Périplo por um campo de batalha – Montes Claros, 17 de Junho de 1665 (8ª e última parte)

(Q)Foto Q (acima) – Local onde se formaram as linhas da cavalaria portuguesa, na ala direita do dispositivo português. O caminho que se vê na fotografia passa pelo local onde provavelmente estariam formados os batalhões da terceira linha. Ao fundo é reconhecível a zona onde o batalhão do extremo da primeira linha ficou formado:

No lado direito em o fim da várzea, onde a serra de Ossa tem princípio por aquela parte, se assinalou posto ao primeiro batalhão de cavalaria, e era o terreno que corria para a mão direita tão embaraçado de sanjas e valados, que ficava a cavalaria segura de ser atacada por aquele flanco; porém, alterada a forma, ocupou inutilmente este terreno. Deste sítio para o lado esquerdo continuava a campanha rasa (…). (Ericeira, 1946, IV, pg. 294)

(R)Foto Q (acima) – Na retaguarda das linhas de infantaria do exército português, sensivelmente na zona onde ficou posicionada a reserva. O terreno em frente e para a direita desta foto foi muito disputado e terá sido aqui que se jogou a fase decisiva da batalha, quando a sorte das armas podia ainda pender para qualquer dos lados e o exército espanhol parecia em condições de derrotar o português.

(…) [Os espanhóis] investiram valorosamente o corpo da infantaria e cavalaria [portuguesa] que lhes ficava oposta e, rompendo-o, chegaram até à vanguarda da segunda linha da infantaria e da terceira da cavalaria. Acudiu Dinis de Melo com grande prontidão e valor ao remédio deste dano, reforçando a peleja com novos batalhões, sem perder terreno nem mudar forma. A mesma constância tiveram os terços de Tristão da Cunha, Francisco da Silva e João Furtado; porém, ainda que repetiram incessantes cargas [tiros], entraram mais de mil cavalos pelo claro dos terços de Tristão da Cunha e Francisco da Silva, onde estava o general da artilharia [D. Luís de Meneses] e o Conde de São João e, atropelando algumas mangas da guarnição do lado direito do terço de Francisco da Silva, deixaram ferido ao mestre de campo e mortos trinta oficiais e soldados. (…)

O Conde de Schomberg, vendo que nesta parte era mais vigoroso o conflito, acudiu a ela com tão perigosa resolução, (…) que lhe foi preciso romper pelos batalhões inimigos para chegar ao posto onde estava o Marquês de Marialva, (…) socorrido dos seus três valorosos filhos com seus batalhões, do Conde de Rosan com a sua companhia e do Conde de Maré com o seu regimento (…). Os inimigos, perplexos na resolução que deviam tomar, intentaram romper os batalhões a que assistia Pedro César [de Meneses], Francisco de Távora e Bernardino de Távora; porém, achando-os constantes e impenetráveis, voltaram, perdida a resolução e mortos muitos oficiais e soldados, pela mesma parte por onde haviam investido, entendendo que poderiam romper pela retaguarda os três terços que primeiro encontrararm. Porém, desvaneceu-lhes esta suposição o Conde de São João e o general da artilharia, por haverem dado ordem às três últimas fileiras que voltassem as caras à retaguarda, calada a picaria e prevenidas as bocas de fogo, o que prontamente executaram, animados dos mestres de campos e oficiais, com tão feliz efeito que obrigaram aos inimigos a voltarem com furiosa torrente pelo mesmo claro por onde haviam investido (…). (Ericeira, 1946, IV, pgs. 300-302)

Termina aqui esta série de artigos sobre o campo de batalha de Montes Claros, tal como se encontra na actualidade. Procurou-se assim dissipar as dúvidas acerca do verdadeiro local onde a peleja teve lugar, tarefa sempre difícil, mas que uma análise cuidadosa das fontes permite estabelecer com alguma segurança.

Todas as fotos devem ser referenciadas pelas letras, usando o mapa apresentado na primeira parte desta série de artigos.

4 thoughts on “Périplo por um campo de batalha – Montes Claros, 17 de Junho de 1665 (8ª e última parte)

  1. Bom dia,
    Já há algum tempo tinha entrado em contacto consigo, através deste seu blog, na tentativa de identificar o nome de um cavaleiro que aparece num certificado militar do período da guerra da restauração, assinado e com o lacre do conde de Schomberg. Não sei se ainda se recorda.
    Neste momento estou a vender toda a minha colecção de gravura antiga e documentos relacionada com Portugal, o certificado está no meu website ( http://www.gravurantiga.com/mapas-e-documentos/ ). Se quiser pode ir lá dar uma vista de olhos (não precisa de comprar nada…). Depois de bastante investigar, consegui finalmente descobrir quem era o tal cavaleiro (originário de família nobre da Normandia, protestante), só não tenho a absoluta certeza se é o pai ou o filho. Na publicação que encontrei, afirma que seria o filho, o que acho bastante estranho pois supostamente teria apenas 9 anos quando se teria alistado, como oficial (cornette), no regimento de cavalaria. Acho que deve ser um equívoco, daí ter optado por colocar o nome do pai.
    Cumprimentos,
    Gonçalo Sousa

    • Caro Gonçalo Sousa

      Muito obrigado pelo seu comentário. De facto, por vezes surgem algumas incongruências no que respeita a datas, mas no caso vertente deverá ser d’Ablouville pai. Este oficial fez parte da companhia do sargento-mor de cavalaria Bartholomé Blanc, do regimento do coronel Chavet (e foi neste regimento que se bateu no Ameixial), passando mais tarde para o regimento do próprio Schomberg.

      Cumprimentos

      Jorge Freitas

      • Caro Jorge,
        Muito obrigado pela informação. Realmente você sabe imenso sobre a Guerra da Restauração. Este seu blog continua a ser a melhor referência, na internet, sobre esse período da história de Portugal.
        Cumprimentos,
        Gonçalo

  2. Caro Jorge Feitas:

    Desde ja peco-lhe desculpa pela falta de acentos nesta mensagem. O computador tem teclado Turco e o til e acentos para eles nao existem.
    Sou seu colega de Historia, de Coimbra, e faço jogos de guerra – melhor exercitos para jogos de guerra – desde miudo. Pode ver a minhas miniaturas no blog que lhe indico.
    Sigo o seu trabalho desde que li dois artigos seus na Miniatures Wargames. Recentemente dediquei-me ao periodo da Guerra da Restauraçao e arranjei os seus dois livros (o combatente e a cavalaria) e tive por isso uma excelente base para começar. Recentemente tenho lido os livros do Luis Costa e Sousa para ir buscar mais base teorica ao final de quinhentos. Claro, tambem lhe juntei a leitura dos livros da Tribuna das Batalhas de Portugal.
    Quero fazer todas as unidades da batalha de Montes Claros com as regras da Impetus usando as figuras de plastico da Revell.
    Tinha por isso umas questoes para lhe fazer (por agora…)

    1- Acha correto, nas bases do sistema İmpetus, a representaçao que fiz dos esquadroes de infantaria portuguesa e espanhola, com 2 grupos de arcabuzes laterais e um central de piqueiros, a 3 filas cada, total de 21 figuras? Pode ver as fotos no meu Blog.

    2- Como acha que deveriam ser representados os alemaes do lado espanhol? Landsknechts? com Doppelnsoldners ou so piques e arcabuzes?

    3- Tem ideia de algumas bandeiras usadas pelos regimentos Franceses e İngleses em Montes Claros?

    4- Tem alguma OB detalhada do lado Espanhol ?

    Se me puder ajudar agradecia imenso. Preferi ir direto ao papa em vez de perguntar aos bispos porque penso nao haver ninguem que saiba mais do que o meu amigo sobre o assunto.

    Obrigado e abraço
    Joao Pedro Peixoto

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