Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 7)

Por este mesmo tempo veio ordem de Sua Majestade a este exército, para que o dinheiro que pagava a Província, dos sete quartos pela infantaria, e o do resgate do quartel da cavalaria, se distribuísse precisamente cada dinheiro em infantaria e cavalaria; e que os mestres de campo generais não cobrassem destes efeitos seus soldos, senão dos destinados para a capitania geral, e assim se tem observado desde então até agora.

Pelo princípio deste mês chegou ordem de Sua Majestade para que se fizessem 200 cavalos deste exército à costa da Andaluzia, para sua defesa, por estar à vista de Cádiz uma armada de Cromwell de 58 embarcações. Foi por cabo deles o capitão Don Diego de Pulgar. Os outros três foram Don Juan de Alvarado, a companhia do Marquês de Aguilar e a de Don Luís Berrio. E ainda que se encontrasse esta fronteira com pouquíssima cavalaria, não se replicou à ordem; antes que para fossem cumpridos os 200 cavalos, se retiraram ramos [sub-unidades] de outras, que se agregaram às quatro companhias.

Em todo este Verão, ainda que haja sido pouquíssima a gente, por haverem fugido todos das levas, e dos irlandeses muitos, e outros que morreram de enfermidade, não houve coisa memorável, ainda que se temeu haverem-se os rebeldes concertado com ingleses e com forças superiores às nossas; só houve algumas presas de gado e de cavalos por diversas partes da fronteira, em que esteve ganancioso o inimigo; porque de coisa de 400 cavalos que este Verão vieram de remonta, tomou em diversas ocasiões mais de 150; que o conhecer nossa fraqueza, e as poucas vezes que de cá se entra [em território português] lhes tem dado atrevimento para discorrer com mais desafogo por todas as partes.

Pelo fim deste mês teve esta cidade um choque com o Duque, sobre a despesa que em sua casa havia, onde se provia mais do que no açougue; e representando duas vezes a cidade ao Duque, ainda que se ofereceu a remediá-lo, não o fez; com que a cidade, com o alcaide-mor Don Baltasar de Tovar, escreveu ao Conselho sobre ele, e com tal segredo que não o soube o Duque senão depois de dois ou três dias. Chamou o alcaide-mor e o tratou, segundo ele se queixou na cidade, mal de palavra. Sobre isto resolveu a cidade enviar um regedor à Corte, a dar queixa ao Rei. Nomeou-se a Don Pedro de Léon, que partiu logo, e com ele o alcaide-mor. Havia grandes expectativas desta queixa, porque se entendia haver outras da Província contra o Duque e se entendia haveria mudança de governo, porém Sua Majestade mandou se dissesse ao regedor que regressasse, e que Sua Majestade ficava com cuidado em dar-lhe satisfação; e assim regressou D. Pedro de Léon. Dizem que não quiseram fazer demonstração aqueles senhores sobre o dinheiro, por respeito do posto, porém se tem por constante mudarão o Duque, ainda que é seu valedor Don Luís de Haro e Don Fernando Ruiz de Contreras.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 335 V-336 V).

Imagem: Parte de um exército em campanha, com infantaria, artilharia e elementos dispersos de um acampamento em primeiro plano; óleo de Peter Snayers, meados do século XVII; MNAA, Lisboa.

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