Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 1)

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Foi-me remetido pelo estimado amigo Juan António Caro del Corral, há já alguns anos e sob a forma de fotocópia autorizada, um manuscrito em língua castelhana acerca dos acontecimentos desenrolados no teatro de operações da Extremadura, durante a Guerra da Restauração, no período compreendido entre 1655 e 1656. Dado o objectivo de divulgação histórica deste blog e o valor intrínseco deste documento, inicia-se aqui a transcrição (numa tradução para português) do referido manuscrito, intitulado “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384). No final será feita uma análise das situações nele referenciadas, comparando com casos similares apresentados em documentos coevos portugueses.

Estremadura, Ano 1655

Por fim deste mês de Fevereiro saiu desta praça [Badajoz] Don Diego Cavallero, general da artilharia do exército, a quem Sua Majestade fez general da cavalaria da Catalunha.

Poucos dias depois se deu a artilharia deste exército a Don Gaspar de la Cueva, irmão do Duque de Albuquerque. E por haver morrido em aquele tempo o Conde de Tronçan, governador político e militar de Alcântara e seu distrito, se lhe deu também a Don Gaspar aquela ocupação, que ele solicitou vivamente, persuadido, segundo dizem, porque era aquele governo de grandes conveniências. Mas desenganado brevemente, fez denúncia [ou seja, quitação] dele sem haver saído da Corte, e se deu ao Conde Don Felix de Zuñiga, cavaleiro sevilhano que serviu, segundo se diz, em Alemanha, e se lhe deu com o título de general da artilharia de Sevilha, que tinha seu antecessor.

Por estes dias vieram algumas tropas de infantes de Sevilha, e da Corte dos irlandeses que ali levanta o sargento-mor Don Ricardo. E porque em Albuquerque e Valência de Alcântara não havia infantaria forasteira, por haverem-se ajustado as companhias da Província que guarneciam aquelas praças, se enviaram cinquenta ou sessenta irlandeses a cada praça, os quais se mudam desta praça cada mês ou cada dois meses.

Também vieram por esse mesmo tempo 200 infantes de Jaén, que levantou ali o mestre de campo D. Pedro de Viedma, e os conduziu seu sargento-mor e quatro capitães, e ficou Viedma com outros capitães para continuar a leva, que há-de ser de mil infantes, para cujo efeito de despacharam deste exército dois oficiais de soldo com o dinheiro necessário. Pareceu esta gente de Jaén melhor que a de Sevilha, mas também fugiram alguns deles, [tal] como dos sevilhanos, não obstante que o socorro [ou seja, dinheiro e víveres] se tenha continuado com pouca ou nenhuma interpolação. A pouca inclinação à guerra, a carestia do lugar, que é grande, e finalmente o trabalho contínuo de estar de guarda ordinariamente os vai arrolando cada dia daqui, que como nunca chega a haver a guarnição necessária em esta praça, pelo vagar com que se levanta esta gente é preciso que esses poucos que há façam as guardas e todas as demais tarefas, que houvera algum alívio se essa gente viera junta e não em partes.

Por estes dias entrou sem ordem em Portugal uma partida de dez ou doze tenentes vivos e reformados e outros oficiais e pessoas particulares, e trazendo uma presa de 80 rezes maiores, saiu outra partida de Arronches algo maior em número. Porém vendo o desenfado e resolução com que os nossos os procuravam na escaramuça, consideraram que era toda gente escolhida [ou seja, soldados escolhidos pela experiência e veterania, como que de elite] e nunca ousaram cerrar [ou seja, carregar]. Porém vieram sempre à vista, para se poderem lograr de alguma situação de descuido, como sucedeu, porque a nossa partida, desvanecida de ver o temor ou tibieza dos contrários, resolveu fazer alto e descansar um pouco da noite de trabalho da marcha, que havia sido grande. Assim se puseram a dormir como se não houvera inimigo no mundo, o qual, por assegurar-se se os nossos dormiam ou só haviam feito alto um pouco para descansar, se confirmou que dormiam e que estavam para demorar, vendo que ia outro soldado mudar o posto. Então, cerrando com os sentinelas, os prenderam, e carregando de improviso sobre os demais, que quase todos se encontravam a dormir e descuidados, prenderam oito ou dez e tiraram-lhes a presa e os cavalos. Só escaparam alguns poucos, e porque foram sem ordem, prenderam dois tenentes vivos que tinham ido com eles.

Outro dia, havendo saído desta praça uma manhã a guarda a bater e a pôr as sentinelas, chegou uma partida à casa d’El-Rei para deixar ali, segundo é costume, uma sentinela, e havendo-a posto sem reconhecer a casa, foi dando a volta a outros postos. Encontrava-se dentro o negro de Campo Maior com 4 cavalos, que é um partidário famoso, o qual se havia escondido ali por não poder escapar-se de outra sorte das nossas partidas que haviam saído a bater. E vendo a que se encaminhou à casa, esteve resolvido a render-se, mas como viu que não haviam reconhecido a casa, quiçá parecendo-lhes que o inimigo não viria a emboscar-se no mesmo posto onde se põe a sentinela nossa, logo que viu sozinhas as sentinelas, e desmontadas, saiu muito silencioso com os seus e as prendeu, e se foi a Campo Maior sem oposição por descuido dos nossos, pois só as sentinelas eram bastantes para prendê-lo dentro da casa, se a tivessem reconhecido.

(continua)

(fls. 250-251)

Imagem: Cavaleiros num campo, óleo de Philips Wouwerman, século XVII.

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