André de Albuquerque Ribafria e a incursão a Valência de Alcântara (Junho de 1651) – parte 1

De regresso às memórias do soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz), encontramos a narrativa de uma incursão levada a cabo pelo general da cavalaria André de Albuquerque Ribafria a terras de Valência de Alcântara. Ou melhor, a ousada tentativa de tomar aquela bem fortificada vila, numa antecipação do que só sucederia, de facto, daí a 13 anos. Passemos à narrativa:

Assistia em a praça de Castelo de Vide, de guarnição, o capitão de cavalos Duarte Lobo da Gama; e tinha uma grande companhia de cavalos neste tempo, que passavam de 100, e havia já 5 ou 6 anos que ali assistia. E Valência de Alcântara, que é uma vila do inimigo toda murada, com um bom castelo e vila de 800 vizinhos. Com esta tal vila tomaram os nossos generais tal teima que haviam lá ido já duas vezes com poder fora esta, mas de ambas ficámos mui mal de partida […]. De sorte que esta Valença não está de Castelo de Vide mais que três léguas [cerca de 15 km], e suposto que esta vila tem sempre uma [ou] duas companhias de cavalo, contudo este Duarte Lobo nunca jamais saía dela com a sua companhia, que lhe trazia tudo quanto andava fora e sabia aquela campanha a palmos, e pelo decurso dos tempos foi tomando o pulso à vila. Que veio o tempo das eiras, do qual lhe viu este capitão tantos riscos no modo com se haviam em a debulha, que quando eram horas de jantar [ou seja, a “hora de almoço” dos nossos tempos] e à tarde não ficava na vila mais que uns velhos e umas velhas, que toda a mais gente se saía fora às ervas que se faziam em o rossio, que fica da muralha um tiro de mosquete à roda da mesma vila. E vendo este nosso capitão a largueza com [que] esta gente se alargava toda com tanta facilidade, que tomou motivo para vir a dar parte disto ao mestre de campo general Dom João da Costa e ao general da cavalaria André de Albuquerque.

De maneira que veio Duarte Lobo de Elvas e deu miúdas contas a Dom João da Costa sobre a matéria, e ao general da cavalaria, dizendo-lhe que se acaso tivessem tanta ventura que colhessem a gente fora da vila em as eiras, que não havia duvidar de se tomar a vila. Mas que havia de ser necessário tratar-se a coisa com muito segredo, por que não houvesse algum aviso, pois o caso era de grande perigo havendo de acharem a gente dentro quando avançassem à vila. De modo que informado mui bem no caso, Dom João da Costa o consultou com André de Albuquerque, general da cavalaria, o qual ocupou logo Dom João da Costa que havia de ir conseguir a dita empresa.

Que quem bem souber a jornada que foi e a traça e ordem com que queriam tomar esta vila dirá quem o entender, que não era possível conseguir-se desta jornada senão muitas desaventuras e que nunca jamais ninguém tal podia fazer.

De modo que se foi Duarte Lobo para Castelo de Vide deixando já os nossos generais consertados de se aprestar a jornada. E assim que logo se começou a aprestar com tal segredo que não houve jamais ninguém que imaginasse coisa alguma senão quando íamos marchando para Portalegre, que por aí era a nossa marcha. Mas como ia tão pouca gente nunca jamais podíamos suspeitar que íamos a Valença, porquanto havíamos já lá ido duas vezes, uma com 4.000 homens e ficaram lá mais de 500, e a outra vez com 3.000 homens e ficaram lá mais de 600. E assim que nunca jamais nos podia persuadir que lá iríamos.

Contudo, como fizémos a marcha direitos a Castelo de Vide, que nem dentro da vila fomos senão meia légua [cerca de 2,5 km] de fora da vila e já o terço de Castelo de Vide estava fora e a companhia de cavalos do mesmo Duarte Lobo. E assim como nos incorporámos todos, fazíamos número de 1.000 infantes e 800 cavalos, e assim como nos quisemos pôr em marcha logo se averiguou a certeza do que até então o tínhamos em grande dúvida. Mas se bem é verdade não havia soldado nem capitão que não fosse já lançando as contas ao grande perigo que se nos oferecia, vendo que era impossível o livrar dele.

Marchámos dali do pé de Castelo de Vide, e quando quis marchar o general com a gente foi por todas as tropas dizendo aos capitães que se havia algum cavalo nas suas companhias que relinchasse ou desse coices, que os tirassem para fora, porque os havia de mandar para Castelo de Vide por não ser sentido, porque já dali adiante era terra arriscada a sentirem-nos. Mas bem escusávamos tantos segredos, que tão público era já para com o inimigo, porque como o terço de Castelo de Vide havia 4 ou 5 dias que estava avisado para ir connosco, mas não sabiam donde, mas como desta vila de Castelo de Vide não fica outra entrada senão para Valença, em tendo a gente desta vila algum aviso para se aprestarem, logo botam os sentidos que seja para irem a Valença. E como com o aviso que tinham, havia já um rom-rom de que a ida seria a Valença.

Estava em esta vila de Castelo de Vide um trombeta de Marvão. E assim como ouviu as novas que corriam, fez que se ia para Marvão e deu consigo em Valença. E assim como chegou disse que ouvira dizer em Castelo de Vide que estavam esperando por gente que havia de vir de Elvas e que haviam de ir lá. Assim como o governador de Valença ouviu ao trombeta a nova, logo avisou pela posta a Badajoz e preveniu-se muito bem, vendo em que parava aquela notícia, que como estava já escaldado de duas vezes que haviam lá ido, prevenia-se logo a qualquer notícia que tivesse.

(continua)

Fonte: MMR, pgs. 267-270.

Imagem: Valência de Alcântara; perspectiva dos arredores a partir da fortaleza, na actualidade (foto de JPF).

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