A última campanha de Mateus Rodrigues – a reconquista de Mourão, Outubro-Novembro 1657 (6ª e última parte)

StoopDirk1784

Logo que Francisco Pacheco aceitou ficar na praça, mandou arrimar ao terço as armas e marcharam logo para dentro da praça em companhia do senhor Joane Mendes e mais senhores do governo (…). Assim como a nossa gente entrou (…), já o inimigo estava posto em via para marchar fora, com suas armas às costas e bala em boca e mecha calada, e a cavalaria, que eram 80 cavalos, começaram a ir saindo (…) da praça, a formar-se lá fora dela, até que fosse saindo as suas bagagens, que se andavam carregando dentro em cavalgaduras nossas, que lhe deram para isso até dentro de Olivença, que são de Mourão lá sete léguas.

(…) Foram marchando os castelhanos com a cavalaria diante e o seu governador e logo a infantaria atrás, onde iam muitos feridos, e já digo que seriam 300 homens com a cavalaria pouco mais ou menos. Em a praça deixavam enterrados alguns mortos, que sempre seriam mais de 30 homens, mas os feridos passavam de 40 homens.

Antes que este inimigo saísse da praça (…), marcharam todos os nossos terços e a cavalaria para junto da estrada por onde o inimigo havia de passar, para que visse o nosso poder, que no que toca à nossa infantaria, nunca houve reino que em campanha bote tão boa infantaria e toda de uma só nação, que se admiraram os castelhanos vendo tal gente.

Estavam os terços como digo em ala com as armas nas mãos em pé pela borda da estrada adiante, e no cabo deles toda a nossa cavalaria em batalhões formada, e tudo fazia comprimento de meia légua. Foi passando o inimigo ao pé da nossa gente e não se falava palavra de uma e outra parte. Ia diante deles também o senhor mestre de campo general André de Albuquerque [Ribafria] e o senhor Dom Sancho [Manuel] diante com o governador castelhano. E assim como este seu governador da praça foi passando pela nossa infantaria, ficou tão admirado que disse “Boto a Cristo que se El-Rei de Espanha houvera tal infantaria como é esta, que fora senhor de todo o mundo”. De modo que foram marchando até acabarem de passar por toda a nossa gente, e ali fizeram alto até que acabou de chegar toda a sua bagagem e logo mandaram eles de comboio a cem cavalos, a saber: a minha companhia e a do tenente-general Dinis de Melo, mas ele não foi lá, senão o seu tenente Manuel Dias Veloso, e o meu capitão Pedro César de Meneses por cabo das duas tropas. Lá fomos comboiando a este inimigo até um lugar despovoado chamado Cheles, que são três léguas de Mourão, e ali já estavam outros cem cavalos de Olivença, do inimigo, aguardando por eles, por se lhe haver já mandado aviso para que viesse em busca deles. Ali fez o meu capitão entrega do comboio que levava e despediu-se deles, porque naquele dia até noite havia trégua de posses para efeito de se recolher aquela gente. Marchando logo foi o inimigo para Olivença e nós nos voltámos para o nosso exército, chegando ao quartel quase à meia-noite e muito bem molhados, que todo aquele dia choveu muito. E ia o nosso exército muito enxovalhado por causa do tempo, que não pode haver inimigo mais contrário que o tempo.

Vendo o senhor Joane Mendes o estado em que estava a praça de Mourão, que uma ovelha entraria pela brecha que tinha, e muito desmantelada, não se quis abalar com o exército até que não o pusesse em via de defesa e ficar mais segura.

Logo Francisco Pacheco, que (…) ficou na guarnição da praça com o tenente e com mais gente que lhe deram e muitos pedreiros começaram bravamente a taparem a brecha do muro grande, que era o principal e mais conveniente para ficarem mais descansados, e tiveram tanto trabalho que mais de trinta noites dormiram ao pé da muralha vestidos e calçados, até que se acabou de tapar a brecha. E como esteve tapada, começaram então as mais obras necessárias, mas o senhor Joane Mendes [de Vasconcelos] não esteve na campanha mais de dois dias depois que o inimigo despejou, que mais tempo havia de estar se o tempo dera lugar, mas como havia rio de passar, que é Guadiana, não se podia fazer dilação da outra banda mais tempo do que se fez, porquanto o tempo se vinha chegando muito de chuva.

Aos trinta e um dias do dito Outubro se abalou o nosso exército para suas praças (…). Ficou Francisco Pacheco [Mascarenhas] (…) na guarnição da praça com 700 homens infantes, muito boa gente, e duas tropas de cavalo, e desde a hora que ele tomou entrega da praça, que foram 28 do dito Outubro, até à hora que me ausentei, que foram em 15 do mês de Abril de 658, ficava já a praça de Mourão em tal altura que o inimigo não tinha que vir buscar a ela (…). (MMR, pgs. 441-445).

Note-se que Mateus Rodrigues refere que se ausentou de Mourão a 30 de Março de 1658 (vide 5ª parte desta narrativa) e aqui data a sua partida em 15 de Abril do mesmo ano. A discrepância justifica-se pelo facto da segunda data se aplicar à retirada definitiva do Alentejo por parte do memorialista.

Imagem: Cena de batalha, gravura de Dirk Stoop.

8 thoughts on “A última campanha de Mateus Rodrigues – a reconquista de Mourão, Outubro-Novembro 1657 (6ª e última parte)

  1. Durante a pesquisa para a construção da minha árvore genealógica encontrei um ascendente que ‘foi morto’ no Alentejo em 1645 durante as Guerras da Restauração. O seu nome era Manuel Moreira, nascido no Espinhal (Penela) em 1618. O assento de óbito de 16 de Abril de 1645 refere que “receberam novas” de que teria sido morto no Alentejo e o historiador que o cita diz que foi um herói da Restauração. É possível saber-se algo mais sobre a circunstância da morte deste meu ascendente?
    Antecipadamente grato,
    Américo Oliveira

  2. Em tempo.
    Gostaria particularmente de saber – ou ter uma ideia aproximada – se seria soldado profissional ou miliciano, em que batalha terá perecido e onde teria sido sepultado. É certo que não haverá resposta objectiva para estas questões mas talvez hipóteses prováveis…
    Renovando antecipados agradecimentos,
    Américo Oliveira

  3. Caro Américo Oliveira

    Peço desculpa pelo atraso com que respondo. Não deixarei de estar atento ao nome que refere. O facto é que não tenho nenhuma referência, nos meus documentos e ficheiros, a respeito de Manuel Moreira. Ajudaria imenso se me pudesse dizer qual a patente e se era um militar de cavalaria ou de infantaria.

    Votos de um Bom Ano de 2015.

    Cumprimentos
    Jorge Freitas

    • Boa noite.
      Muito obrigado pelo seu cuidado e interesse manifestado pelo meu caso.
      Apesar de todos os meus esforços não me foi possível adiantar mais nada oa que já sabia. Dado que se trata de filhos de pequenos agricultores creio que se tratará de um mero soldado de infantaria.
      Ainda este ano passei pelo Arquivo Histórico Militar em Lisboa e nada consegui.
      Em todo o caso já sei que das companhias de ordenanças criadas logo a seguir à Restauração, uma delas tinha sede no Espinhal, freguesia de Penela, onde morava este meu ascendente,
      Sei também que um capitão de nome D.Tomás Velasques Sarmento (de origem espanhola) que vivia no Espinhal se notabilizou na ofensiva do Outono de 1644 no Alentejo e, por isso, pode tê-lo por lá acompanhado, não sei…
      Se por acaso lhe chegar ao conhecimento alguma informação relacionada com esse meu ascendente ou da sua companhia de ordenanças, ficar-lhe muito grato que disso me desse notícia.
      Muito obrigado.
      Cumprimentos.
      Américo Oliveira

      • Caro Américo Oliveira,

        Será muito difícil conseguir alguma informação respeitante ao seu antepassado, dado que no século XVII só muito ocasionalmente aparecem registados os nomes de soldados. Poderá acontecer, no entanto, que nos Livros de Registo do Conselho de Guerra apareça alguma petição (normalmente, para dispensa de serviço militar), ou o nome esteja incluído em algum rol de reconduçoes,de docentes ou feridos. É uma hipótese remota, mas possível.

        Com os melhores cumprimentos

        Jorge Freitas

  4. Caro Senhor Jorge de Freitas,
    Mais uma vez, obrigado pela atenção dispensada.
    Pois, pode acontecer. Vou tentar a consulta no Arquivo Histórico Militar, em Lisboa, onde suponho possa encontrar os Livros de Registo do Conselho de Guerra que refere.
    Em todo o caso, se encontrar alguma informação sobre esse meu antepassado ou mesmo sobre a movimentação pelo Alentejo das companhias de Ordenanças de Penela, ficaria muito grato se disso me desse conhecimento.
    Com os melhores cumprimentos e renovados agradecimentos,
    Américo Oliveira

  5. Caro Senhor Jorge de Freitas,
    Sabe-se alguma coisa de Mateus Roiz (Rodrigues) o autor do célebre manuscrito tão citado nos seus escritos? Quem foi, de onde era natural, a sua idade, etc…
    Tenho um familiar com o mesmo nome, natural da Ega, Condeixa-a-Nova, que embora desconheça a data do seu nascimento, sei que a sua filha nasceu em 1666, compatível, pois, com a datação dos relatos que fez no manuscrito.
    Enfim, deve haver outros ‘Mateus Rodrigues’ por essa altura mas não quero deixar de verificar, tanto mais que na net não consegui encontrar qualquer dado biográfico do autor.
    Cumprimentos.
    Américo Oliveira

    • Em tempo.
      Na verdade desconheço o local de nascimento do meu Mateus Rodrigues, apenas sei que era morador na Ega, concelho de Condeixa-a-Nova, à data do nascimento da filha…

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