A incursão a Villanueva del Fresno, 17 de Setembro de 1642

Segundo o soldado de cavalos Mateus Rodrigues, a incursão a Villanueva del Fresno em Setembro de 1642 foi o único sucesso digno de menção comandado pelo general da cavalaria do Alentejo, o Monteiro-Mor D. Francisco de Melo. Esta é a opinião não filtrada pela narrativa propagandística desses primeiros tempos da Guerra da Restauração, emitida por um soldado que participou em muitas acções. Percorrendo outras fontes, encontramos versões mais simpáticas para o general, não só em relações avulsas, como nas mais extensas narrativas de Aires Varela ou Luís Marinho de Azevedo.

Em todo o caso, a incursão às terras de Villanueva del Fresno foi apenas uma das muitas pequenas operações da guerra de fronteira. No caso, destinava~se a castigar a cavalaria daquela localidade, cujo poder atemorizava os moradores do termo de Mourão, pois era ali tão forte que pilhava e se passeava à vontade pelos campos. Os efectivos eram conhecidos dos portugueses: um soldado de cavalos castelhano tinha desertado na sequência de uma briga que tivera com o seu tenente, a quem ferira gravemente, e temendo ser enforcado, fugira para Mourão; interrogado, informara D. Francisco de Melo que a força de cavalaria que havia em Villanueva del Fresno era composta por três companhias pagas e duas milicianas, estas com cerca de 80 cavalos.

Saiu o general de Olivença no dia 16 com 300 ou 400 cavalos (os números apresentados por Aires Varela e Luís Marinho de Azevedo são diferentes), fazendo as vezes de comissário geral o coronel francês François de Huybert de Chantereine (o comissário geral Gaspar Pinto Pestana ficara em Olivença, bastante doente). Conforme refere Mateus Rodrigues, a cavalaria portuguesa tomou um caminho mais longo para não ser detectada, cerca de nove léguas entre Olivença e Mourão, e mais duas dali a Villanueva del Fresno. Na vanguarda ia a companhia do comissário Pinto Pestana, comandada pelo seu tenente Manuel da Costa Monteiro, e a retaguarda cabia à companhia do tenente-general D. Rodrigo de Castro (também ausente da operação), comandada pelo tenente António Machado da França. Pelo caminho, por alturas de Monsaraz, juntou-se o coronel francês Montjouant com o seu regimento (provavelmente, apenas duas companhias). A cavalaria chegou de noite a Mourão e aí descansou.

No dia seguinte, pelas dez horas da manhã, estavam nas proximidades de Villanueva del Fresno. A partir daqui, os pormenores das narrativas de Aires Varela, Marinho de Azevedo e Mateus Rodrigues diferem um pouco, mas não a substância do sucedido, que é no geral coincidente. Segundo Mateus Rodrigues, na madrugada desse dia D. Francisco de Melo escolhera 40 cavaleiros experientes de todas as companhias e entregara o comando desta força ao seu tenente, Francisco Leote (um oficial de grande bravura que iria ascender na carreira militar ao longo da guerra; morreu em Maio de 1655, sendo então tenente de mestre de campo general). O objectivo era emboscar-se num cabeço redondo, de onde se avistava Villanueva del Fresno, de modo a vigiar os movimentos da cavalaria inimiga. De manhã, quando o grosso da força portuguesa tivesse chegado ao cabeço, Francisco Leote e os seus homens deviam ir provocar o inimigo até junto das trincheiras, de modo que a sua cavalaria saísse da localidade e fosse atacada pela restante força portuguesa emboscada. Já Aires Varela refere que o general lançou quinze cavaleiros dos naturais de Mourão, para que a mudança do traje não fizesse reparar o inimigo, e lhes ordenou juntassem o gado, que sem receio pastava por aqueles vales, o que eles fizeram com diligência. Por seu lado, Marinho de Azevedo refere que foram enviados apenas oito cavaleiros tocar arma (ou seja, dar o alarme com disparos para o ar), de forma a espicaçar o inimigo, conforme tinha sido sugerido pelo desertor e informador.

Qualquer que tivesse sido o processo (ainda que Mateus Rodrigues mereça mais crédito, pelo pormenor descrito e pelo facto de ter participado na operação), uma força de cavalaria de Villanueva, comandada por D. Garcia Navarrete, saiu ao encontro dos portugueses por uma das portas da vila, precisamente chamada “porta de Mourão”. Eram somente 40 cavalos, mas um soldado natural de Mourão, que se encontrava de vigia num outeiro, precipitadamente  tocou arma e soltou o alarme de que a cavalaria portuguesa enviada para junto da trincheira estava em risco de ser cortada do resto da força. D. Francisco de Melo revelou então a emboscada e saiu ao encontro do inimigo. Dos 40 cavaleiros, sete fugiram e os restantes foram mortos (segundo Varela), ou dezassete foram mortos e os restantes fugiram (conforme a narrativa mais plausível de Azevedo). Em todo o caso, oito foram capturados, incluindo D. Garcia. A este número acrescenta Mateus Rodrigues mais de 60 paisanos que acorreram a ajudar a sua cavalaria, mas que acabaram cercados “como atuns” e foram trazidos para Mourão. As restantes forças refugiaram-se atrás das muralhas de Villanueva del Fresno e limitaram-se a usar a artilharia com grande prontidão, mas pouca pontaria.

A operação terminou da melhor maneira para a cavalaria comandada pelo Monteiro-Mor, que pôde pilhar à vontade o gado dos campos em redor da vila, não obstante o fogo vivo que cinco peças de artilharia fizeram sobre os portugueses. Uma bala de 9 libras caiu bem perto de D. Francisco de Melo e foi levada, como recordação, para Olivença. Mateus Rodrigues, a quem o general não inspirava muita confiança como comandante, refere – com a irreverência frequentemente encontrada nas suas memórias – que este sucesso foi alcançado porque o general da cavalaria não encontrou grande oposição.

Bibliografia:

AZEVEDO, Luís Marinho de – Commentarios dos valerosos feitos, que os portuguezes obraram em defensa de seu Rey, & patria na guerra de Alentejo que continuava o Capitaõ Luis Marinho d’Azevedo, Lisboa, na officina de Lourenço de Anveres, 1644, pgs. 256-258.

VARELA, Aires – Sucessos que ouve [sic] nas fronteiras de Elvas, Olivença, Campo Maior e Ouguella, o segundo anno da Recuperação de Portugal, que começou em 1º de Dezembro de 1641 e fez fim em o ultimo de Novembro de 1642, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1906, pgs. 95-97.

Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição do códice 3062 [Campanha do Alentejo (1641-1654)] da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Lisboa, Arquivo Histórico Militar, 1952 (pgs. 39-42).

Imagem: A entrada nos campos de Villanueva del Fresno. Gravura inclusa na obra de Aires Varela acima referida. De notar os pormenores assinalados na própria gravura e identificados com letras: A, o cabeço redondo onde se emboscou a cavalaria de D. Francisco de Melo; B, o espia João Gonçalves; C, o general da cavalaria; D, a igreja maior; E, a cadeia da vila; F, a casa de D. Garcia Navarrete; G, os corredores portugueses (os cavaleiros que foram destacados para incitarem a saída da cavalaria de Villanueva; alguns são representados com varas, destinadas a conduzir o gado); H, as tropas do inimigo saindo da vila; I, o grosso da cavalaria emboscada; L, a vila de Mourão, ao longe.

3 thoughts on “A incursão a Villanueva del Fresno, 17 de Setembro de 1642

  1. UNA ESCARAMUZA EN TIERRAS DEL RIBACOA

    1642 fue un año muy pródigo en sucesos militares. Salvo en algunas ocasiones puntuales, que obligaron a que el número de tropa reclutada alcanzase notabilidad, la mayor parte de los acontecimientos no fueron más que pequeñas incursiones enmarcadas en la denominada “guerra de frontera”, dónde el pillaje primaba sobre cualquier otro objetivo. Así, las pretensiones no eran conquistar pueblos y aldeas, sino que lo verdaderamente interesante era obtener un cuantioso botín, el cual se repartiría posteriormente entre todos los implicados en el ataque, atendiendo, como es lógico, a su categoría dentro del estamento militar.
    Estas acciones, llamadas unas veces “de course”, en otras “escaramuzas”, o simplemente “de castigo”, al desarrollarse con frecuencia, producían un doble efecto en quienes más directamente las sufrían: los vecinos de los lugares atacados.
    Por una parte éstos veían mermadas sus pertenencias, que eran robadas e incendiadas por los agresores; y en segundo lugar, la moral también decaía considerablemente, pues apenas había tiempo de recuperación entre un ataque y el siguiente. En definitiva, consecuencias físicas y psicológicas.
    Un claro ejemplo de estas incursiones y sus resultados negativos, fue la realizada sobre Villanueva del Fresno en el citado 1642, cuyo desarrollo ha sido debidamente tratado en uno de los capítulos de este blog histórico-militar. Pero, como dijerá párrafos atrás, ése no fue el único acontecimiento de aquel año.
    Bajo las pautas que caracterizaban a las escaramuzas y que ya han quedado expuestas anteriormente, poco después del suceso de Villanueva, tuvo lugar un hecho que causó gran conmoción al ser debidamente publicitado tras su conclusión. Tuvo lugar en tierras de la Beira Alta, concretamente en la comarca llamada popularmente Ribacoa.
    Limitaba esta zona con la frontera mirobrigense, gobernada por el Excelentísimo señor Duque de Alba. Este general llevaba ya un tiempo meditando una entrada en campo enemigo, sobre todo porqué, en los meses precedentes, los lugares de su jurisdicción más próximos a la Raya divisoria (Aldea del Obispo, Fuentes de Oñoro, La Fregeneda….) habían sido objeto de duras acciones represivas por parte de los portugueses de la mentada región beirense.
    Así pues, era opinión del Duque lanzar un ataque en venganza del daño recibido.

    Combinando sus movimientos con los realizados por otras tropas de la frontera pacense, que a su vez tenían intención de atacar en la frontera sur al objeto de dividir a las posibles fuerzas defensoras lusitanas y facilitar con ello el éxito del de Alba, mándo éste reunir un potente ejército poniendolo a las órdenes de sus dos mejores oficiales: Juan Suárez de Alarcón, más conocido por su noble título de Conde de Torresvedras, y Alvaro de Vivero, mano derecha principal del Duque.
    Así, con 1200 infantes y 500 caballos, más otras gentes procedentes de Valladolid y Salamanca, se pusieron en camino ambos comandantes el día 17 de octubre de 1642.
    Cruzaron la frontera por los vados situados junto a la localidad de San Felices de los Gallegos, encontrándose frente a su posición una vasta campiña cuajada de alquerias, aldeas y villas que, desconociendo el peligro que sobre ellas se cernía, tenían sus campos, ganados y haciendas totalmente descuidadas. Sin duda un inmejorable botín para los castellanos.

    Comenzo la escaramuza sin hallar oposición. Dividióse al efecto en dos grupos el ejército invasor. Uno atacó la banda derecha y el restante la izquierda.
    Escarigo, lugar de apenas 200 vecinos y con sólo un retén de 60 soldados, fue el primero en conocer la rapiña de los hombres comandados por el Marqués de Creche, comisario general de la caballería castellana. Del incendio se salvó unicamente la iglesia.
    Siguieron la estela de Escarigo las villas de Vermiosa, Almofala, Colmeal y Torre dos Frades. En esta última hicieron noche para descansar y reponer fuerzas la gente de Torresvedras y Vivero.
    A la mañana siguiente, 18 de octubre, continuó la cabalgada saqueándose el poblado llamado Mata de Lobos, dónde dieron muerte a ocho vecinos que huían cargados de ropa, pan, vino, trigo y otros enseres.
    Para entonces los únicos que se habían atrevido a detener la invasión fueron unos jinetes procedentes de la plaza amurallada de Castel Rodrigo, aunque no tuvieron fortuna en su intento, teniendo que retirarse al galope.
    El ejército castellano, pese a todo, no se detuvo, y se presentó al mediodía ante las puertas de Escalhao, sin equivoco la población más importante y rica de cuantas se habían hallado en su avance.
    Toda la vecindad (más de 600 personas), ante el aviso de que llegaba el invasor, estaba recogida en la iglesia, convertida en una auténtica fortaleza. Fue responsable de la defensa de la misma el sargento Joao da Silva Freio, al mando de 35 soldados.
    Soportaron el asedio castellano muchas horas; incluso acabaron con la vida de varios militares. Cuenta la tradicción escalonense que un hombre del lugar, de nombre Janeirinho, armado de valor y coraje, enfrentándose a un capitán que pretendía entrar en el reducto religioso, logró acabar con la vida del agresor al tiempo que gritaba enardecido”… Viva o Janeiro com a sua porra…”.
    Leyendas aparte, lo cierto, según los documentos conservados, es que los castellanos, viendo la imposibilidad de tomar la iglesia y faltándoles munición y víveres para seguir su correría, optaron por finalizarla, regresando aquella misma tarde a sus cuarteles de Ciudad Rodrigo.
    Consigo llevaron muchas cabezas de ganado, gran bulto de ropa, utensilios varios y otras menudencias que la soldada obtuvo en los saqueos de los pueblos atacados.
    Habían vengado de esta forma las afrentas recibidas, satisfaciendo los planes del Duque de Alba. Objetivo cumplido.
    Así fue y así terminó una de las muchas acciones de guerra que tuvieron como escenario a la frontera extremeña-portuguesa. Era sólo el segundo año de conflicto, y quedaban aun por cumplirse veintiséis campañas más.
    Pero eso es otra historia.

    JUAN ANTONIO CARO DEL CORRAL

  2. Pingback: Uma escaramuça em terras de Riba Coa, 1642 – por Juan Antonio Caro del Corral « Guerra da Restauração

  3. O tag deste texto “Fresno” relativo a Francisco Leote não se refere a Francisco Leote do Rego mas sim a Francisco Leote Tavares. Cump.

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