A situação militar do partido militar de Riba Coa (província da Beira) nos inícios de 1657

Em complemento ao que foi apresentado acerca da situação nas praças do partido de Riba Coa, trago a lume um outro levantamento da situação, este referente aos efectivos e às dificuldades de pagamento, igualmente remetido ao Conselho de Guerra pelo governador D. Rodrigo de Castro e sensivelmente pela mesma altura do anterior.

Por ordem da Coroa, enviada ao governador em finais de Janeiro de 1657, devia o terço pago daquele partido ser reenchido de gente (era o termo utilizado na carta régia) até ao limite da sua dotação. E que o mesmo fizesse com os terços de auxiliares e as companhias de cavalaria da ordenança, tudo da maneira mais suave que se conseguisse – ou seja, sem levantar grandes protestos por parte da população.

Em resposta, recordou D. Rodrigo as dificuldades por que passava a província, à qual estava previsto remeter apenas seis mesadas para pagamento da gente de guerra e cobertura de outras despesas, de 5.600 cruzados cada uma (um cruzado equivalia a 400 réis), mas que na realidade se materializavam em três pagas somente, restando menos do necessário para os pagamentos de todo o ano da 1ª plana da corte, hospital, correios, artilharia, atalaias, sentinelas da raia e muitas outras despesas; e que com aquelas três pagas por ano não podia subsistir a gente de guerra sem os saques, vilas ganhas e presas feitas em Espanha. No entanto, estando toda aquela raia tão destruída de ambos lados da fronteira, não era possível aos soldados recorrerem à referida alternativa como até então faziam. Tudo isto lembrava D. Rodrigo de Castro para dizer que, se se acrescentasse gente ao terço pago, não receberia soldo mais do que duas vezes ao ano, e com os 2.140 réis que cada soldado levava nas duas pagas, seria impossível sustentarem-se, vestirem-se e calçarem-se um ano inteiro.

O terço encontrava-se com 709 infantes, e D. Rodrigo dizia que faria acrescentar os 800 que faltavam para a sua lotação sem despesa da real fazenda. Mas pedia para que se aumentasse o montante das mesadas, pois que o recrutamento se faria sem as pagas iniciais, mas se iria guarnecer a província, além das munições que se davam aos auxiliares que faziam turnos de um mês de guarnição às praças, que naquela província eram 9 na raia e 32 atalaias, as quais ficavam melhor defendidas com aquela infantaria paga. E acrescentava na carta enviada ao Conselho de Guerra que teria a infantaria sempre pronta para acudir ao Alentejo. Relembrava também que , na anterior ocasião em que governara aquele partido de Riba Coa, havia deixado os terços de auxiliares armados e com o número de gente que lhe fora ordenado pelo Rei, mas que após 3 anos de ausência da província se tinham desfeito de tal forma que, quando regressam do serviço de guarnição, nunca trazem o efectivo inicialmente destacado de soldados e nenhum deles vem armado.

Apontava uma solução para ter aquela gente pronta e capaz de servir: fazer como na cavalaria, em que se tinham dado patentes a 4 comissários gerais, um de cada comarca, e assim deveria ser com os mestres de campo de cada terço de auxiliares, que serviriam sem soldo, sendo somente pagos os sargentos-mores e ajudantes, para assim darem disciplina e instrução militar, o que não acrescentaria despesa de maior reparo. Porque sendo o mestre de campo de cada comarca, assim como a gente do respectivo terço, este marcharia mais facilmente com comodidade e confiança.

Não era somente a infantaria a preocupar o governador. Também a cavalaria da ordenança se encontrava afectada pela falta de cavalos, pois muitos tinham morrido ou ficado estropiados nos últimos 3 anos, e não havia cavalos suficientes na província para se comprarem. D. Rodrigo ordenou que os homens que fossem obrigados a ter cavalos os comprassem, adiantando dinheiro para os que não os tivessem, de modo a mandar vir alguns da comarca de Esgueira.

O Conselho de Guerra ficou satisfeito com as sugestões de D. Rodrigo de Castro e solicitou que a Regente lhe agradecesse o zelo e cuidado com que servia. Em 22 de Março, um decreto régio mandava que se cumprisse o parecer do Conselho.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1657, mç. 17, consulta de 19 de Março de 1657.

Imagem: “Soldados e senhoras elegantemente vestidas jogando no interior de um corpo de guarda”, pintura de Jacob Duck.

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One thought on “A situação militar do partido militar de Riba Coa (província da Beira) nos inícios de 1657

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