Périplo por um campo de batalha – Montes Claros, 17 de Junho de 1665 (3ª parte)

Quando se procede à interpretação de uma batalha, para além da aferição e da comparação da plausibilidade das narrativas gerais ou parcelares sobre o evento, há que ter em consideração que as concepções tácticas e os alcances efectivos e práticos das armas do período estudado (estou a referir-me especificamente ao século XVII, mas é igualmente válido para outras eras) eram muito diferentes das actuais. A apreciação do terreno de batalha, se ele não estiver muito modificado em relação ao que serviu de palco à acção estudada, deve ter em conta esse princípio básico. Recordo que no tempo da batalha de Montes Claros, o alcance prático de um mosquete era inferior a 100 metros, o de um arcabuz ainda menos, o de uma pistola menos de 10 metros (contra couraças havia que disparar à queima-roupa para garantir maior probabilidade de penetração). E que na maior parte dos casos os combates se resolviam à arma branca. Portanto, a distância que separava as primeiras linhas de duas forças dispostas em batalha no início de uma refrega era relativamente reduzida (entre 300 a 400 metros, ou até menos), pois permitia a evolução das tropas a uma distância ainda segura, no caso da infantaria, e os preparativos para o lançamento ou recepção da carga (e do escaramuçar prévio com carabinas) por parte da cavalaria. A extensão de cada uma das linhas dependia do número das unidades e dos efectivos que as constituíam. Convém lembrar que os terços, no terreno, se formavam em esquadrões de 10 filas de profundidade, contando nestas as de mosqueteiros (normalmente as duas ou três primeiras fileiras de cada esquadrão, o qual continha nas alas mais 4 a 5 filas de arcabuzeiros – sobre o significado específico desta terminologia, consulte-se este artigo). E que, na verdade, cada esquadrão podia conter elementos de mais do que um terço, ou destacar mangas de atiradores para outros esquadrões, ou para serem interpolados com a cavalaria, ou para defenderem um ponto específico do terreno, actuando assim como pequenas unidades independentes.

O cálculo da extensão de cada uma das linhas deve levar em conta que os efectivos dos terços variavam muito, mas que cada esquadrão teria em média, no caso concreto da batalha de Montes Claros, entre 500 e 600 homens. Sem esquecer os claros, ou seja, os intervalos entre os esquadrões de infantaria ou os batalhões de cavalaria formados no terreno. Seguindo à risca o que estava determinado nos tratados militares, os claros deviam ter espaço suficiente para permitir a manobra de um esquadrão ou batalhão, o seu avanço ou recuo sem se embaraçar com as unidades amigas que estavam na sua frente ou retaguarda. Mas nem sempre assim acontecia, ou porque a natureza do terreno não o permitia, ou por motivos de coesão das próprias linhas. Foi precisamente o que aconteceu com os batalhões da cavalaria do exército espanhol em Montes Claros, que na sua carga sobre a ala direita portuguesa vieram reforçados, mas com prejuízo do intervalo entre as unidades. Após o sucesso inicial, em que desbarataram as primeiras linhas da cavalaria do exército português, não conseguiram reorganizar-se e foram derrotados pelo contra-ataque levado a cabo pelos portugueses.

Continuemos o nosso passeio pelo campo de batalha, passando às fotografias.

Foto C – A partir da ala direita do dispositivo espanhol (posição ocupada pelos terços de infantaria), olhando para o flanco esquerdo (no terreno mais ao fundo progrediria a cavalaria). À distância, a serra da Ossa. Note-se a natureza relativamente plana do terreno, mas com alguns espaços mais fechados, com pedras, árvores de pequeno porte e matagal, não muito diferente do que é descrito nas fontes narrativas. Foi por causa deste tipo de terreno que o Conde de Schomberg mandou formar um destacamento na vanguarda do exército, comandado pelo mestre de campo António de Saldanha, dos auxiliares da comarca de Tomar, com quinhentos infantes de todos os terços de auxiliares, que levavam ferramentas para abaterem os valados e facilitarem os passos dificultosos. (Ericeira, 1946, IV, pg. 290)

V(C) Spanish initial positionsFoto D – Vista sobre as posições espanholas, a partir do terreno em frente da primeira linha da cavalaria portuguesa, na ala direita do dispositivo (que contava com dois terços de infantaria de reforço nessa primeira linha, os dos mestres de campo José de Sousa Cid e Matias da Cunha, interpolados com seis batalhões de cavalaria). Foi através deste terreno que a cavalaria do exército espanhol progrediu para carregar congénere a portuguesa e os terços atrás mencionados, obtendo algum sucesso inicial.

(D)Foto E – Vista a partir das linhas intermédias e retaguarda do dispositivo espanhol, olhando para o flanco esquerdo, ocupado pela cavalaria. O pequeno lago que se pode ver na foto não existia em 1665.

V(E)

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Périplo por um campo de batalha – Montes Claros, 17 de Junho de 1665 (2ª parte)

As fontes narrativas de que dispomos para o estudo da batalha de Montes Claros são as seguintes:

– D’ABLANCOURT, Frémont (1701), Mémoires De Monsieur D’Ablancourt Envoyé de la Magesté Trés-Chrétienne Louis XIV, en Portugal; Contenant L’Histoire de Portugal, Depuis le Traité des Pyrenées de 1659, jusqu’à 1668, Amsterdam, J. Louis De Lorme.

– ERICEIRA, Conde de (1946), História de Portugal Restaurado, edição anotada e prefaciada por António Álvaro da Silva Dória, Porto, Livraria Civilização, vol. IV.

Relacion verdadera, y pontval, de la gloriosissima victoria que en la famosa batalla de Montes Claros alcançò el Exercito delRey de Portugal, de qve es Capitan General Don Antonio Luis de Meneses Marquez de Marialua, Conde de Cantañede, contra el Exercito delRey de Castilla, de qve era Capitan General el Marquez de Caracena, El dia diez y siete de Iunio de 1665. Con la admirable defensa de la plaça de Villa Viciosa, Lisboa, Officina de Henrique Valente de Oliuera, 1665.

A estas, que definiria como principais, poderia juntar ainda duas outras:

– “A Relation of the last summers Campagne in the Kingdome of Portugall, 1665”, anonymous (by an officer of an English Regiment of Horse), 23 June 1665, The National Archives, London, State Papers Portugal, SP 89/7

– DUMOURIEZ, Charles François (1807), Campagnes du Maréchal de Schomberg en Portugal, depuis l’année 1662 jusqu’en 1668, Londres, De l’Imprimerie de Cox, Fils, et Baylis.

Estas são muito diferentes entre si. A obra de Dumouriez (que não é memorialista nem historiador, mas aventureiro e militar de carreira – um dos generais vencedores da batalha de Valmy em 1792, caído em desgraça perante a Convenção e que passou a servir os ingleses) navega muito à vista de D’Ablancourt e do Conde de Ericeira, não podendo por isso ser considerada fonte primária. Já a relação anónima de um oficial inglês de cavalaria é um manuscrito que traduzi para português num artigo publicado em 2009 (Lusíada, série II, nº 5/6, pgs. 341-355). Devido ao relato muito marcado pelo “nevoeiro de guerra” e ao discurso fortemente laudatório da participação inglesa na batalha, não é uma fonte que possibilite uma percepção geral dos acontecimentos, embora seja muito interessante como memória particular.

Voltando às fotografias publicadas no anterior artigo, comecemos pela primeira, em que se traçou a rota do exército português até ao campo onde se travou a batalha, e se indicou a rota que o mesmo deveria seguir até Vila Viçosa, não fora a chegada do exército espanhol. O Conde de Ericeira refere o seguinte:

(…) se assentou que o exército se pusesse em marcha  quarta-feira dezassete de Junho, com ordem que se tomasse o primeiro alojamento no sítio de Montes Claros, uma légua distante de Estremoz, outra de Vila Viçosa, considerando-se que nele se apartavam dois caminhos que iam demandar: o da mão direita, à serra de Lavra de Noite; o da mão esquerda, o outeiro da Mina, porque, com esta resolução, obrigávamos aos castelhanos, confusos na perplexidade do nosso intento, a dividirem o exército em defesa dos dois fortes que haviam fabricado. E para que a nossa marcha ficasse menos perigosa, na mesma noite de quarta-feira havia de ocupar um troço do exército a serra da Vigaira, que ficava eminente ao outeiro da Mina, e conseguido este intento, ganhar-se na mesma noite a serra de Barradas, distante da Vigaira um tiro de pistola, porque, ocupados estes dois postos, não parecia dificultoso socorrer a praça (…).

O dia antecedente havia dado ordem o Conde de Schomberg ao comissário geral Bartolomeu de Barros [Caminha], que aquela noite saísse com seis batalhões [unidades tácticas de cavalaria] e ocupasse a serra da Vigaira e outras quaisquer eminências mais vizinhas ao exército que lhe fosse possível, e prontamente fosse mandando avisos de todos os movimentos que observasse; porém, a ordem se distribuiu tão confusamente, que Bartolomeu de Barros não saiu de Estremoz senão ao amanhecer do mesmo dia da batalha (…)

Neste tempo marchava, avançado do exército, o comissário geral Bartolomeu de Barros, levando os seis batalhões (…), pretendendo observar os movimentos dos castelhanos de algumas das eminências superiores àquela campanha, sem reparar que haviam ocupado o alto da serra da Vigaira as companhias da guarda do Marquês de Caracena. (Ericeira, 1946, IV, pgs. 288-291)

O comissário geral recebeu então ordem do Conde de S. João para que fizesse alto, e não se expusesse demasiado ao perigo. No entanto, a narrativa do Conde da Ericeira parece estar depurada, no que toca a este episódio, de uma eventual responsabilidade do general da cavalaria Dinis de Melo de Castro. Segundo D’Ablancourt, teria sido o general o responsável por enviar apenas 30 cavaleiros em reconhecimento à serra da Vigaira, tendo estes recuado quando viram a eminência ocupada pelo Marquês de Caracena. O Conde de Schomberg repreendeu Dinis de Melo pelo facto de não ter cumprido as ordens escritas, pois devia ter enviado os seis batalhões de cavalaria na noite anterior, o que não fez (D’Ablancourt, 1701, pg. 239).

Onde ambas as fontes coincidem é no facto de o terreno onde se desenrolou a batalha ser aquele que se estende pela planície irregular, com pequenas elevações, vinhedos e zonas de vegetação densa, em frente da serra da Vigaira.

Chegado o Conde de Schomberg à eminência que ocupava o Conde de S. João e o general da artilharia [D. Luís de Meneses], observaram que os batalhões da cavalaria inimiga sucessivamente vinham saindo à campanha, havendo estado cobertos com a serra da Vigaira. (Ericeira, 1946, IV, pg. 293)

Neste tempo vimos aparecer dez esquadrões castelhanos [D’Ablancourt utiliza o termo “esquadrão” para a unidade táctica da cavalaria, que ao tempo, entre portugueses e espanhóis, era designada por batalhão], que saíam por um vale que vinha por detrás da montanha de Montes Claros [a serra da Vigaira]; dez outros seguiam-se e em pouco tempo vimos duas linhas formadas que preenchiam toda a frente do vale, que iam aumentando do lado dos portugueses, cada linha tinha 22 esquadrões e estava distante da direita dos portugueses um tiro de canhão. (D’Ablancourt, 1701, pgs. 239-240; tradução minha)

Note-se que quando o exército espanhol iniciou o seu desdobramento, o exército português ainda estava formado em duas linhas, em marcha de costado, e com a vanguarda na direcção de Vila Viçosa, seguindo a rota que pretendia tomar para aquela localidade.

Para as fotos que a seguir são apresentadas, tome-se como referência a fotografia de satélite publicada no artigo anterior.

Foto A – Local onde se ergue o padrão comemorativo da batalha, um pouco à frente da primeira linha do exército espanhol, sobre o lado direito (onde estava disposta a infantaria).

V(A) Montes Claros MemorialFoto B1 – Vista a partir de um local adiantado ao flanco direito do dispositivo espanhol; tal como em 1665, toda a zona se encontra preenchida por vinhas.

V(B) Spanish rightFoto B2 – Do mesmo local, mas olhando para a serra da Vigaira, que em 1665 provavelmente não apresentaria vegetação tão densa como a que hoje a cobre.

V(B) Vigaira on the background

Périplo por um campo de batalha – Montes Claros, 17 de Junho de 1665 (1ª parte)

O objectivo desta pequena série de artigos é dar a conhecer o estado actual do campo onde se travou a batalha de Montes Claros. Recentemente considerado património nacional, graças ao empenho do Dr. Alexandre Patrício Gouveia e da Fundação Batalha de Aljubarrota, fica assegurada a sua preservação e abrem-se boas perspectivas para a construção de um núcleo museológico e interpretativo, a exemplo do que já existe em S. Jorge (batalha de Aljubarrota).

Todavia, muito está ainda por fazer quanto à interpretação da batalha. O estudo mais recente (Gabriel Espírito Santo, Montes Claros, 1665 – A Vitória Decisiva, Lisboa, Tribuna da História, 2005), conquanto tenha os seus méritos na maneira como procura integrar o acontecimento no contexto histórico-militar do período, falha precisamente no essencial: a identificação do terreno e a disposição das forças em confronto. Infelizmente, em alguma historiografia militar portuguesa tem existido a tendência para seguir à letra determinadas fontes narrativas sem as questionar, e descurando a pesquisa arquivística e o confronto com fontes históricas mais diversas. O resultado é a perpetuação de erros e mitos, que só um trabalho meticuloso de análise permite corrigir e desmontar.

Com este pequeno périplo pelo campo de batalha de Montes Claros, encetado no terreno há pouco mais de dois anos, tentarei justificar a minha interpretação acerca de onde e como se desenrolou a maior e mais importante batalha da Guerra da Restauração. Para estimular a curiosidade, deixo aqui, de momento, somente as primeiras fotografias, (retiradas do programa Google Earth). Os textos explicativos e a fundamentação do que aqui apresento irão sendo introduzidos a seu tempo.

Na primeira foto (Google Earth) assinalei a verde a marcha de aproximação do exército português comandado pelo Marquês de Marialva. A amarelo, a marcha que este general tencionava fazer com o mesmo exército rumo a Vila Viçosa, então cercada pelo exército espanhol sob o comando do Marquês de Caracena. Etapa que não chegou a efectuar-se, porque o Marquês de Caracena se antecipou na manobra e saiu ao encontro dos portugueses.

1 Route of approach of the Port Army (GoogleEarth)Na segunda foto, também de satélite, assinala-se:

– a amarelo, a marcha do exército espanhol comandado por Caracena, vindo de Vila Viçosa;

– a azul e a vermelho, as primeiras linhas do desdobramento inicial dos dispositivos português e espanhol, respectivamente (aqui apresentadas a título informativo, sem detalhe quanto às unidades ou à disposição da infantaria, cavalaria e artilharia, e omitindo as restantes linhas);

– o ponto vermelho assinala (aproximadamente, pois é impossível fazê-lo com exactidão) o local que o Marquês de Caracena escolheu para permanecer durante a batalha, na serra da Vigaira – à rectaguarda e sobre a direita do dispositivo espanhol; daí tinha uma excelente visão do campo de batalha, mas sem possibilidade de intervir prontamente e em pessoa na refrega, ao contrário do que sucederia com o Marquês de Marialva e o Conde de Schomberg;

– com letras, a referência dos locais por mim fotografados e que serão aqui publicados e identificados nas próximas entradas.

Montes Claros Google