A captura do tenente-general Gregorio de Ibarra nos campos de Badajoz, 25 de Maio de 1652 (3ª e última parte)

A entrada seguinte seria a definitiva, o lançar da armadilha que fora cuidadosamente preparada nos dias anteriores.

De modo que ordenaram os nossos generais que haviam de mandar (…) uma partida de 100 cavalos para que obrigasse o inimigo a sair com todas as 14 tropas que na cidade [de Badajoz] tinha, e na mesma noite que eles entrassem, havia de ir o nosso general da cavalaria André de Albuquerque, com toda a cavalaria, a emboscar-se em Matos de Cantilhana, que estão por cima de Badajoz uma légua e meia. E a nossa partida havia de entrar às portas de Montijo, e quando fosse de manhã (…) havia de ser retirada (…) para Portugal. E como o inimigo havia de sair em busca deles e não os achasse, era força retirar-se por onde o nosso general havia de estar com a nossa cavalaria. (MMR, pg. 291)

No dia combinado, as companhias que participavam na acção concentraram-se em Elvas e daí partiram para Campo Maior, onde chegaram ao anoitecer. Todas as companhias da vila estavam formadas no exterior, aguardando o general. A força de 100 cavalos já havia saído para as partes de Montijo, e André de Albuquerque ordenou ao soldado que  preparara a traição que fosse a Badajoz, avisar acerca da entrada da cavalaria portuguesa.

Chegou este soldado à ponte de Badajoz já depois da meia-noite, e dando o sinal combinado, com ele foi ter o general D. Álvaro de Viveros. Depois de ser informado sobre a entrada dos portugueses e de ter recompensado o soldado, Viveros mandou montar as 14 companhias de cavalaria de Badajoz, que perfaziam 700 cavalos.

E assim como estiveram juntos mandou com eles o seu tenente-general, o Ibarra, que é um grande soldado, o qual saiu logo pela cidade fora com as tropas como um raio, e quando ele ia pela campanha acima não poda saber da nossa cavalaria, visto passar de madrugada, que se fora dia era força que haviam de dar nela os seus batedores (…). (MMR, pg. 292)

Deste modo, a força de Gregorio de Ibarra ficou com os 1.500 cavalos comandados por André de Albuquerque Ribafria nas suas costas . A armadilha estava preparada.

Não avistou Ibarra a cavalaria portuguesa, mas deu com o trilho por ela deixado no regresso a Campo Maior. Verificando que já não era possível interceptar aquela entrada, o tenente-general deu ordem para volver a Badajoz. Porém, não o fez tomando o rumo que o levaria onde estava emboscada a cavalaria de André de Albuquerque. Decidiu dar verde aos cavalos, isto é, aproveitar para os colocar a pastar, visto que era época de haver muita erva pelos campos, o que possibilitava às montadas uma alternativa mais saudável às habituais rações de cevada. Esta decisão levou a que as companhias de Badajoz seguissem junto ao rio Guadiana, onde havia melhores pastagens, por locais onde vales e barrancos os protegiam da vista das sentinelas portuguesas.

Enquanto os soldados castelhanos desmontavam e segavam erva para levarem, o general André de Albuquerque impacientava-se no local onde se encontrava emboscado, não tendo notícias da cavalaria de Badajoz. Até que chegou o aviso, dado por uma sentinela, de que havia soldados inimigos desmontados junto ao Guadiana a meia légua dali (cerca de 2,5 Km) – com efeito, alguns soldados haviam deixado o abrigo dos barrancos e subido a alguns altos, onde a erva era melhor, e só por este acaso foram detectados pelos batedores portugueses.

André de Albuquerque mandou logo montar toda a cavalaria, e mandou avançar diante dois batalhões à rédea solta, que ia por cabo de um o capitão D. Fernando Henriques, filho de D. Henrique Henriques, senhor das Alcáçovas, e no outro batalhão ia por cabo o capitão João da Silva [de Sousa] (MMR, pg. 293). Estes dois batalhões deviam interceptar o inimigo e aguentá-lo enquanto o general da cavalaria conduzia o grosso da força, mais atrás, para o contacto.

Assim que os soldados que andavam segando erva viram a cavalaria portuguesa, montaram apressadamente e foram dar o alarme. O tenente-general Ibarra ainda subiu a um alto para ver qual era o efectivo da força portuguesa, mas verificando que era muito superior ao seu, deu ordem de retirada às suas tropas. Fizeram-se à ribeira de Xévora, que atravessaram com os cavalos já estafados da correria. Perto da outra margem, mas ainda dentro de água, fez Gregorio de Ibarra formar dois batalhões com 150 cavalos, supondo que seria suficiente para desmotivar as tropas portuguesas que corriam na vanguarda. Porém, tanto D. Fernando Henriques como João da Silva de Sousa não se atemorizaram, sabendo que o general André de Albuquerque os seguia com considerável reforço, e assim atravessaram a ribeira e lançaram-se sobre o inimigo, que mais não fez do que disparar uma salva de pistolas e carabinas antes de se pôr em fuga, já misturado com os batalhões portugueses da vanguarda.

A perseguição durou até às proximidades do forte de São Cristóvão, em Badajoz. Quando os últimos cavaleiros se recolheram à segurança do forte, as tropas portuguesas reagruparam-se e retiraram. Foi então que se verificou que, para além de 6 capitães e 80 cavalos, o próprio tenente-general Ibarra tinha caído prisioneiro. André de Albuquerque Ribafria ficou “doido de contente”, segundo a expressão de Mateus Rodrigues, pois valia mais aquela captura do que se tivessem apanhado 500 cavalos (uma afirmação exagerada, mas que reflecte bem a reputação de que gozava Gregorio de Ibarra).

Após o incidente, os espanhóis pediram para ser reatadas as trocas, processo que não teve o seu começo senão por alturas da Páscoa do ano seguinte. Tanto o tenente-general como os 6 capitães foram transferidos para Lisboa, por se terem tentado evadir de uma das torres de Elvas, onde tinham ficado inicialmente sob prisão. Esta tentativa de fuga causou uma perna partida a um dos capitães, de uma queda que deu da torre onde estava. As trocas de prisioneiros ficaram então de novo abertas, segundo Mateus Rodrigues devido à grande importância de Gregorio de Ibarra. Quando chegaram os primeiros prisioneiros portugueses, na Primavera de 1653, quase todos soldados de infantaria, alguns contavam já dezanove meses de cativeiro e não traziam cor de gente viva, senão de fomes desenterrados… (MMR, pg. 296)

Imagem: “Escaramuça de cavalaria”, pintura de Pieter Meulener, Groeninge Museum, Brugges.

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