“De como tivemos um choque com a cavalaria do inimigo em uma atalaia sua” – Outubro 1652 – parte 1

a-cavalry-battle-scene-4960092-en-max, Abraham van der Hoef

Há algum tempo que não era trazido aqui um dos episódios recordados, nas suas memórias, pelo soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz). Um recontro de cavalaria nas proximidades de Badajoz é o tema deste e dos próximos artigos, vertido para português corrente (livre do chamado “acordo ortográfico”).

De quantas jornadas a nossa cavalaria deu e dará, não teve nunca, nem terá tão boa ocasião como foi esta, se se soubera o cabo que ia com ela aproveitar, mas como em semelhantes ocasiões há desmanchos e pouco governo, logo há perdições e desconcertos. Mas a verdade é que a culpa tem quem fia de uns estrangeiros, tanto que não ia com a cavalaria o nosso general André de Albuquerque, que estava doente, senão o tenente-general Achim de Tamericurt, que é francês, e o comissário [geral] Duquesne, que este é o que botou a perder um dos bons dias de honra e proveito que havia de ter a cavalaria de Portugal com a do inimigo, porquanto era vitória alcançada à sua porta, que ainda é mais crédito e honra. Mas por haver [ou seja, apesar de haver] tão grande desordem, ainda houve grande gosto da nossa parte e descrédito do inimigo.

 De modo como o nosso general da cavalaria esteve doente, ordenaram Dom João da Costa, governador das armas [do Alentejo], com o dito tenente-general uma jornada com toda a cavalaria para as partes de Badajoz, a ver se lhe podia armar, de modo que fizesse algum dano às tropas que estavam em Badajoz, que são 14. De modo que ajustada a jornada, avisaram as tropas que estão pelos quartéis de fora para que se juntassem no dia nomeado em Elvas.

 Em o mesmo dia que a cavalaria devia de sair de Elvas, logo pela manhã foram para Olivença oito tropas [companhias] de Elvas, para que o comissário Duquesne, que lá estava, fosse com elas e com as suas que lá tinha, que eram outras oito, que todas dezasseis teriam 700 cavalos; e com uma ordem ao mesmo comissário, que sairia com aquelas tropas aquela mesma noite e que se iria emboscar ao ribeiro da atalaia nova de Badajoz, e assim como viesse a companhia da ronda de Badajoz, que havia de ver logo em os altos da mesma atalaia […], botasse uma partida grossa e a corresse até os olivais de Badajoz, e que ele se pusesse com a demais cavalaria detrás dos mesmos outeiros da atalaia, porque era força que as tropas de Badajoz haviam de sair como raios até ali, em seguimento dos que haviam lá ido diante, e assim como ele visse ao inimigo em modo e tempo de lhe sair, o pelejasse com ele, que em o mesmo tempo havia o dito tenente-general de estar em a ponta de Alcornocal com a demais cavalaria à sua vista, e no mesmo tempo que ele avançasse ao inimigo havia ele de sair donde estava pela campanha acima a bom passo, dando-lhe calor, para que o seguisse com vontade e ânimo.

 Tanto que o comissário lá viu as tropas, logo ordenou a partida, e dando de jantar aos capitães, e de cear, se fizeram alguns como tudescos [“como alemães” – ou seja, embebedaram-se], que essa foi a causa de ele fazer o que fez, porque assim como quis sair de Olivença mandou um soldado a Elvas com uma carta ao mestre de campo general Dom João da Costa, para se afirmar do que havia de fazer, pois que lhe havia esquecido a ordem que lhe haviam dado, por amor da boa galhofa que tiveram.

 Junta a cavalaria em Elvas, sai-se o tenente-general com ela ao sol-posto de Elvas, e depois de ir já fora da cidade mandou uma carta ao comissário, de como ele ia já com a cavalaria não fizesse dilação [ou seja, não se demorasse], que antes de amanhecer se pusesse em tal posto; e que fizesse a coisa com ordem e valor, como ele o esperava da sua pessoa. De modo que, quando o comissário mandou a Elvas o soldado com a carta, lhe disse que ele se ia para a ribeira de Olivença com a cavalaria e que daí não passava até que ele lhe trouxesse a resposta da carta. De modo que o soldado que mandava o tenente-general com a carta desencontrou-se com o que mandava o comissário a Elvas, que se se toparam ambos não havia de vir para Elvas o que mandava o comissário.

 E assim […] chegou o aviso do tenente-general ao comissário, mas foi ele tal ou estava tal que não se quis abalar dali sem que o soldado que havia ido a Elvas lhe trouxesse a resposta da carta, à qual Dom João da Costa não respondeu, visto ser já fora o tenente-general, e lhe dizer que havia de mandar um soldado com segundo aviso ao comissário, e não quis Dom João da Costa que o soldado se volvesse logo, visto ser fora a cavalaria, já que o podia apanhar o inimigo no caminho a saber da ida da cavalaria, e assim ficou dentro de Elvas.

(continua)

 

Fonte: Manuscrito de Matheus Roiz, pp. 300-303.

Imagem: Combate de cavalaria, óleo de Abraham van der Hoef, séc. XVII.

2 thoughts on ““De como tivemos um choque com a cavalaria do inimigo em uma atalaia sua” – Outubro 1652 – parte 1

  1. Estimado amigo Jorge.
    Una vez más te felicito por tu excelente trabajo de divulgación.
    Permíteme hacer un apunte a raíz del combate que narra nuestro buen soldado Mateus Roiz.
    Me temo que la datación correcta del suceso bélico no es el mes de septiembre. Ya sabes que Mateus escribía de memoria, y no siempre acertaba a fechar correctamente los acontecimientos de guerra en los que estuvo presente.
    La fecha exacta del Combate de la Atalaya de San Gaspar, que así se denomina en realidad el baluarte defensivo y vigía que Mateus llama <>, tuvo lugar el día 3 de octubre de 1652. Fue en sus alrededores dónde las tropas lusas y castellanas se encontraron al amanecer de mencionado día. Actualmente la zona coincide con la Cañada de Sancha Brava, y el esguazo sobre el Guadiana llamado Vado del Moro.
    Ericeira también habla de este singular combate, en el III volumen de su obra, pp. 379-381.
    A su vez el duque de San Germán y Alonso de Vivero narran con mucho detalle lo sucedido, en sendas cartas remitidas a la Junta de Guerra al día siguiente del encuentro.
    La comparación de datos relativos a heridos, muertos y prisioneros que ofrecen ambas partes contrincantes es bastante dispar, si bien suelen coincidir en los nombres de los oficiales más reputados.
    Nada más.
    Continuo expectante a las siguientes entradas de tu magnífico blog.
    Un fuerte aEstimado amigo Jorge.
    Una vez más te felicito por tu excelente trabajo de divulgación.
    Permíteme hacer un apunte a raíz del combate que narra nuestro buen soldado Mateus Roiz.
    Me temo que la datación correcta del suceso bélico no es el mes de septiembre. Ya sabes que Mateus escribía de memoria, y no siempre acertaba a fechar correctamente los acontecimientos de guerra en los que estuvo presente.
    La fecha exacta del Combate de la Atalaya de San Gaspar, que así se denomina en realidad el baluarte defensivo y vigía que Mateus llama <>, tuvo lugar el día 3 de octubre de 1652. Fue en sus alrededores dónde las tropas lusas y castellanas se encontraron al amanecer de mencionado día. Actualmente la zona coincide con la Cañada de Sancha Brava, y el esguazo sobre el Guadiana llamado Vado del Moro.
    Ericeira también habla de este singular combate, en el III volumen de su obra, pp. 379-381.
    A su vez el duque de San Germán y Alonso de Vivero narran con mucho detalle lo sucedido, en sendas cartas remitidas a la Junta de Guerra al día siguiente del encuentro.
    La comparación de datos relativos a heridos, muertos y prisioneros que ofrecen ambas partes contrincantes es bastante dispar, si bien suelen coincidir en los nombres de los oficiales más reputados.
    Nada más.
    Continuo expectante a las siguientes entradas de tu magnífico blog.
    Un fuerte abrazo
    brazo

    • Estimado amigo,

      Muito obrigado pela correcção da data (que já emendei no título) e pelos acrescentos referidos no comentário. De facto, há nas memórias de Mateus Rodrigues diversas datas incorrectamente mencionadas (meses e, por vezes, anos). Não se tratando de um estudo sobre as operações bélicas daquele período, estou de momento somente a apresentar transcrições. Como acontece nestes casos, procurarei dar os relatos apresentados em outras fontes coevas.

      Renovo os meus agradecimentos pelas simpáticas palavras a respeito do blog.

      Forte abraço,

      Jorge P. Freitas

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