Reconstituição de uma batalha do período

Tal como já sucedeu há cerca de ano e meio a propósito de cercos, volto a fazer uma incursão num conflito do mesmo período histórico da Guerra da Restauração, embora noutras paragens mais setentrionais: a Guerra Civil Inglesa. Vem isto a propósito da reconstituição de uma importante batalha daquele conflito que opôs os partidários do rei Carlos I (os Realistas) aos defensores do Parlamento (os Parlamentaristas). Trata-se da batalha de Naseby, travada em 14 de Junho de 1645, na qual os Parlamentaristas, graças ao seu recém-formado exército profissional, o New Model Army, comandado por Thomas Fairfax e Oliver Cromwell, destroçaram as forças Realistas sob o comando do próprio Carlos I, aconselhado pelo seu sobrinho, o Príncipe Rupert do Reno (que haveria de passar por Lisboa cinco anos depois deste evento).

O episódio aqui apresentado integra-se numa série da BBC intitulada Battlefield Britain. Pela qualidade da sua realização, oferece uma excelente reconstituição da face da batalha característica do período tratado neste blog.

O documentário é narrado em inglês, sem legendas.

Num dos próximos artigos, faremos uma pequena passeata por um dos campos de batalha da Guerra da Restauração – por enquanto ainda bastante reconhecível em relação ao palco de combate que foi há cerca de 350 anos.

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Três anos de “Guerra da Restauração”

Completam-se amanhã três anos desde que iniciei este projecto. Ultimamente, por motivo de muitos afazeres profissionais, não me tem sido possível actualizá-lo com tanta assiduidade quanto a que desejava. mas não quero deixar de agradecer aqui a todos os amigos que têm colaborado neste espaço e que muito me têm ajudado ao longo destes anos (e espero não me esquecer de ninguém) Juan António Caro del Corral, Julián García Blanco, Dr. Lorraine White, Santos Manoel, Edwin Paar, João Torres Centeno, Jorge Quinta-Nova, Carlos Durán, José Palau, Jesus Corrales, Edgar Cavaco e Tarciso Couceiro.

Imagem: Padrão da batalha de Montes Claros (17 de Junho de 1665). Um local hoje pacífico, como tudo deveria permanecer no mundo. Foto de JPF.

Exemplo de uma carta patente: o caso do capitão Bartolomeu de Barros Caminha

Uma carta patente era um documento passado pelo monarca, através do qual se empossava um oficial de patente igual ou superior a capitão no respectivo posto. Muitas cartas patentes incluíam um resumo da carreira do oficial e das acções em que estivera envolvido, pelo que constituem fontes importantes para o estudo da História Militar e também das Mentalidades do período.

O exemplo que aqui se traz é o de uma dessas cartas patentes, respeitante ao capitão de cavalos Bartolomeu de Barros Caminha, datada de 1659. Como é usual nestes casos, verteu-se o conteúdo para português actual.

Dom Afonso, por graça de Deus Rei de Portugal etc. Faço saber aos que esta minha carta patente virem que, tendo consideração aos merecimentos e mais partes que concorrem na pessoa de Bartolomeu de Barros Caminha, e aos serviços que me tem feito há mais de seis anos a esta parte na província do Minho e exército do Alentejo, achando-se naquela em todas as ocasiões que em seu tempo se ofereceram, e particularmente na do forte de Santiago, saque e incêndio dos lugares de Santo Adrião, Leirado, Taboeira, Forteiros, Linhares, Porto Pedroso, e outros, no encontro que houve com a infantaria e cavalaria do inimigo na campanha de Salvaterra da Galiza, sempre com dois criados à sua custa; e pelo conseguinte no Exército de Alentejo, onde se achou no rendimento do castelo de Oliva, sendo um dos primeiros que entraram no lugar; choque e derrota que se deu à cavalaria de Castela no termo de Arronches, onde foi ferido de uma bala na perna esquerda, havendo sido prisioneiro no encontro que houve a Campo Maior, e ultimamente se achar na campanha de Olivença o ano de seiscentos cinquenta e sete, procedendo em todas as ocasiões com assinalado valor. E por entender dele que em tudo o que o encarregar corresponderá inteiramente à confiança que faço de sua pessoa, por todos estes respeitos hei por bem, e me apraz de o nomear (como por esta carta o nomeio) por capitão da companhia de cavalos arcabuzeiros que no exército do Alentejo vagou por falecimento de Dom António de Ataíde, o qual posto exercitará enquanto eu houver por bem, e com ele haverá de soldo por mês trinta e dois mil réis, pagos na conformidade de minhas ordens, e todas as preeminências, liberdades, graças, isenções e franquezas que pertencem aos mais capitães de cavalos de meus exércitos; e por haver de entrar neste posto, supro ao dito Bartolomeu de Barros todo o tempo que lhe faltar para satisfação do capítulo quinze do regimento das Fronteiras; pelo que ordeno ao governador das armas da província e exército de Alentejo, e general da cavalaria dele, lhe mandem dar a posse desta companhia, e aos mais oficiais e soldados dela obedeçam e guardem suas ordens tão pronta e inteiramente como devem e são obrigados; e antes da posse, jurará na forma costumada de não faltar às qualidades deste posto, o soldo do qual se lhe assentará nos livros da Vedoria e Contadoria Geral daquele exército, para lhe ser pago a seus tempos divididos. Por firmeza do que lhe mandei passar esta carta por mim assinada, e selada com o selo grande de minhas armas. Dada na cidade de Lisboa aos vinte e um dias do mês de Julho. João de Matos a fez. Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil seiscentos cinquenta e nove. Francisco Pereira da Cunha a fez escrever.

(Assinaturas: Rainha; O Conde do Prado; Pedro César de Meneses)

Acrescente-se, como mera nota de curiosidade a respeito deste oficial, que Bartolomeu de Barros Caminha seria em 1661 condenado a degredo para a província de Entre Douro e Minho, por causa de um crime praticado em Campo Maior. No entanto, viu ser-lhe comutada a pena e consequente perda da companhia de cavalos que a patente acima transcrita lhe conferia, com a condição de continuar a servir no Alentejo durante um ano sem receber soldo e ficando proibido de entrar em Campo Maior.

Fonte: “Documentos relativos à Restauração de Portugal” existentes no Arquivo Histórico Militar”, in Boletim do Arquivo Histórico Militar, 10º Vol., Vila Nova de Famalicão, s. n., 1940, pgs. 74-75.

Imagem: Cavaleiros franceses e um alferes de infantaria fazem uma pausa junto a uma tenda de vivandeiros. Pintura da década de 40 do séc. XVII.