Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 9 – final)

Ano de 1656

A seis de Novembro do ano de 1656 morreu em Lisboa D. João, Duque de Bragança, a quem os portugueses aclamaram por rei no ano de 1640. Deixou um filho príncipe chamado D. Afonso e outro D. Pedro e uma filha. Não se publicou [ou seja, não se tornou pública] a sua morte nas fronteiras por alguns dias, escrevendo a elas por correio todos os cabos [ou seja, oficiais generais e superiores] que se encontravam em Lisboa.

Sentiu-se de maneira geral em Portugal a sua morte, mais pela confusão que lhes causava verem-se sem cabeça, que pelas prendas que nele não havia. Foi muito robusto e pouco polido e apto mais para os exercícios da caça e do campo em que se criou, que para os negócios da Corte, menos na música, em que era destríssimo. Nada era inclinado à guerra; e assim, ainda que tirano […], não se encontrou em exército algum, nem visitou jamais as fronteiras. Favorecia pouco aos soldados, sendo eles, ainda que desabonados, os que o mantinham em sua tirania. Era sumamente parco, portando-se sem fausto algum, assim no vestuário como nas outras cerimónias com que costumam fazer-se adorar os reis. Isto e o mostrar-se muito popular ainda com os mais íntimos, lhe grangeou não pouco afecto com a plebe, a qual, tratada com esta simplicidade, não sabe desejar menos as demais prendas. Deste género de gente favoreceu e levantou alguns sujeitos, de quem fiava mais do que dos da primeira nobreza, castigada por algumas conspirações, que descobriu mais por felicidade, que por astúcia. Foi muito amigo de juntar tesouro e por esta causa era pouco liberal [ou seja, era avaro], de modo que todo o gasto de sua casa o fazia com as rendas do Estado de Bragança, e ainda que contribuiu com grossas somas para França e para o Parlamento de Inglaterra, é fama que tinha muito dinheiro. Morreu de idade de cinquenta anos, havendo tiranizado o Reino de Portugal dezasseis, menos mês e meio.

Logo a 18 de Dezembro deram […] os rebeldes à vista do castelo de Barcarrota com dois mil e quinhentos infantes e mil e duzentos cavalos, quatro peças de artilharia, escadas e petardos. Teve disto o Duque de San Germán algumas notícias antecedentes, pelas línguas que se trouxeram e por avisos que se deram de que o inimigo tinha prevenção de todas estas coisas para ir sobre uma de quatro praças: Badajoz, Talavera, Barcarrota e Jerez. […] Este mesmo dia se trouxe língua de Campo Maior, que disse havia passado por ali o terço de Castelo de Vide na volta de Elvas [ou seja, pelo caminho que conduzia a Elvas] e um dos terços de Campo Maior com tropas daquele lugar; não houve em Badajoz movimento algum mais do que haver avisado às fronteiras para que retirassem o gado.

No dia seguinte chegou aviso do sargento-mor Lafonte, governador de Barcarrota, e do comissário geral Don José de La Artegui, que assistia em La Parra.

Este mesmo dia enviou-se o tenente-general […] Don Gregório Ibarra para que, com aquelas tropas, abrigasse os lugares fronteiros a Barcarrota e tomasse língua do inimigo. E este mesmo dia entraram em Badajoz as tropas de Brozas, Valência, Arroyo del Franco e a de Don Rodrigo Muxica, que se haviam juntado em Albuquerque com o capitão Don Pedro de Quintanal, em número de cerca de trezentos cavalos, para entrar em Portugal no princípio desta semana. E porque das línguas que se tomaram se entendeu que marchava o terço de Castelo de Vide e as tropas daquele lugar, não se resolveram a entrar […] e marcharam para Badajoz por nova ordem que se lhes deu.

A 10 enviaram-se oficiais de todos os terços, para que trouxessem toda a gente da província concentrada, por ser pouquíssima a que se encontrava em Badajoz, não só para fazer oposição ao inimigo, como para defender a muralha, e por isso se mandou tomar arma a todos os vizinhos e com eles se guarneceu a muralha. Porém, porque neste mesmo dia chegou aviso do governador de Barcarrota que o inimigo se havia retirado, e ali havia entrado o comissário geral Don José de La Artegui [com] noventa homens com dois capitães no castelo, se deu nova ordem, supondo que os rebeldes se haviam retirado de todo.

Ainda que neste tempo não se sabia ao certo que tivessem entrado em algumas das suas praças, e assim se estranhou, de forma geral, a facilidade com que cá se asseguraram os chefes, que ainda não constava que o inimigo estivesse desfeito, e podia tomar outro expediente que lhe parecesse, com que viríamos a ficar com as mesmas dificuldades do primeiro dia (não obstante se haver tocado arma em toda a fronteira), por faltar a gente com que guarnecer a mesma.

O inimigo retirou-se e desfez a sua gente, porque havendo reconhecido o castelo de Barcarrota, um engenheiro disse que não era tão fácil a sua expugnação como haviam pensado, e que necessitava de cerco em forma, em cujo tempo se poderiam juntar todas as nossas forças, e não queriam aventurar as suas à fortuna de uma batalha. Ao que se juntou o haver-se atascado as peças uma légua antes de chegarem a Barcarrota, não havendo sido possível desatascá-las com quantas diligências fizeram, o que tiveram eles como milagre a nosso favor, e assim se retiraram a nove, ao meio-dia.

Vinham ali Dom João da Costa, governador das armas; o general da cavalaria André de Albuquerque; e o da artilharia Francisco de Melo, ainda que pouco conformes entre si, por discórdias particulares antigas. Com que, ainda que fossem aquelas suas forças todas pagas, não era de temer que obrassem coisa considerável.

A 14 chegou ordem de Sua Majestade ao Duque de San Germán, para que sem dilação alguma marchasse com toda a diligência à Corte, para conferir algumas coisas tocantes ao seu real serviço. Saiu no domingo 16, às cinco da manhã, havendo despachado algumas cartas, para seguir o correio entre coches, para chegar a vinte. Ficou governando o general da cavalaria don Rodrigo de Muxica.

FIM

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 338-339).

Imagem: Brozas, na actualidade. Foto do autor.

1 thought on “Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 9 – final)

  1. Como siempre, magnífica la información publicada en esta excelente web, que se ha ganado a pulso, desde hace muchos años, el ser considerada como el mejor sitio de la red para informarse fielmente de lo ocurrido en aquel periodo bélico de mediados el XVII.
    Una enorme tarea de investigación y divulgación realizada por el prof. Jorge Penim, a quien todos los interesados en aquella guerra debemos tanto.
    Paralelo a esta última entrada de su blog, acompaño algunas precisiones que, quizás, contribuyan a entender mejor los sucesos narrados.
    1–) El ataque a Barcarrota no ocurrió el día 18 diciembre, tal como se cita en el texto. Realmente fue una semana antes, coincidiendo con la festividad de la Purísima Concepción.
    2–) El número de efectivos que componía el ejército atacante, según fuentes documentales castellanas, se evaluó en 4.000 infantes y 2.000 caballos, a diferencia de los 2.500 soldados y 1.200 caballos que cuantifica el texto (curiosamente también redactado por cronistas castellanos) En todo caso, la guerra de cifras dispares siempre fue una constante a lo largo de la guerra, debiendo tomarse con la debida precaución, comparando las fuentes informativas para tratar de obtener una cifra lo más realista posible.
    3–) Los primeros avisos del movimiento de tropa portugués llegaron a oídos de los oficiales castellanos un par de jornadas antes del referido ataque a Barcarrota. Efectivamente, se supo que desde Campo Maior avanzaban los lusos recogiendo gente de guerra de otras plazas, tales Serpa, Moura, y Mourao.
    4–) San German alertó a toda la comarca, pero la grave falta de efectivos redujo considerablemente el poder enviar socorros con rapidez. Hubo que llamar a soldados que se encontraban de cuartel muy lejos del foco de invasión, por ejemplo, desde el distrito onubense.
    5–) El gobernador militar de Barcarrota, que en el texto se menciona como Lafonte, en realidad respondía al nombre de Juan Bautista Cafonte; en tanto que el comisario general se llamaba José de Larreategui, caballero de la Orden de Santiago, quien contaba con una extensa hoja de servicios (23 años, habiendo estado presente, por ejemplo, en Rocroi)
    6–) San Germán, tal como se cita, después de difuminarse el peligro sobre Barcarrota, viajo a Madrid, dónde, ante la Junta de Guerra, expuso la necesidad de convocar a un potente ejército y, aprovechando la fragilidad surgida tras el fallecimiento de Joao IV y regencia de su esposa, realizar una entrada gloriosa en Portugal. Una campaña, la de 1658, que tendrá como máximo objetivo conquistar Olivenza. La marcha comenzaría el 12 de abril. Pero esa, es otra historia………
    Paralelo a esta última entrada de su blog, acompaño algunas precisiones que, quizás, contribuyan a entender mejor los sucesos narrados.
    1–) El ataque a Barcarrota no ocurrió el día 18 diciembre, tal como se cita en el texto. Realmente fue una semana antes, coincidiendo con la festividad de la Purísima Concepción.
    2–) El número de efectivos que componía el ejército atacante, según fuentes documentales castellanas, se evaluó en 4.000 infantes y 2.000 caballos, a diferencia de los 2.500 soldados y 1.200 caballos que cuantifica el texto (curiosamente también redactado por cronistas castellanos) En todo caso, la guerra de cifras dispares siempre fue una constante a lo largo de la guerra, debiendo tomarse con la debida precaución, comparando las fuentes informativas para tratar de obtener una cifra lo más realista posible.
    3–) Los primeros avisos del movimiento de tropa portugués llegaron a oídos de los oficiales castellanos un par de jornadas antes del referido ataque a Barcarrota. Efectivamente, se supo que desde Campo Maior avanzaban los lusos recogiendo gente de guerra de otras plazas, tales Serpa, Moura, y Mourao.
    4–) San German alertó a toda la comarca, pero la grave falta de efectivos redujo considerablemente el poder enviar socorros con rapidez. Hubo que llamar a soldados que se encontraban de cuartel muy lejos del foco de invasión, por ejemplo, desde el distrito onubense.
    5–) El gobernador militar de Barcarrota, que en el texto se menciona como Lafonte, en realidad respondía al nombre de Juan Bautista Cafonte; en tanto que el comisario general se llamaba José de Larreategui, caballero de la Orden de Santiago, quien contaba con una extensa hoja de servicios (23 años, habiendo estado presente, por ejemplo, en Rocroi)
    6–) San Germán, tal como se cita, después de difuminarse el peligro sobre Barcarrota, viajo a Madrid, dónde, ante la Junta de Guerra, expuso la necesidad de convocar a un potente ejército y, aprovechando la fragilidad surgida tras el fallecimiento de Joao IV y regencia de su esposa, realizar una entrada gloriosa en Portugal. Una campaña, la de 1658, que tendrá como máximo objetivo conquistar Olivenza. La marcha comenzaría el 12 de abril. Pero esa, es otra historia………

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