A chegada a Elvas do novo governador das armas em 1645 – uma descrição coeva

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Uma carta anónima de 1645 refere a chegada ao Alentejo, em Abril, do novo governador das armas daquela província, o 2º Conde de Castelo Melhor. Nela se descreve o equipamento das companhias de cavalos couraças (introduzidas em Setembro do ano anterior) e de cavalos arcabuzeiros, bem como se aponta também a força de infantaria existente na província transtagana. Em complemento ao artigo já aqui publicado em 2008, passo a transcrever (modernizando a ortografia) a carta que se encontra num conjunto de manuscritos em português do espólio do Arquivo Histórico de Badajoz, cujas cópias me foram gentilmente enviadas pelo historiador e amigo Sr. Julián García Blanco, a quem presto os meus agradecimentos.

Entrada do Conde de Castelo Melhor em Elvas

A entrada do Conde de Castelo Melhor se fez com a maior festa e e aplauso que se viu nesta cidade. Joane Mendes de Vasconcelos o foi esperar caminho de Estremoz, no campo de Alcarapinhais, [com] dez tropas de cavalos, duas de couraças (que são armados) todos de armas sem mais que espadas para romper, e os outros com suas pistolas e clavinas [ou seja, os cavalos arcabuzeiros]. Os terços de infantaria repartidos em cinco terços, e no meio 6 peças de campanha, seis carros cobertos, com que formou campo com excelente ordem, tão boa que se esta se tivera em ocasiões de mor importância, fora de grande efeito. Formado o campo se adiantou o mestre de campo general com os fidalgos e nobreza da cidade, que o acompanhou por lho mandar pedir cada um em particular, e foram receber o Conde, vindo acompanhado-o. E chegando à vista se fez salva com a artilharia, e ao passar pelos esquadrões, cada qual deu salva com carga cerrada [ou seja, dispararam todos a um tempo] e vieram marchando. Para esta ocasião se tinham feito em o fosso da muralha 200 minas, a que se pôs fogo em todas como vieram chegando, e foram outras tantas peças a que respondeu o forte de Santa Luzia, disparando a artilharia e dando carga de mosquetes. O mesmo se fez em os muros da cidade em roda, e vista de Badajoz, saíram danças e chacota adiante da nossa cerca. Foram acompanhando até sua casa com a costumada rapazia [rapaziada], que tudo atroava com vivas. A infantaria que veio diante se pôs em alas pelas ruas por onde havia de passar e foi dando cargas, a da praça foi muito grande, e neste tempo, que pareceu mais excesso, se repicaram continuamente os sinos da Sé, relógio da cidade, e à noite assim na Sé como [em] toda a cidade houve iluminárias, de que também gozaram à entrada por serem horas de Avé Marias. Entrou dia da Cruz, que é prognóstico de grandíssima felicidade e venturosos sucessos. O Marquês de Legañez também dizem que é entrado em Badajoz. Ordene Deus tudo a seu Santo Serviço, e a bem de todos.

O prognóstico não se concretizou. Divergências graves entre o governador e a oficialidade portuguesa, incluindo o mestre de campo general Joane Mendes de Vasconcelos, a que se juntou uma abortada tentativa de pôr cerco a Badajoz, ditaram a demissão de João de Vasconcelos e Sousa, 2º Conde de Castelo Melhor, ao fim de quase um ano como governador das armas do Alentejo.

Imagem: Armadura de couraceiro. Foto retirada da página http://www.bunrattycollection.com.

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