Cerco e tomada de Olivença (8ª parte – 14 e 15 de Maio de 1657)

Olivença1

14 – Segunda-feira pela madrugada, pela parte donde foi o assalto, veio um soldado valão com um arcabuzaço [ferida provocada por uma bala de arcabuz] pelo pescoço e pediu aos nossos que, pelo amor de Deus, o recolhessem e lhe dessem um confessor. Levaram-no para o hospital, onde viveu três dias. Este [o soldado] nos disse que o nosso exército tinha sitiado Badajoz, que o inimigo mandara a sua cavalaria com mil infantes e os metera dentro da cidade. Na manhã deste dia amanheceram duas peças na plataforma de São Pedro e uma na de São Bartolomeu, de onde o inimigo não tirava havia já três dias; trabucou e lançou nove bombas na praça, com que arruinou algumas casas.

Pelo meio-dia fez o inimigo chamada pela parte do olival de João Cabelos, e veio a ela D. Francisco Ventura Tarragona, seu engenheiro-mor e general da artilharia; pediu muito encarecidamente, queria falar ao governador, o que não conseguiu.

Segunda vez pediu que se tratasse das capitulações acerca da entrega da praça, e instando sempre que queria falar ao governador, o qual lhe mandou dizer que já não havia quem se lembrasse de tal contrato.

Terceira vez pediu tréguas de duas horas, e licença para tirar os seus mortos que a outra noite lhe tinham ficado [no campo], e se lhe respondeu que de cá se mandariam enterrar, porém alguns disseram ao governador que lhos deixasse levar, que era estilo em toda a guerra o conceder-se, e então lhe mandou dizer que os retirasse embora; levaram 28 corpos que ficaram pegados nas estacas da estrada encoberta, e entre eles D. Pedro Alvarez de Toledo; um castelhano que ainda estava vivo recolhemos para dentro e se curou no hospital; este nos informou do atrás referido.

Pela tarde tornou a fazer chamada o mesmo Tarragona, e pediu com grande instância que queria falar ao governador e que se tratasse dos pactos  entrega da praça, e foi respondido como da outra vez. Na tarde deste dia deu uma bala de artilharia em André Fernandes, de quem acima falei, e lhe levou o braço esquerdo, o que sentimos muito por ser moço de grande valor.

[15] – 3ª feira, pelas oito horas do dia, saiu o inimigo dos seus ataques pela parte do Ral, e investiu a nossa estrada encoberta, e os seus soldados treparam em cima do nosso parapeito, e os nossos os rebateram, e se pelejou porfiadamente até se atirarem com pedras. Neste tempo, dois soldados desmontados naturais da vila se arrojaram ao ataque do inimigo, atirando-lhe com pedras, com o que lho fizeram largar e saírem fugindo; os nossos saíram fora desordenadamente atrás deles, e saindo para os recolher o alferes do mestre de campo Belchior Lopes do Campo, lhe deu o inimigo com uma bala, de que logo morreu, e os nossos soldados se meteram dentro do ataque do inimigo, onde lhe mataram muita gente, e lhe tomaram mais de 150 armas e muitas granadas.

Durou este combate mais de sete horas, em que se pelejou com grande esforço; feriram-nos o alferes Teixeira e o alferes Cristóvão Peres, e o ajudante Bartolomeu Martins Pestana e mais de trinta soldados, e mataram mais de vinte; os nossos guarneceram o ataque ganhado.

Neste dia arrasou o inimigo o forte da Atalaia do Castelo Velho, e com quatro troços fez uma linha que saía das suas para o outro do Poceirão; na noite este dia se passaram para o inimigo dois soldados do Flores.

Nesta terça-feira, em dando meia-noite, avançou o inimigo pela parte de São Brás para divertir, e logo avançou pelo ataque ganhado, em que tínhamos sentinelas somente, e o tornou a cobrar, e juntamente avançou [a]o forte, ou coroa, que estava só com sentinelas, e entrou dentro, mas com perda de gente, e muito mais pela parte do reduto velho, que guarnecia o alferes Lemos com 20 soldados, os quais o defenderam valorosamente muito tempo, até que o entrou o inimigo, e dos que estavam à defesa não sabemos que escapasse algum.

O tenente Manuel Pacheco, com trinta cavalos, rechaçou o inimigo e o lançou fora do forte, e vindo pedir gente para o guarnecer lha não deu o sargento-mor João Rodrigues Coelho, e o pedindo a segunda vez, o governador mandou ao capitão Agostinho Aragonês por uma banda, e ao capitão António Tavares de Pina pela outra, que fossem a desalojar o inimigo e guarnecer o forte, o que fizeram; porém, o capitão Tavares recebeu uma bala pelo rosto em meio caminho, com o que o retiraram, e morreu o seu sargento Manuel Velho e muitos soldados seus; o engenheiro Gilot ia diante do capitão alguns passos, e recebeu uma bala pelo peito direito, de que logo caiu morto.

O tenente Manuel Pacheco se retirou a pé por lhe terem morto o cavalo, e o capitão Aragonês chegou ao forte a todo o fim dele, e o inimigo ficou desalojado, se não foi [ou seja, excepto] do fortim velho, que era cerrado por toda a parte, e sempre o inimigo o sustentou por seu.

(continua)

Este texto corresponde à transcrição (com ortografia actualizada) de um manuscrito anónimo existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), cujo título é Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657.

Imagem: Olivença; foto de J. P. Freitas.

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