“De como tivemos um choque com a cavalaria do inimigo em uma atalaia sua” – Outubro 1652 – parte 2

369645_detail4_max

Continuando um dos episódios recordados pelo soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz). Um recontro de cavalaria nas proximidades de Badajoz, vertido para português (livre do chamado “acordo ortográfico”).

A cavalaria que levava o tenente-general consigo eram dezoito tropas, que constariam de 800 cavalos, com 700 que o comissário lá tinha faziam número de 1.500 cavalos. De modo que fomos marchando, e quando vinha já amanhecendo estávamos nós, os que iam com o tenente-general, dando de comer à cavalaria em o ribeiro de Fiolhais, que está junto do Alcornocal de Badajoz, e fazia conta o tenente-general de se ir logo marchando e por se onde havia ajustado com o comissário. De modo que, assim como o comissário viu que lhe tardava tanto o soldado que havia mandado a Elvas, mandou logo outro soldado à rédea solta aonde estava o tenente-general, que bem sabia aonde, a dar-lhe conta de como não tinha marchado dali por amor da falta do soldado, que visse Sua Senhoria o que havia de fazer. Cuidava o tenente-general que estava ele já em o posto, e assim quando vimos todos correndo o soldado, imaginávamos que era outra coisa, senão quando o soldado se descarta dizendo que ainda estaca o comissário em a ribeira de Olivença, que ainda eram boas três léguas do posto de onde ele se havia de ir a meter antes que amanhecesse.

Tal ficou o tenente-general com o aviso do comissário que imagino que o matara se o tivesse diante de si naquela hora. E assim, com toda a paixão e ira, disse ao soldado: “Vai e diz ao futre [termo ofensivo] e bêbado do comissário que logo vá com todos os diabos a fazer o que lhe está ordenado, que devia de se emborrachar esta noite, por isso fez tal parvoíce”. E assim que em o soldado indo com o aviso, ficou o tenente-general bufando e dizendo os diabos contra o comissário, porque via que já não se podia obrar nada, antes podia haver algum aviso de modo que o inimigo juntasse a sua cavalaria, como de feito assim foi. Que assim como o comissário chegou à ribeira de Olivença, foi sentido de uma partida do inimigo que ia tomar língua a Olivença. E apenas viu a cavalaria, se foi à rédea solta até Badajoz avisar seu governador, o qual mandou logo chamar muito depressa as seis companhias que estavam em Talavera, as quais vieram logo em improviso. De modo que assim como o soldado que o comissário havia mandado ao tenente-general lhe chegou e lhe deu a boa resposta que o tenente-general lhe mandava, mandou logo montar as tropas e marcha com elas como um desesperado e com grande passo, que como era de dia não podia fazer dilação senão ir de fio [ou seja, em coluna] endireitando com atalaia do inimigo, para que dali mandasse uma partida aos olivais. Que não há dúvida que ao inimigo sucedia um bem mau dia, o qual ele imaginava nos desse, porque sabia mui bem que para a cavalaria nossa, de que ele tinha aviso, que tinha bem com que lhe fazer dano, que fazia 20 tropas com as de Talavera, e as que o comissário levava eram 16, mas tinha o inimigo grande terço em ter tropas e ser à sua porta, que vai a dizer muito.

Assim como o inimigo avisou as tropas de Talavera, logo mandou montar as 14 tropas da praça e se armaram todos muito bem [NOTA: tal como acontecia entre a cavalaria portuguesa, só nas ocasiões em que se antevia um combate de cavalaria mais forte – e não uma mera escaramuça – é que as companhias iam buscar aos armazéns todo o equipamento defensivo disponível, como armas de corpo (couraça composta de peito e espaldar) e capacetes]. E se vieram pôr em os mesmos outeiros da atalaia aonde o nosso comissário levava o fio, que quando ele lá chegou, já o inimigo havia muito que lá estava.

Assim como o comissário abalou de onde estava, também o tenente-general foi logo marchando pela campanha acima nas suas costas. O comissário ia muito mais avançado do que nós e levava batedores ao largo, os quais deram vita das tropas de Talavera que se vinham incorporar com a sua cavalaria, que estava junto de sua atalaia. Tanto que os batedores viram as tropas souberam muito bem que eram as de Talavera, e vindo correndo dar aviso ao comissário, se até ali havia ido muito depressa, muito mais foi dali em diante com o sentido de ir derrotar aquelas tropas; e no mesmo tempo mandou um soldado pelo alcornocal dentro correndo com um aviso ao tenente-general, de como ia buscar as tropas de Talavera, que tinha aviso que elas vinham em marcha no fio da atalaia nova, que Sua Senhoria podia vir marchando a bom passo até a dar vista dos altos da atalaia, que até ali tudo eram grandes azinhais.

Assim como o comissário saiu dos matos à campanha rasa, logo as sentinelas que o inimigo tinha, assim na atalaia como em os altos, viram ir muito bem o comissário, e logo foram avisar o seu general da cavalaria, que estava ali mesmo com as tropas, o qual se formou muito bem e esteve esperando pelo comissário, que muito bem sabia já o que ele levava. Mas até este tempo nunca o inimigo soube da outra nossa cavalaria que o tenente-general levava atrás, porque tudo até ali são matos de grandes azinhais.

(continua)

 Fonte: Manuscrito de Matheus Roiz, pp. 303-305.

Imagem: Combate de cavalaria, óleo de Pieter Meulener, séc. XVII.

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s