura em Olivença já foi tratada aqui e aqui], e com ela alguns cavalos de outras companhias, que por todos ficaram oitenta cavalos; destes se fizeram duas tropas, uma das quais governava o dito capitão e a outra o seu tenente Manuel Pacheco. A cavalaria passou por Guadiana pelo porto de Chiso, junto de Telena, nesta passagem se afogaram dois soldados e outros dois se perderam das tropas, e tornaram para a praça.

Trabalhava o inimigo já no quartel de Vale Mimoso, aonde ao depois pôs uma bateria, e dela por uma linha guarnecia outra que era a de São Bartolomeu. Antes que pusesse baterias, quis nesta noite inquietar-nos trabucando, para o que se chegou perto da Cruz de São Pedro, aonde pôs o morteiro e lançou na praça nove bombas, cada uma de peso de 150 libras, as quais caíram dentro da vila, porém nenhuma fez dano.

16. Segunda-feira amanheceu feita uma plataforma a meia ladeira do Espinhaço da Cabra, e dela atirou o inimigo com dois meios canhões às casas da vila, também se viram balas de dez libras de uma peça vindas daquela parte, durou esta bateria desta parte até vinte deste mês.

Pela meia-noite entrou na praça João Mendes Mexia, que estava fora dela no tempo que o inimigo veio, e com ele mandou o governador das armas a Francisco de Sey, francês, comissário geral que era da artilharia e soldado prático. Vieram guiados pelo cabo de esquadra Furtado e o soldado Navarro, ambos da companhia de Dinis de Melo [de Castro].

Neste dia se adiantaram dois rapazes e um soldado infante e foram às hortas de Corna buscar favas e alhos; a estes tomou o inimigo e os levou ao seu quartel da Corte.

18. Quarta-feira largou o inimigo o soldado que tomou e a um dos rapazes. Por estes mandou lançar na praça alguns escritos, todos do mesmo teor. O governador os recolheu todos e só um pude eu haver, que dizia o seguinte:

A compaixão grande que se tem de que os que são vassalos de Sua Majestade [Filipe IV de Espanha, III de Portugal], ainda que inobedientes, padeçam por sua demasiada obstinação os grandes males que a guerra traz consigo, mormente sendo civil, e entre cristãos, há parecido, por que se escusem tão grandes danos, advertir a todos os que se acham nesta praça que, passando-se a este campo, não só se lhes dará perdão do passado, mas ainda querendo servir, se lhes assentará praça, e socorrerá conforme sua qualidade, e não querendo servir se lhes dará dinheiro para entrar-se pela terra adentro; tendo entendido que os que não quiserem usar desta oportunidade, e aguardarem a que se ponham as baterias, e que se abram brechas, serão tratados como inimigos obstinados, e não haverá para eles recurso de misericórdia. Muitos destes escritos lançou o inimigo à roda da praça, mas sem efeito.

19. Quinta-feira por noite despediu o governador o cabo e soldado que trouxeram ao Du Four [François Du Four, engenheiro francês], e eles fizeram caminho por Mourão e foram a salvamento; nesta noite entraram dois correios do Conde de São Lourenço com cartas para o governador, e uma delas trouxe um vidro de óleo de ouro [tintura utilizada para desinfectar e tratar ferimentos]. De tarde tinha chegado o rapaz que ficou retido no quartel do inimigo, era este um Afonso, filho do cabo de esquadra Afonso Mouro, e advertiu muito bem em tudo o que viu e lhe disseram; a este deram outros escritos, dizendo-lhe que os desse ao vigário. O governador os recolheu todos como os demais.

Neste dia começaram já a crescer as trincheiras do quartel que o inimigo fez a São Francisco o Velho, e a linha exterior que fez pelo alto do Espinhaço da Cabra.

(continua)

Este texto corresponde à transcrição (com ortografia actualizada) de um manuscrito anónimo existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), cujo título é Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657.

Imagem: “Soldados jogando cartas na Sala da Guarda”, quadro de Jacob Duck, Museu das Belas Artes, Budapest.

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