Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 8)

A 15 entrou aqui o vedor geral Don Antonio Ortiz de Velazco, com o ofício juntamente de procurador e 2.000 escudos de soldo ao ano. Mostrou este cavalheiro muito interesse na distribuição do dinheiro e segundo se crê, traz ordens apertadas de Sua Majestade para dar a mão ao Duque, como o fez, com muita prontidão não só em coisas maiores, como também em outras muito simples. Este começou a executar de pronto a ordem de que o dinheiro da infantaria e cavalaria se distribuísse em seus géneros. O homem é algo altivo e depreciativo, ou seja pelas ordens secretas que trouxe, ou já por ser favorecido do Marquês de Liche, ou finalmente por sua condição natural; e assim responde com desabrimento a quantos vão a pedir-lhe dinheiro, e com palavras de pouca modéstia. Assim não está muito bem quisto com o exército, e ele se encontra pouco agradado aqui.

Por este tempo fez o inimigo algumas presas consideráveis por Jerez e por Albuquerque, no ribeiro dos Riscos [?]. De cá se fizeram também algumas menores pelas mesmas partes.

Em 29 deste se teve aviso que chegaram coisa de 80 cavalos das tropas de Ciudad Rodrigo a Valverde de Gata, sem oficiais nem ordem alguma, com ânimo de fazer por ali entrada. O sargento-mor Don Diego de Rueda, que se encontrava ali, os forçou a recolher ao lugar e alojar, com ânimo de os convencer a que regressassem às suas tropas. Propô-lo a alguns reformados e particulares que vinham entre eles, encarregando-os da acção e oferecendo-lhes dinheiro para voltassem. Não foi possível demovê-los, porque diziam que eles eram homens de bem, necessitados, e que mais queriam remediar-se com o que tirassem de Portugal, do que ir tirando pelos caminhos. Vendo a sua tenacidade, ofereceu-lhes o sargento-mor um capitão com 90 infantes para ocupar um posto por onde precisamente haviam de regressar e o ocupava o inimigo sempre que se tocava arma no Meimão. Com o que, deixando com os 90 infantes outros tantos cavalos, poderiam romper a partida que costumava acudir a ocupar aquele posto de Penamacor. Dispôs-se assim, porém um soldado que vinha seguindo estes outros, preso pelo inimigo lhes disse o intento que traziam os 80 cavalos. Com que o mestre de campo João Fialho, quando eles entraram, se encontrava com as armas na mão, e assim logo que se tocou arma saiu com 400 infantes e 150 cavalos ao posto. Porém, reconhecido dos batedores, o avisaram que havia nele 100 cavalos e 200 infantes, pelo que o Fialho não se resolveu a investi-lo, e ficou ao largo. E quando, retirando-se já os nossos, reconheceu a sua fraqueza, os carregou, se bem que foi já em passagem, que não se perderam mais de 4 cavalos e 3 infantes, e se teriam perdido todos os 80 cavalos, se não levassem a infantaria que o sargento-mor lhes deu para que não fosse a sua entrada tão desatinada, já que não lhe era possível estorvá-la. No entanto, pelo mau exemplo de amparar soldados sem comando, mandou-se fazer a averiguação do caso.

No princípio deste mês entrou o capitão Don Diego Alvarez por Jerez com até 200 cavalos na volta de Moura, donde perdeu 23 cavalos, dos quais alguns lhe rebentaram de cansados. Por isto, e porque em outra presa que os dias passados fez se tomou a maior parte, houve alguma queixa e não pouca disposição para devassá-lo, porém isto se calou.

Pelo fim deste mês levaram os rebeldes uma presa grande de leitões dos montes de Salvatierra e Burguillos, e outra de Sierra de Gata, de gado menor e maior considerável. E pela pouca segurança que há aí nos campos de Alcântara, de onde pastaram até aqui os gados merinos, ficaram este ano sem reunir mais de 60 cabeças.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 336 V-337 V).

Imagem: Combate de cavalaria, período da Guerra dos 30 Anos; óleo de Palamedes Palamedesz (1605-1638).

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