Sobre Jorge P. de Freitas

Professor e investigador na área da História Militar. Licenciado em História e Mestre em História Moderna pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Membro correspondente do Conselho Científico da Comissão Portuguesa de História Militar.

Lugares da Galiza rendidos a Portugal em Dezembro de 1667

Quase no final da Guerra da Restauração, na fronteira da província de Trás-os-Montes, uma sucessão de acções de guerra ofensiva por parte do exército português levou o receio aos moradores de muitas localidades da Galiza. Em consequência, os moradores de mais de 100 dessas localidades renderam-se a Portugal – ou, mais correctamente, foram coagidos a submeter-se às exigências do exército de Trás-os-Montes, permanecendo nas suas casas e terras, mas entregando uma parte de bens e haveres aos portugueses. Uma forma de estabelecer o modus vivendi em zonas de conflito muito comum, por exemplo, durante a Guerra dos 30 Anos.

A primeira incursão foi conduzida pelo sargento-mor de batalha Francisco de Távora, irmão do governador das armas de Trás-os-Montes, D. Luís Álvares de Távora, Conde de São João da Pesqueira (futuro 1.º Marquês de Távora, título que receberia em 1669). Estando o governador das armas ausente da província, mas com ordem dada para que o seu irmão avançasse com a operação, entrou Francisco de Távora 11 léguas Galiza adentro (cerca de 60 Km) até ao Vale de Lobeira, com 400 cavalos às ordens do tenente-general D. Miguel da Silveira e 500 infantes comandados pelo sargento-mor Luís de Barros Gavião. Por serem as povoações daquele vale riquíssimas (a expressão é do próprio sargento-mor de batalha, em carta enviada ao Conselho de Guerra), se trouxe dali presa e saque considerável. Seguiu-se uma segunda incursão, comandada pelo mestre de campo Duarte Ferreira Chaves, e uma terceira, a cargo do comissário geral da cavalaria João de Almada de Melo, ambas com bom sucesso.

Na carta enviada ao Conselho de Guerra por Francisco de Távora são descritos os motivos e os pormenores da incursão, bem como a listagem das localidades que se submeteram a Portugal.

Entendendo o Conde meu Irmão, Governador das Armas desta Província, que destruindo o país de Galiza não só segurava estas raias, mas sustentando as nossas tropas impossibilitava também aos inimigos, porque do dano que experimentavam aqueles moradores resultava à sua cavalaria a perda dos quartéis a falta dos mantimentos, procurou e conseguiu todo este ano que assim se executasse. E vendo os Galegos que se achavam forçados, ou a largar a pátria ou a viver debaixo de nosso consentimento, quiseram e escolheram comprar a assistência de suas casas a troco de seus cabedais, e assim se reduziram todos os lugares que contém o papel que envio a Vossa Majestade, a pagar uma contribuição (que se agora não é tamanha), tendo por certo que assim que se contarem os anos crescerá a quantia. Seguindo pois, Senhor, a máxima do Conde por lograr o mesmo fim, me resolvi sábado, que foram 10 do mês (tendo estas armas a meu cargo) a entrar (com quatrocentos cavalos mandados pelo tenente-general Dom Miguel da Silveira, e quinhentos mosqueteiros que governava o sargento-mor Luís de Barros Gavião) no Vale de Lobeira, onze léguas pelo interior, composto de dezanove riquíssimas e grandes povoações, aonde nunca haviam chegado os nossos soldados, e de que tiraram boa presa e grande saco. O mestre de campo Duarte Teixeira Chaves e o comissário geral João de Almada de Melo, a quem por diversas partes mandei fazer segunda e terceira invasão, tiveram a mesma felicidade, obrando-se tudo sem a menor resistência, como sucederá sempre que com o nome de Vossa Majestade intentemos outras empresas.

Guarde Deus a muito alta e poderosa Pessoa de Vossa Majestade […].

Chaves, 13 de Dezembro de 1667.

Segue-se uma extensa lista com os nomes das 112 localidades, alguns dos quais de difícil percepção devido à caligrafia:

Feris de Lima

Vila Maior de Gironda

São Milhão

Medeiros

São Cristóvão

Santa Vaia

Mandim

Valtar

Ninho d’Águia

Vila Maior da Boa Hora

São Paio da Badis

São Lourenço de Tozende

Sanenago

Rubias

São João

Mendim

Santiago de Baixo

Requiones

Vilar d’Alhos

Pedroza

Bouço

Graveliz

Lijões

Gumanriz

Eixames

Godem

Tamagelos

Tamangos

Alourazes

Mar

Tourem

Olmbra

Rozal

Bouzeins

Moinhos

Salcharens

Nogueira

Prado

Gomar

São Fernando

Prado Novo

Huetras

Larosa

Pijeires

Pijeiros

Pereiro

Sabuzedo

Parada

Covelos

Moreiros

Vilar de Lebres

Moimenta

Lobos

Tresmores

Coaledo

Vilaça

Ataes

Pivadaz

Nuzelos

Vilar de Servos

Herreros

a Madonelha

Sendim

São Martinho

Lubença

Asezedo

Carçosa

Vila de Rey

Soutelo

Santo António

Santo Antoninho

Alvaredos

Ababidis

Pinheira

Infesta

Santa Valha da Lima

Chamuzinhos

Pardieiros

Lovanzes

Soutelo da Limia

São Pedro da Limia

Rebordachã

Somis

Satharis

Lodozelo

Freixo

Pambre

Suzedo da Pena

Escarnabois

Coais

Souto Chão

Cherrande

Arsolá

Crastelo de Baixo

São Vicente

Dona Elvira

Vergunda

Riós

Vilarinho da Toussa

A Barreira

Vilar de Flor

Tameirão

Crastelos de Moterrey

Passos

Gueiçães

Covas

Fiães

Arsadagues

Salharinz

São Salvador

Barria

Covis

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1668, mç. 28, consulta de 11 de Janeiro de 1668.

Imagens: Castelo de Chaves, na actualidade; e retrato do governador das armas de Trás-os-Montes em 1667, o Conde de São João da Pesqueira, D. Luís Álvares de Távora.

Bombardeiros da Nómina em 1641 – um documento

Os Bombardeiros da Nómina, corpo criado em 1515 por D. Manuel I e assim designado por serem os militares nomeados por designação régia, ainda existiam em 1641. Nesse primeiro ano da Guerra da Restauração estavam abaixo da dotação prevista de 100 elementos (mais um condestável, que os comandava). A relação, feita em 25 de Junho de 1641 e apontada no Livro da Nómina, contém a descrição de cada um. Aqui se transcreve essa relação, desdobrando as abreviaturas e vertendo para português corrente a grafia:

  • Domingos Fernandes, condestável da capitania da Armada, morador ao Ver-do-Peso, casado com Isabel Gonçalves, de 37 anos, pequeno do corpo, barba castanha.
  • João Francisco, morador a São Miguel de Alfama, casado com Ana Vieira, de 48 anos.
  • Noutel Dias, morador às Janelas Verdes, casado com Isabel Mendes, de 42 anos, meão, barba ruiva, cabelo da cabeça negro e crespo.
  • Estêvão Nunes, morador a São José na rua do Carrião, casado com Maria Rodrigues, de 29 anos, alvo do rosto, barba loura, nariz comprido.
  • João Gonçalves Bocarra, morador a Jubetaria Velha, casado com Domingas de Almeida, de 38 anos, boa estatura, ruivo da barba, uma ferida na mão direita.
  • Gabriel Gonçalves, viúvo, morador a São Paulo em casa de Maria Lopes, sua tia, de 35 anos, uma ferida no pulso da mão esquerda, seco, cabelo negro.
  • Domingos Ferreira, morador na Adiça, casado com Jerónima Luís, de 42 anos, seco da cara, esquerdo, um sinal de ferida na testa.
  • Pedro Gonçalves, morador a Santo Estêvão de Alfama, casado com Ana Fernandes, de 50 anos, alto, barba loura.
  • Jorge Rodrigues, morador no Beco do Espírito Santo em Alfama, casado com Antónia Dias, de 35 anos, meão, cheio de rosto, um sinal de ferida na testa.
  • Miguel João, morador ao Espírito Santo, casado com Maria Ribeiro, de 42 anos, seco de cara e amarela, moreno do cabelo.
  • Francisco Pereira, morador na Rua Nova da Palma, casado com Marquesa Antunes, de 35 anos, miúdo do rosto, meão, barba negra, sobrancelhas cerradas.
  • Vicente da Silva, morador no Castelo, casado com Maria Francisca, de 30 anos, alto, bem disposto, bigode castanho, olhos grandes.
  • Manuel Rodrigues, morador ao pé da Calçada de Santa Ana, casado com Isabel Branco, de 38 anos, homem pardo, bem disposto.
  • Luís Martins, morador na Calçada de São Francisco, casado com Maria Nunes, de 27 anos, alto, vermelho do rosto, pouca barba, olhos encovados.
  • Baltasar Gonçalves, morador no Adro de Santo Estêvão, casado com Joana Rodrigues, de 30 anos, boa estatura, a ponta do nariz romba, um sinal de ferida na testa.
  • João Rodrigues, morador ao Hospital das Chagas, casado com Lourença das Neves, de 30 anos, meão, pouca barba, sinais de pólvora no rosto.
  • Domingos Correia, morador a São Paulo, casado com Maria Jorge, de 38 anos, meão, moreno de cara, um dente de cima menos.
  • João Fernandes, morador à Porta da Cruz, casado com Damiana André, de 50 anos, meão, quase branco, uma ferida na testa.
  • Domingos dos Rios, morador à Rua do Saco, casado com Maria de Azevedo, de 66 anos, alto e seco, branco, um pique de ferida na testa.
  • João Rodrigues de Alhandra, morador no Castelo, casado com Maria Cardosa, de 45 anos, bem disposto, seco do rosto, barbinegro que começa pintar de branco.
  • Inácio Martins, morador no Castelo, casado com Bastiana Dias, de 36 anos, alto, moreno, nariz largo, cabelo negro e crespo.
  • Domingos da Costa, morador no Castelo, casado com Maria Ximenes, de 35 anos, cabelo negro, olhos grandes.
  • João Domingues Baldes, morador ao Chiado, casado com Maria Carvalha, de 39 anos, alto, bem disposto, barba castanha, cheio do rosto, montanhês.
  • Cosme Rodrigues, morador no Castelo, casado com Inês Fernandes, de 35 anos, meão, nariz agisenho e cabelo preto.
  • Pedro Fernandes, casado com Mariana da Costa, morador a São José, de 30 anos, miúdo do rosto, olhos encovados, estatura meã e magro.
  • António Soares, casado com Maria Quaresma, morador a São Nicolau, de 35 anos, alto e magro, sobrancelhas negras e cerradas, alvo do rosto.
  • Manuel de Lacerda, casado com Maria dos Santos, morador ao Hospital dos Palmeiros, de 30 anos, vermelho do rosto, nariz um pouco chato, e bem disposto.
  • Domingos Simões, casado com Bastiana Antunes, morador no Castelo, de 21 anos, alto, bem disposto, olhos grandes, uma ferida na cabeça, da parte direita.
  • Luís João, filho de João Coelho, natural de Colares, de 30 anos, moreno, uns sinais de costura por baixo da orelha direita, cabelo negro, sobrancelhas cerradas.
  • João Gonçalves, casado com Maria Manuel, morador a São João de Deus, de 45 anos, bexigoso, cabelo negro, e meão.
  • Simão Delgado, casado com Maria Jorge, morador no Adro de Santo André, de 30 anos, homem pardo.
  • Sebastião de Bonano, casado com Maria Pereira, morador na Rua do Caldeira, de 40 anos, bexigoso, italiano de nação.
  • Bernardo Martins, casado com Margarida Gomes, morador na Travessa da Espera, de 40 anos, alto, amarelo do rosto e pouca barba.

Fonte: ANTT, CG, Decretos, 1641, mç. 1, n.º 221, relação anexa ao decreto de 8 de Outubro.

Imagem: Lisboa no século XVII.

Um “regresso” a Alcântara

Há cerca de oito anos foi publicado um artigo em duas partes, sobre a tentativa de tomada de Alcântara (Alcántara, em castelhano) pelas forças comandadas por D. Sancho Manuel de Vilhena, que viria a ser Conde de Vila Flor. A tentativa foi gorada, mas o assalto à ponte romana de Alcântara e a destruição parcial de um dos arcos da mesma foi descrita por fontes portuguesas e espanholas. Os combates tiveram lugar nos dias 25 e 26 de Março de 1648 (clique nas datas para aceder aos respectivos artigos).

Trezentos e setenta anos decorridos sobre a investida portuguesa, o aspecto da ponte e dos lugares onde decorreram os combates, observados a partir da margem onde se situa Alcântara, são apresentados nas fotos acima. A ponte seria parcialmente destruída – e mais tarde reconstruída – em outras duas ocasiões: na Guerra da Sucessão de Espanha e durante as Invasões Francesas, que a historiografia espanhola denomina Guerra da Independência.

Fotos do autor do artigo.

Um “regresso” a Membrío

Era esta vila de mais de 100 vizinhos [c. de 450 habitantes] e com fama de rica pelo trato que tinha das lãs, situada em um lhano, e quase toda de casas terreiras, estava cercada de trincheiras de terra e barro, e as mais das bocas das ruas com suas costaduras da mesma; tem no meio uma igreja com sua torre quadrada, alta e coroada de ameias, donde se descortinavam as mais das ruas, ou por suas bocas, ou por cima dos telhados das casas, por serem baixas, defronte da porta da igreja todo o terreno, adro à maneira de meia lua, com uma parede de altura de dois homens, e vinte pés afastada do adro outra parede a modo de barbacã, que testavam nas esquinas das ruas que iam para a igreja, pelo lado esquerdo dela havia um cercado, onde estava algum gado, e pela direita outro cercado a modo de cemitério, que tornejava a sacristia, tudo com suas torneiras, donde se disparava.

(in Rellação do saque e queima da Villa de Membrio em 28 de Abril deste prezente anno de 644 (Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 2ª secção, caixa 2, nº 26.)

A narrativa do assalto de forças portuguesas a Membrío foi aqui publicada há 10 anos (1ª parte, 2ª parte e 3ª parte). Convido-vos a revisitar a referida narrativa, agora com uma fotografia da vila, resultado de uma recente e pacífica incursão à bonita região onde se situa.

Os limites da pilhagem

A violência exercida pelos militares sobre a população civil, num conflito de atrito fronteiriço como o que caracterizou a Guerra da Restauração, era tida como uma infelicidade. O risco de sofrer depredações, ver os seus bens saqueados e a casa destruída fazia parte do quotidiano da fronteira. Mas havia limites para o que era considerado como pilhagem legítima (de acordo com as consuetudinárias leis da guerra). Todo o objecto sacro incorria num interdito, cabendo às autoridades religiosas reprimir e corrigir qualquer desmando efectuado pelo próprio exército a esse respeito.

É a propósito de um acontecimento ocorrido em Julho de 1646 que o bispo de Badajoz dirige uma carta ao mestre de campo general e governador das armas da província do Alentejo (Joane Mendes de Vasconcelos, na ocasião), acompanhando a restituição de um cálice roubado por soldados espanhóis no decurso de uma incursão. A carta é aqui reproduzida com a grafia original, desdobrando-se, no entanto, as abreviaturas.

Guerra entre Principes Christianos y Catholicos de tal manera es siempre por la tierra, q[ue] nunqua llega a ser contra la Religion. De la ultima entrada que hizieron los soldados de Castilla, entiendo a saver troxeron un recado de dicir missa de de un oratorio, ó érmita donde estava y aun que he hecho toda la diligencia possible para rescatarle, no he podido descubrir mas q[ue] esse calix. Remitole a Vossa Excelencia para que se mande restituir a cuyo era, y aun q[ue] no le puedo offrecer que los soldados no se atreveran otra ves a tal. le offresco hazer de mi parte quanto pueda y espero que Vossa Excelencia que puede, lo remediará en los de allá quando se offresca ocazion, y siempre procurará por su parte q[ue] las armas que los hombres trahen unos contra otros, por ningun interes se buelvan contra Dios, que guarde a Vossa Excelencia. Badajos y julio 20 de 1646. El obispo de Badajos.

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, códice mss. 8187, fl. 73.

Imagem: Cena de pilhagem da Guerra dos 30 Anos, gravura de Jaques Callot.

Uma escaramuça na ponte sobre o rio Coa (20 de Março de 1664)

Numa consulta do Conselho de Guerra datada de 2 de Abril de 1664, é lida uma carta de Pedro Jacques de Magalhães, governador das armas do partido de Riba Coa. Nela dá conta o governador que o inimigo arruinou as pontes do rio Coa, tendo ele, Pedro Jacques, mandado reedificar a principal com madeira, para assim ter comunicação com a praça de Almeida. Mandou também fazer uma atalaia sobre a mesma ponte, guarnecida com 20 mosqueteiros. O que, sabendo o inimigo, veio em 20 de Março com 600 cavalos e 1.000 infantes , para ver se a podia destruir. Avisado deste intento, Pedro Jacques mandou ocupar com mosqueteiros os altos de uma e outra parte do rio, das quais o inimigo foi rechaçado e se retirou com perda, sem conseguir o que pretendia, travando-se escaramuça com os batalhões da vanguarda, em que lhe mataram e feriram soldados, procedendo os portugueses com valor.

E como as companhias de cavalos se encontram muito enfraquecidas, mandou o governador das armas o tenente-general da cavalaria D. António Maldonado à comarca de Lamego, para tomar os cavalos que nela houvesse, a fim de as reequipar.

O Conselho deu parecer que, para além de enviar os agradecimentos a Pedro Jacques, se lhe enviasse dinheiro para pagar os cavalos que se tomarem para remontar as tropas.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1664, mç. 24, consulta de 2 de Abril de 1664.

Imagem: David Teniers, o Jovem, Interior da sala da guarda; MLibrary Digital Collections, University of Michigan.

Caçadores em tempo de guerra

Numa passagem da narrativa de Matheus Roiz, já trazida aqui há alguns anos, era feita menção à temível pontaria de alguns elementos da população da vila de Oliva, que eram caçadores e que ajudavam à defesa da localidade, atacada pelo exército português entre 8 e 11 de Janeiro de 1654:

[C]omo vinha já amanhecendo, não era possível aparecer ninguém onde chegasse arma de fogo do castelo, porque assim que aparecia algum nosso onde o inimigo lhe chegasse, já ele estava morto; que, de 200 homens que no castelo estavam, não havia um só que não fosse caçador do ar [caçadores de aves], e assim nunca jamais erravam tiro que fizessem. (MMR, pg. 375)

A prática da caça, embora estivesse sujeita a legislação específica e dependesse da autorização régia ou do donatário do domínio senhorial, era efectuada em determinadas épocas do ano por homens do povo. Os caçadores dispunham de armas de fogo que diferiam dos mosquetes e arcabuzes utilizados como arma de guerra. Ao contrário destes, cujo cano era de alma lisa, as armas dos caçadores tinham cano estriado (um processo inventado na Alemanha por volta de 1520) e – como é possível verificar na imagem que acompanha este artigo – uma configuração um pouco diferente dos mosquetes, a cuja versão mais pesada, no entanto, se assemelhavam. Isto conferia uma maior precisão ao tiro, mas com a desvantagem de ser mais moroso de carregar (pelo cano) que as armas de alma lisa. Claro que num cerco, como no caso testemunhado por Matheus Roiz, em que os defensores dispunham da protecção de uma muralha e não estavam sujeitos à pressão de remuniciarem a arma com a rapidez exigida aos soldados que se encontravam em campo aberto, a vantagem de um maior alcance prático e precisão não era de desprezar.

Imagem: Caçadores descansando num celeiro. Óleo de Gerard Donck.

Marquês de Marialva

Retrato de D. António Luís de Meneses, 3.º Conde de Cantanhede e 1.º Marquês de Marialva (1596-1675).

Comandante do exército português que triunfou nas batalhas das Linhas de Elvas (14 de Janeiro de 1659 – nesta batalha comandou o exército de socorro que acudiu às forças sitiadas em Elvas, as quais estavam sob o comando de D. Sancho Manuel de Vilhena, que viria a ser Conde de Vila Flor) e de Montes Claros (17 de Junho de 1665).

The use of uniforms during the War of the Portuguese Restoration – the cavalry

O presente artigo em língua inglesa é o segundo de uma tradução de dois artigos já publicados há anos. Por curiosidade, num curto espaço de tempo alguns leitores de língua inglesa solicitaram-me que lhes fornecesse informações sobre o eventual uso de uniformes durante a Guerra da Restauração. Deste modo, a tradução dos dois artigos corresponderá à resposta a essas solicitações. Por motivos pessoais e profissionais, não pude dar a continuidade tão rápida quanto desejava à sequência de artigos, mas ela aqui fica agora.

This post in English language is the second part of a translation of two posts published here years ago. Recently, several English speakers, followers of this blog, asked me about the use of uniforms in the course of the War of Portuguese Restoration. I decided to translate the two posts in order to answer their requests. The second is about the cavalry.

Cavalry

While the use of proper uniforms was in its first steps in the infantry (much because of English and French influence, though the precursory Swedish Army of the 30 Years War is also worth of mention), the units of horse maintained their usual undistinguished look during the war. First of all, because the defensive equipment of the cavalry was similar among all Western European armies of the period: buff coats (with or without sleeves), corslets composed of breast and backplate (or at least the first) and helmets or hats. Second, as the company was the basic administrative unit in the Portuguese and Spanish cavalry, and the financial problems in maintaining the men, equipment and horses of the unit was the primary concern of each captain, there was no point to even think about extravagances like uniforms.

Even so, it is possible to find some references to uniforms in the cavalry, but – unlike the infantry – none concerning Portuguese units. The Count Schomberg’s Company of Guards, during the campaign of Alentejo in 1663, wore blue coats over the body armour. Two years later, at the battle of Montes Claros, the same company wore red coats with white crosses. Least clear was the use of red coats by the English horse, like their infantry counterpart, but that’s a possibility. Another distinct unit mentioned by the sources was the Guard cavalry of Don Juan de Austria, using yellow coats with red cuffs at the battle of Ameixial in 1663. And an English report about the battle of Montes Claros in 1665 reffers the cavalry regiment of the German Count of Rabat (of the Spanish army commanded by the Marquis of Caracena) all clothed in buff coats, though that could mean just the lighter piece of deffensive equipment a horseman would wear, not any kind of textile coat used over the body armour. These are the exceptions found in the sources referring the cavalry of the War of the Portuguese Restoration about the use of some kind of uniforms.

 

Bibliography:

A Anti-Catastrophe, Historia d’ElRei D. Affonso 6º de Portugal, publicada por Camilo Aureliano da Silva e Sousa, Porto, Tipographia da Rua Formosa, 1845.

“A Relation of the last summers Campagne in the Kingdome of Portugall, 1665”, anonymous (by an officer of an English Regiment of Horse), 23 June 1665, The National Archives, SP89/7, fl. 49.

Image: Detail of a painting by Jacques Callot (at Versailles Museum). French army dragoons, from Louis XIII period, wore red coats with white crosses, similar to the “uniform” described in use by Count Shomberg’s Company of Guards at Montes Claros. However, about thirty years later, by 1665, the cut of the cloth in military fashion would have changed.

The use of uniforms during the War of the Portuguese Restoration – infantry

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O presente artigo em língua inglesa é o primeiro de uma tradução de dois artigos já publicados há anos. Por curiosidade, num curto espaço de tempo alguns leitores de língua inglesa solicitaram-me que lhes fornecesse informações sobre o eventual uso de uniformes durante a Guerra da Restauração. Deste modo, a tradução dos dois artigos corresponderá à resposta a essas solicitações.

This post in English language is the first part of a translation of two posts published here years ago. Recently, several English speakers, followers of this blog, asked me about the use of uniforms in the course of the War of Portuguese Restoration. I decided to translate the two posts in order to answer their requests. The first of them is about the infantry.

Infantry

The clothes supplied to the infantrymen of the terços (optimistically, on an anual basis) did not follow a strict uniformity in colour or pattern. It is most probable that coats, shirts and breeches occasionally had a common pattern or colour based on the facility of approvisionment from the supplier, but this was not imposed by any rule. From contemporary paintings we can see that several shades of brown and grey were usual among foot soldiers. However, there was little distinction between military and civilian clothes during most of the period of the war. Changes on fashion, especially coming from France, would dictate some differences on the patterns of coats, breeches and hats as the conflict went by.

There are some misconceptions about 17th century military clothing that still survive, usually rendered by unadvised amateur illustrators, mining the understanding of the real evolution of military (and civilian) fashion. Thus, we can still find today some drawings and paintings supposedly of “infantrymen from the War of Portuguese Restoration” which are heavily based on (or even unashamed copies of) illustrations from Jacob de Gheyn’s The exercise of arms, published in 1607. Military and civilian fashion had evolved much in the 1640s, 50s and 60s and soldiers costums resembled little with those of the late 15th and early 17th centuries.

Foreign influence was behind the first signs of the use of uniforms by Portuguese infantry during the 1660s. French and English infantry that fought alongside the Portuguese in the 1660s wore uniforms: red coats lined in different colours for each of the English regiments, and pale grey (or grey-white), probably also lined in different colours, for the French regiments; and the German-Neapolitan regiment which changed sides in 1663, after the defeat of the Spanish army of Don Juan de Austria, was put under French command and received the same pale grey uniforms of the French infantry.

Except for the English, which began using uniforms in 1645 with the New Model Army of Cromwell, the examples mentioned above may have relied on the choices of the field commanders, though in France the use of uniforms was in course in the 1660s. Some units of the Spanish army were described using uniforms by this late period of the war as well. As for the Portuguese army, the most detailed contemporary account on the use of uniforms was published in the monthly newspaper Mercurio Portuguez, in April 1664:

“On the 14th (…) by the afternoon did a splendid parade and military exercise at the Terreiro do Paço [the large place in Lisbon by the river Tagus, which was rebuilt and further enlarged after the earthquake of 1755 and is now officially called Praça do Comércio, though the older name is still widely in use] (…) the Terço da Armada [the elite infantry terço of the Navy – or, as we would call them today, Marines], of which is mestre de campo Simão de Vasconcelos e Sousa; all of them went with green coats, faced and lined in yellow; those of the mestre de campo and the officers and of some soldiers were more expensive, conforming to the posessions of each one, but the colours were the same; and so were the colours [infantry flags] and the painting on the drums (…).”

“on the 17th, also by the afternoon (…), did a similar parade and exercise at the same Terreiro the new terço of the garrison of this City of Lisbon, of which is mestre de campo Roque da Costa, all of them with blue coats faced and lined in red, more or less expensive, depending on the posessions of the wearers.”

Note that the coats were certainly of contemporary French style, following the fashion introduced by Count Schomberg.

References: Mercurio Portuguez, com as novas da guerra entre Portugal, e Castella.

Image: Portuguese soldiers on parade on Terreiro do Paço, detail of a painting by Dirk Stoop, mid 1650s.

O contrato com os capitães de cavalos da província da Beira (1663-1664)

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A introdução do contrato com os capitães de cavalos em 1647 foi uma medida destinada a reorganizar e a conferir maior operacionalidade à cavalaria do exército português. Sobre este assunto foram já publicados artigos aqui, aqui e aqui. Inicialmente só abrangeu a cavalaria do exército da província do Alentejo, por ser aí mais numerosa e mais necessária. Após a chegada do Conde de Schomberg a Portugal, o contrato foi alargado aos outros exércitos provinciais. A medida foi tomada para travar uma reorganização mais profunda que o Conde tinha pretendido: a implementação do sistema regimental, que poria fim aos privilégios dos capitães de cavalaria, principalmente à sua ampla autonomia na condução da guerra de saque e pilhagem. No caso vertente, o contrato com os capitães de cavalos da Beira foi objecto de uma consulta ao Conselho de Guerra em 1664, retomando as propostas e contra-propostas do ano anterior.

Em 21 de Março de 1663, uma carta régia dirigida ao mestre de campo general Pedro Jacques de Magalhães mandava aplicar o contrato às companhias de cavalos do exército daquela província, à semelhança do que se fazia com as do Alentejo. Os capitães e o comissário geral D. António Maldonado protestaram, tendo lavrado uma petição ao Rei, em 22 de Setembro de 1663, que foi vista pelo Conselho de Guerra, juntamente com outras cartas particulares, incluindo a do próprio comissário geral. É sobre este conjunto de cartas que se pronuncia o Conselho de Guerra em 19 de Fevereiro de 1664, nos seguintes termos:

Dado que os capitães de cavalos e o Conselho de Guerra não concorreram com o seu consentimento neste contrato, (pois fora imposto e não negociado, ao contrário do do exército do Alentejo), não era de crer que os oficiais da cavalaria estivessem de acordo com o dito contrato sem se lhes dar palha para os cavalos e sem haver dinheiro pronto para a contribuição do contrato, como se pratica no Alentejo.

O Conselho foi de parecer que se devia procurar fazer com que, dos lugares da província da Beira, se acudisse com palha para sustento da cavalaria, que se trouxesse para as praças onde assistisse a cavalaria e às casas que servissem de depósito, despendendo-se com a conta e razão que conviesse, “porque noutra forma nunca os oficiais da cavalaria podem ser obrigados às condições dele, faltando-se-lhe com estas”. Já quanto ao pedido de que se levasse em conta os cavalos que morressem nas marchas, o Conselho deu parecer negativo, devendo ser indeferido para que não se desse exemplo que poderia ser muito prejudicial ao serviço de Sua Majestade; “porém os que constar aos oficiais da fazenda que, respeito das largas marchas de Alentejo, Minho e Trás-os-Montes, morreram, e não por culpa de seus oficiais e soldados, sempre será justo se lhe levem em conta, ou faça toda a equidade, como aponta a contadoria geral na sua informação, e o Conde do prado na carta junta, como também o fez por outra o Conde de São João”.

Dando despacho à consulta, o Rei escreveu “Como parece” em 7 de Março de 1664.

Anexa à consulta e datada de 22 de Setembro de 1663, a carta dos capitães de cavalos do exército provincial da Beira é do seguinte teor:

O comissário general e capitães de cavalos da Província da Beira, que Vossa Majestade foi servido mandar por carta de vinte e um de Março de 1663 ao mestre de campo general Pedro Jacques de Magalhães, a cujo cargo está o governo das armas da dita Província, fizesse dar à execução a entrega das tropas, por arca e contrato, a eles, oficiais, na forma em que as têm os capitães da Província do Alentejo, e porque eles, suplicantes, sem serem ouvidos e perguntados para aceitarem o dito contrato, foram obrigados à dita entrega, que aceitaram por ser em tempo que estavam para marchar à província de Alentejo e não perturbarem o socorro com dilações de réplicas.

Pedem a Vossa Majestade, em consideração do amor e bom zelo com que servem, lhe faça Vossa Majestade mandar ver as razões que apontam em o papel que oferecem e remediar o dano que recebem em o contrato.

Em os últimos de Abril acodem os socorros da Província da Beira à do Alentejo, com que ficam os oficiais da cavalaria sem dar verde às suas tropas [colocar os cavalos das companhias em pastagens], e não só perdem o lucro que podiam tirar em lho dar por sua conta, e como o não comem, lhe morrem de enfermidades e com o trabalho de socorrer as Províncias aonde os mandam a melhora dos cavalos. Por que [pelo que] Vossa Majestade deve mandar se lhe levem em conta os que morrerem nestas marchas, derrogando o capítulo tantos do regimento, ou dando-se-lhe cada ano uns tantos cavalos mortos.

A falta do assento da palha diverte a condição do contrato e estilo que se guarda no Alentejo, porque Vossa Majestade foi servido mandar se fizesse a entrega das tropas, o que vem a ser em prejuízo deles, oficiais, por lhe faltar grande parte do ano a palha, com que enfraquecem os cavalos e ficam nisto incapazes de serviço.

A consignação de dinheiro à província nem é bastante para trigo e cevada e primeiras planas, com que lhe não podem pagar a contribuição do contrato, e faltando esta não é possível que eles, oficiais, metam cavalos nas tropas, e diminuindo o valor da entrega nem poderão vencer a dita contribuição da arca e contrato, nem crescerá o número da cavalaria. Por que Vossa Majestade deve de mandar fazer assento de palha como se estila na Província do Alentejo, e nomear consignação certa de dinheiro para satisfação do vencerem com contrato, porque em outra forma não poderão eles, oficiais, faltando-lhe com as condições do contrato, observá-lo.

Espera pelo bem que servem da Real grandeza de Vossa Majestade que, informando-se Vossa Majestade da verdade, lhe faça mercê de mandar compor e tomar meio capaz nesta matéria como mais convier ao serviço de Vossa Majestade. Guarde Deus a Católica e Real Pessoa de Vossa Majestade como todos havemos mister. Almeida, em 22 de Setembro de 1663.

E assim também os mantimentos que correm por conta dos capitães da Província de Entre Douro [e Minho] o ofereciam até agora.

(assinaturas de capitães): João Soares de Almeida, Fernão Cabral, Paulo Homem e mais dois ilegíveis.

Fonte: ANTT, CG, Consultas, 1664, mç. 24, consulta de 19 de Fevereiro de 1664, com anexos relativos a 1663.

Imagem: Pieter Meulener, dois óleos com temas de cavalaria seiscentista.

Breves biografias (1) – um açoriano na batalha de Ameixial: o mestre de campo Sebastião Correia de Lorvela

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Quando comandou o terço de Cascais na batalha de Ameixial em Junho de 1663, o mestre de campo Sebastião Correia de Lorvela era já um veterano nas lides da guerra. Ainda no tempo da Monarquia Dual, em 1638, fora provido no posto de capitão de infantaria de uma companhia que ele próprio levantara nas ilhas dos Açores, e com ela partiu para o Brasil na armada do Conde da Torre (D. Fernando Martins de Mascarenhas), na demonstração de força contra a ocupação holandesa.

Entre 1642 e 1643 andou embarcado, continuando a comandar a sua companhia de infantaria. Na campanha de 1643 é referido como capitão de uma companhia de cavalaria durante os combates que ocorreram no Alentejo e Extremadura espanhola, participando nas acções de Villanueva del Fresno e Alconchel, entre outras. Seria uma promoção em relação ao posto que ocupava anteriormente, todavia regressou ao comando de uma companhia de infantaria a bordo da Armada.

A promoção a mestre de campo viria em 1657, sendo provido no comando de um terço de infantaria que recrutou nas ilhas dos Açores. No cerco de Badajoz em 1658 caiu prisioneiro dos espanhóis, tendo permanecido 8 meses cativo em Madrid. As ocasionais trocas de prisioneiros trazem-no de novo a Portugal. Em 1662 é mestre de campo do terço de Cascais, que durante as épocas de campanha no Alentejo se alojava em Estremoz. Participou na inglória campanha de 1662, durante a qual muitas praças de armas foram tomadas pelo exército espanhol comandado por D. Juan de Áustria. Em 1663 comandou o seu terço na batalha de Ameixial. Foi general da artilharia do Brasil ad honorem, uma patente que acumulava com a de mestre de campo, mas que era meramente honorífica.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Secretaria de Guerra, Livro 27.º, fls. 81 v- 82 v, registo de 10 de Outubro de 1663.

Imagem: Cena de combate, óleo de Pieter Meulener (pormenor).

A situação da Torre de São Gião (São Julião da Barra) em Abril de 1657

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A defesa de Lisboa a partir da barra do rio Tejo foi uma preocupação constante no decurso da Guerra da Restauração. Apesar da ameaça de um ataque da marinha de guerra de Filipe IV nunca ter sido concretizada, essa possibilidade manteve-se real, assente no exemplo de 1580. E em tempos mais recentes, o bloqueio imposto pela esquadra inglesa parlamentarista (em perseguição do Príncipe Rupert, sobrinho de Carlos I de Inglaterra, que viera abrigar-se em Lisboa em 1650) demonstrara as fragilidades da fronteira marítima e fluvial do Reino. Por esse motivo, são frequentes as consultas relativas à situação das fortalezas onde assentava a defesa costeira.

O forte de São Gião (conhecido actualmente por São Julião da Barra) era um dos pontos mais importantes dessa defesa. Numa consulta de 1657 são enumeradas as necessidades que a fortaleza e a sua guarnição tinham, bem como os meios que urgia pôr em prática para as suprir. Aqui fica a transcrição, vertida para a ortografia actual.

Memória de algumas cousas que convém se ordene logo na fortaleza de São Gião

1. Que a pólvora se troque logo com outra, por estar quase perdida a da Torre.

2. Que se façam reparos de sobresselente para as peças e se consertarem todos os que estiverem para isso, e porque as mantas não são de efeito, se deixarão somente doze peças nas carretas para qualquer ocasião repentina e as mais estarão em pontaletes ou abatidas e as carretas guardadas para quando sejam necessárias.

3. Que os soldados que estão naquela praça e forem de serviço se agreguem logo
às companhias dos capitães Martim Correia e Luís da Costa, por não terem ambas mais que cento e vinte.

4. E que os que não estiverem para servir, os desobriguem, e que o mesmo se faça com os soldados de Belém, porque S. Gião se há-de prover com duas companhias revezadas, e os de Belém por ramos, para que tenham sempre os soldados de sua lotação.

5. Que se procurem empreiteiros que tomem por sua conta fazer em S. Gião a obra que se aponta, para reparo da ruína que vai fazendo o mar, e tendo fianças bem abonadas e não passando o custo do que está orçado, se dará a ordem do Conde de Cantanhede para que a obra se faça. E quando não seja conveniente, que os buracos que o mar tem aberto e as pedras que tem comido se reparem pela melhor via que for possível.

6. Que à capela de S. Gião se aplique logo fábrica na forma que dantes a tinha, ou na que parecer mais conveniente.

7. Que o clérigo nomeado para assistir na cabeça seca se faça logo ir com efeito.

8. Que procure o Conselho o modo como se poderão acomodar os capitães e oficiais que agora se escusam em S. Gião.

9. Que para socorrerem as companhias que hão-de guarnecer S. Gião e as mais praças da barra, e os capitães e oficiais delas, convirá que toda a consignação que se paga na Alfândega para estes efeitos se entregue ao tesoureiro geral do Consulado, para que se pague por ele assim como se pagam as mais companhias do Terço da Armada.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1657, Maço 17, memória anexa à consulta de 5 de Abril de 1657.

Imagem: Forte de São Gião (São Julião da Barra) na actualidade.

A tomada da praça de Juromenha por D. Juan José de Áustria em 1662

IMG_8628Transcrição da carta enviada por D. Juan José de Áustria, filho natural de Filipe IV e capitão-general do exército da Extremadura, narrando a conquista da praça de Juromenha na campanha de 1662. Desdobraram-se as abreviaturas e separaram-se algumas palavras, mantendo-se no resto a grafia original. Documento existente no Archivo General de Simancas (cópia do original) e que me foi facultado pelo estimado amigo Julián Garcia Blanco, a quem deixo aqui o meu agradecimento.

Señor

El deseo de adelantar à Vuestra Magestad la noticia de la rendicion de Jurumeña no medio lugar a escrivir à Vuestra Magestad mas de dos renglones de mi mano con el Correo que despache ahoy ocho deste en los quales di a Vuestra Magestad el aviso y la nueva buena de quedar sus Reales Armas dentro della. Remitiendome à otro Correo que seguíria ha aquel, ahora la repito a Vuestra Magestad y pongo de nuevo a sus pies mi gozo, suplicando à Vuestra Magestad se sirva de tener presente en las ocasiones que se ofrecieren el merito que generalmente han hecho en esta los Cabos y oficiales de este ejercito, y a si mismo mandar que las rogativas que se hacian a nuestro Señor y a su Madre Santísima por este subceso se trueguen en rendidas gracias por lo que nos ha favorecido en el, siendo unica  obra de su misericordia y no de los medios humanos la dicha y brevedad con que se ha logrado; y parando a dar cuenta a Vuestra Magestad de los ultimos movimientos que hizo el enemigo y de las circunstancias con que se entrego esta Plaza, digo Señor, que se detuvo dos dias en el puerto que a quatro deste avise à Vuestra Magestad havia ocupado llevando en ambos la peor parte, asi en las escaramuzas que se trabaron como en el daño que la Artilleria de nuestra linea le hizo que fue considerable segun refirieron los rendidos, y si bien luego que llego àquel paraje comenzo a fortificarse y ha hechar gente sobre Guadiana se devio de desengañar presto de poder socorrer por alli la Plaza, por que el dia cinco marcho sobre su costado derecho siempre ativo de cañon de las lineas, y aquella noche se campo a la mesma distancia dellas, medio legua mas hacia el camino de Villavicíoza, a seis proseguio la marcha en la propria forma, y hizo alto sobre el mesmo camino. Y este dia (quizas por mostrarnos su brio ante alejarse mas) intento cargar nuestras guardias de Cavalleria con algunos Batallones, pero haviendolas yo reforzado se trabo una muy viva escaramuza, en que con poca perdida nuestra dejo muertos en la Campaña dos Capitanes de Cavallos, otros tres ò cuatro oficiales de cuenta, y algunos soldados, con que se separaron bien escarmentados de su solier. Y el dia siete hizo un pequeño movimiento por el camino de Villabicioza en que (si bien quedó siempre a nuestra vista) descubrió conocidamente la intencion de retirarse, y voló una casa fuerte que nosotros tubimos ocupada hasta que nos dio vista, a mi me parecio con esto no dilatar el hacer llamada al Governador, advirtiendole la retirada de su ejercito, y que no se le admitiria a ninguna capitulacion si aguardva a que se volasen las minas que estavan cargadas (si bien en la verdad por ninguno de los ataques haviamos todavia llegado devajo de los valuartes, por que conta continua lluvia, de fuegos artificiales, bombas, granadas, piedras, y barriles de Polbora que hechavan en el foso nos imposivilitaron totalmente el pasarle por en cima de la tierra, haviendonos quemado dos ò tres veces las galerias que se havian comenzado à hacer, con que fue preciso enterrarse por todos tres ataques, y la calidad del terreno del foso era tan fuerte que huvieramos sin duda tardado mas de otros ocho dias en de atraversarle y hacer las minas aun que por el de los Españoles no faltaria yamas de una baza para llegar al pie del baluarte), respondio el Governador, pidiendo termino de cuatro horas para juntar sus oficiales, y haviendosele dado, me embio con uno sargento mayor de la Guarnicíon el papel de demandas que va incluso numero primero, pero haviendole negado todas que me parecieron exorbitantes se ajustaron y cumplieron las capitulaciones que contiene la copia numero segundo, de que espero se dará Vuestra Magestad por servido, pues a vista de los enemigos se logró el quitarles por esta campaña un cuerpo viejo y tan considerable de Infanteria como el que Vuestra Magestad reconocera por el papel numero tercero, cuya calidad puedo asegurar à Vuestra Magestad era tan ygualmente buena que a mi y a todos los que la vimos salir nos dejó admirados, y el Governador afirmó que habian tenido mas de quatrocientos muertos. Y que quando llegué aqui con el ejercito se hallara con dos mil quatrocientos Infantes efectivos y cincuenta cavallos, lo que han dejado tocante a Artilleria, petrechos, municiones y viveres va en las dos relaciones numero quarto y quinto, y se tienen algunos indicios de que antes de capitular hecharon en el Rio muchas cantidades de todo; yo he encargado el  Govierno de la Plaza, mientras Vuestra Magestad manda otra coza, al Maestro de Campo Don Fernando de Escovedo que creo dara buena quenta del, y ahora se estan reparando las ruinas mas principales que nuestra Artilleria, Bombas e ataques han hecho en ella que son tantas, particularmente en las obras esteriores que seran menester mas de ocho ó diez dias para acomodarlas de prestado, deshacer las lineas y ajustar todo lo necesario para podernos apartir de aqui; el enemigo se halla oy en Villabicioza, haviendo comenzado en ella unas obras nuevas, y nuestra Cavalleria fue ayer a forrajear hacia Ielves [Elvas], hadonde quemo algunas casas, y trajo cantidad de granos, sin que en estos viajes padezca, como Vuestra Magestad fue servido insinuarme en despacho de dos deste, por que de mas desea ya la parte mas cerca de todos estes contornos donde hay forraje se consigue aun mismo tiempo el sustentarla, y poner en gran desconsuelo a los de Yelves biendo perder su cojecha sin que la vincidad de su ejercito baste a asegurarsela, por lo cual me dicen que tres ó quatro dias a havido algun ruido dentro de la ciudad; esto es todo lo que hasta hoy se ofrece digno de la Real noticia de Vuestra Magestad cuya C. R. P. Guarde Dios como deseo y emos menester. Campo de Jurumeña à 12 de Junio de 1662. Don Juan

Fonte: Archivo General de Simancas, Negociado de Guerra, Leg. Num. 2000, carta de Juan José de Áustria, de 12 de Junho de 1662.

Imagem: Juromenha na actualidade. Foto de JPG.

A praça de Peniche em 1657 – mais um documento relativo à defesa costeira

fortaleza

Por diversas vezes têm sido apresentados aqui documentos relativos à praça de Peniche durante a Guerra da Restauração, nomeadamente em 1644 (dois artigos) e 1657. Ainda relativamente a este último ano, aqui fica a transcrição de uma carta que, embora não assinada, terá sido provavelmente enviada ao Conselho de Guerra pelo governador das comarcas de Leiria e Torres Vedras, Manuel Freire de Andrade, a respeito da fortificação daquela vila.

Sendo Vossa Majestade servido mandar que a vila de Peniche se fortificasse conforme a planta que neste Conselho apresentei, se lhe deu princípio reconhecendo os fundamentos de que se tinha só notícia por informação dos moradores, como manifestei a Vossa Majestade, que afirmariam não haver mais que seis ou oito palmos de área por baixo da qual se acharia um salão capaz de se fundar nele.

Feita agora experiência se acha o contrário, porque tendo já abertos quinze palmos de alto, nem ainda com estacas que lhe fiz meter, de treze palmos mais, se acha firme. Pelo que considerando com grande atenção a capacidade do sítio, o quanto importa a fortificação daquela vila e o grande custo que faria sendo fundada sobre estacadas, me pareceu conveniente mudar-lhe a forma, recolhendo-a por dentro das marinhas com a que a planta junta representa.

Tem por este lugar de mais dos bons fundamentos que promete as vantagens das praças cuja fortificação em algumas partes se retira para o centro, sem participar do maior discómodo que é diminuir sua capacidade, porquanto esta vila a tem grandíssima, e é muito de notar que sendo suas defensas todas compreendidas do mosquete, não pode ser cometida por qualquer parte sem que o inimigo seja ofendido de toda, além de que se junta o fosso das costumadas inundações de área. Com estas comodidades se não deve reparar em algumas casas que corta em uma ponta da vila e em Peniche velho, por não serem de muita consideração, mormente quando quase todas não impedem a fábrica das muralhas, mas somente sua perfeição e fim da obra.

No demais se pode seguir em tudo a outra planta a que me remeto. Vossa Majestade mandará o que for servido. Lisboa, 26 de Setembro de 1657.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1657, mç. 17, carta de 26 de Setembro de 1657.

Imagem: Vista da fortificação seiscentista de Peniche. Foto de JPF.

O Pelourinho, nº 20

O Pelourinho 20

Saiu o número 20 da revista O Pelourinho. Um agradecimento especial ao seu director, o estimado amigo Moisés Cayetano Rosado, por disponibilizar a versão em PDF que ora se apresenta. Aqui ficam as suas palavras:

A finales de agosto lo llevaremos al Seminário Intenacional de Almeida, donde se ofrecerán a los asistentes ejemplares editados en papel. El 11 de septiembre será presentado en Vila Viçosa, donde igualmente se distribuirá entre los asistentes. En octubre se hará en Badajoz.
A lo largo de septiembre y octubre será enviado por correo postal a nuestro directorio (asociaciones, Ayuntamientos, Câmaras Municipales, bibliotecas, particulares…) de España, Portugal y otros países.

A Torre de Belém em Abril de 1657 – um levantamento do estado da fortaleza

baluarte de S. Vicente a par de Belém

Há alguns anos foi aqui publicado um artigo referente à Torre de Belém, a respeito de um levantamento efectuado em 1644 acerca da situação das fortalezas da costa portuguesa.

Treze anos mais tarde, quando se temia que uma armada espanhola atacasse Lisboa, concomitantemente à invasão que o exército comandado pelo Duque de San Germán estava prestes a encetar no Alentejo (e que culminaria na tomada de Olivença), a Torre de Belém encontrava-se no estado que uma consulta do Conselho de Guerra revela. O documento é aqui transcrito na íntegra, vertido para português corrente.

Senhor,

Ao Conde do Prado e Jorge de Melo mandou Vossa Majestade encarregar que fossem às torres da barra desta cidade, e que vendo o que necessitavam, as fizessem logo prover, ordenando a Rui Correia [tenente-general da artilharia – tratava-se do responsável supremo pela artilharia do Reino, hierarquicamente superior aos tenentes-generais da artilharia dos exércitos provinciais, apesar da designação ser idêntica] (ou por onde mais tocasse) lhes acudissem pontualmente com o que apontassem, até com efeito se repararem e proverem na melhor forma que convém. Deram princípio a esta comissão pela Torre de Belém, e conforme o que viram necessita precisamente do que se segue, e para logo.

– Há em Belém 13 peças de artilharia: 7 de 16 [libras], 1 de 24, 4 de 12 e 1 de 10. Toda esta artilharia está no chão, sem mais uso que se estivera em um armazém. Há mister [necessidade urgente de] reparos.

– Para segurar melhor a defesa são necessárias mais 6 peças de melhor calibre que for possível, e de melhor uso serão se forem de género colubrinas.

– Há um falconete de 2 [libras]. Convém haver mais 2 deste género para o ordinário serviço das salvas, porque se forra com isso grande gasto de pólvora. Pelo menos são necessárias mais 200 arrobas dela, porque se acham só 180.

– São necessárias 1.500 balas de 16 [libras], para as sete peças deste calibre que quase as não têm.

– São necessários 12 cestões para se cobrir a praça alta, que sem esta defesa impossível será laborar artilharia na ocasião.

– Há um condestável e cinco artilheiros. Pelo menos há-de haver um artilheiro para cada uma das peças, excepto o falconete.

– Não há nenhum mantimento, como costuma haver nas torres, de três anos a esta parte. Deve prover-se nesta parte como é estilo, reformando-se todos os anos, repartindo-se pelos soldados e tirando-se o novo emprego dos seus socorros.

– A casa baixa, que só é para os mantimentos, entra-lhe o mar pelas costuras da Torre. Há mister [ser] reparada.

– As covas da Torre hão mister o mesmo conserto, para se poder passar a elas a pólvora na ocasião; porque no alto está arriscadíssima, havendo-a.

– O rastilho está podre, sem serviço algum, deve-se-lhe acudir logo.

– Alguns fuzis das cadeias da ponte hão mister [ser] reformados, porque no estado em que estão não têm serviço algum.

– São necessárias 150 varas de pano para cartuchos, 12 peles para lanadas, enxárcia velha para tacos.

– Para as torneiras da praça baixa e principal são necessárias portas e argolas de bronze.

– São necessários 50 chuços, que são de grande serviço e não há nenhum na Torre.

– E porque Jorge de Melo está impedido ainda de assinar a ordem que ele e o Conde haviam de passar para este provimento, deu o Conde conta neste Conselho para que em consulta se faça a Vossa Majestade presente a necessidade de Belém, e porque se tem entendido de Rui Correia que há falta de dinheiro para este e semelhantes reparos que pedem remédio pronto. Parece ao Conselho que de qualquer efeito deve Vossa Majestade mandar acudir a tão grande falta, servindo-se Vossa Majestade de mandar nomear, no lugar de Jorge de Melo, outro conselheiro para com o Conde continuar nas mais fortalezas da barra esta diligência tão importante. E lembra o Conselho a Vossa Majestade que se se não houverem de remediar as faltas que se acharem, inútil coisa será ocuparem-se os ministros nesta comissão, perdendo o tempo que podem aproveitar em outras coisas do serviço de Vossa Majestade. Lisboa, 5 de Abril de 1657.

Acerca dos postos da artilharia portuguesa à época, nomeadamente o de condestável, veja-se este artigo.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1657, maço 17, consulta de 5 de Abril de 1657.

Imagem: Torre de Belém. Fotografia de JPF.

Os familiares dos soldados desertores – um apontamento de 1657

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A deserção era muito comum nos exércitos do século XVII. Durante a Guerra da Restauração, tanto as unidades de soldados pagos como de auxiliares (e em particular estes, pois era sob coerção que na maior parte dos casos serviam) registavam elevados índices de abandono não autorizado das fileiras. As reconduções levadas a cabo pelas autoridades militares, de tempos a tempos, não se limitavam a exigir aos fiadores dos desertores, quando os soldados não eram encontrados nas suas terras e residências, o pagamento estipulado por lei. Por vezes, os familiares eram presos, como forma de coagir os militares ausentes a apresentarem-se. Mas esta forma de represália não tinha o apoio do Conselho de Guerra e era considerada injusta e abusiva, além de contraproducente.

Um caso particular, remontando ao ano de 1657 e ainda na sequência da perda da praça de Olivença, ilustra a forma como a repressão era efectuada sobre os familiares dos desertores e de que modo o Conselho de Guerra apoiava as reclamações dos populares. Um grupo de mulheres detidas na cadeia de Vila da Feira endereçou ao Conselho uma petição para que fossem postas em liberdade. A culpa que lhes fora movida era a de não darem conta às autoridades dos seus maridos e filhos que haviam desertado.

Em resposta à consulta que torna com esta ,e se fez a Vossa Majestade sobre Maria Antónia, Maria Zuzarte [e Maria Gomes] e as mais mulheres nela nomeadas, presas na cadeia da Vila da Feira por não darem conta, umas de seus filhos, outras de seus maridos soldados pagos e auxiliares por se ausentarem das fronteiras, foi Vossa Majestade servido mandar responder, que repare o Conselho, se com este exemplo, terão ao diante grande prejuízo as reconduções dos soldados tão necessários para as ocasiões presentes.

Ao Conselho, e havendo visto a resposta que Vossa Majestade foi servido mandar deferir à consulta inclusa, parece que não convém ao serviço de Vossa Majestade que os fiadores dos soldados sejam obrigados a mais que repor as pagas que receberam, mas não a entregar a pessoa que vive em seu livre alvítrio e anda por donde quer, e com menos razão os pais aos filhos, e as mulheres os maridos; porque de os entregarem, se podem seguir os inconvenientes de os filhos perderem o respeito aos pais, e os maridos terem ruim presunção das mulheres que os entregam ao suplício, e poderem haver filhos e maridos tão libertos, que se lhe dará pouco que sejam os pais e mulheres molestados e vexados, e assim só eles devem ser castigados em suas pessoas, mandando Vossa Majestade encomendar muito aos ministros da justiça e da guerra procurem com todo o cuidado e diligência de prenderem estes e os mais soldados que acharem fugidos, como por várias vezes se lhes tem encarregado, que Vossa Majestade lho terá por serviço, e que as mulheres presas nomeadas nas petições inclusas na consulta citada sejam soltas. Lisboa 15 de Dezembro de 1657.

A 20 de Dezembro foi decretada, por ordem régia, a libertação das mulheres presas na Vila da Feira.

Fonte: ANTT, CG, Consultas, 1657, maço 17-A, consulta de 15 de Dezembro de 1657.

Imagem: Gerard Terborch, “A carta” (trombeta de cavalaria entregando uma carta a duas mulheres).

Estratificação e Mobilidade Social no Antigo Regime em Portugal (1640-1820), de Guilherme Maia de Loureiro

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Do Dr. Guilherme Maia de Loureiro recebi, há alguns meses, a obra Estratificação e Mobilidade Social no Antigo Regime em Portugal (1640-1820) (Guarda-Mor, Lisboa, 2015). Trata-se da publicação da sua tese de doutoramento, um trabalho que muito se recomenda. Aproveito para agradecer de novo ao Dr. Maia de Loureiro a amabilidade em me presentear com um exemplar.

Situação da praça de Peniche em Março de 1657

Fortaleza de Peniche

Já em duas ocasiões anteriores foi aqui focada a praça de Peniche, mais concretamente o estado da vila e fortaleza em 1644. Desta feita, é a capacidade defensiva daquela praça em 1657 que aqui se traz, através de uma carta enviada ao Conselho de Guerra, em 22 de Março daquele ano, pelo então governador de Peniche e das comarcas de Leiria e Torres Vedras, Manuel Freire de Andrade.

Na referida carta, o governador refere que, para dar cumprimento a uma ordem régia recebida em carta de 17 do mesmo mês, deixara a ocupação em que estava, que era a leva dos auxiliares de pé e de cavalo e a recondução de soldados fugidos, e passou a Peniche para fazer a relação do que faltava àquela praça para defesa dela. No seguimento dessa inspecção  apresentou o seguinte relatório:

Nas 2 companhias daquele presídio não há mais de 125 soldados pagos, quando cada uma deveria ter 150, e ainda se guarnecem as Berlengas com 25 soldados.
No forte estão 11 peças de artilharia de bronze, de 18, 16, 10 e 3 libras de calibre, e havia mais 8 ou 10 peças de ferro de pouco préstimo, e nenhuma destas peças tem carretas que não se apeiem logo ao primeiro disparo, por estarem gastas do tempo e do pouco cuidado que se houve no resguardo delas. Há oficiais e madeiras, e se se acudir logo a esta falta, se poderá remediá-la.

Na casa de armas haverá 500 arcabuzes e mosquetes bem tratados, mas não há para eles um só frasco [de carga de pólvora], nem bandolas. Não chega a oito quintais a corda que há no armazém. Haverá no máximo 55 quintais de pólvora, e houve mais uns tempos atrás, mas não sabe o governador os descaminhos que levou. Não havia mais do que nove cunhetes de balas de mosquete e arcabuz. Os artilheiros são ao todo 11, mas um deles é inútil por estar entrevado, dois assistem nas Berlengas, e nos 8 restantes não viu entre eles um homem conhecedor do seu ofício.

Na praça não há abastecimentos de género nenhum, e não só sendo necessários, acresce algum presídio de auxiliares. Há na terra o que dar a comer aos soldados, mas convém ter de sobresselente para qualquer aperto que se ofereça, e também para prover às Berlengas, porque estiveram os soldados desde o início da Quaresma até à data da elaboração do relatório sem comerem, por não dar o tempo lugar a os poderem socorrer, e era o aperto tão grande que os julgaram por mortos, e na véspera de Manuel Freire chegar a Peniche lhes meteram, apesar do risco do mar, vinte sacos de biscoito e um pouco de arroz e outras coisas necessárias, e tudo chegou em boa ordem. Manuel Freire deu ordem para que lhes fizessem chegar mais abastecimentos.

Da fortificação, o que está obrado lhe pareceu bem, porém não é o suficiente, pois que se o inimigo desembarcar e ganhar a vila (que não tem nenhuma defesa) pelas casas que ficam junto do forte, poderá durar pouco a resistência. Manuel Freire diz que se deve fortificar a língua de areia que faz entrada para a vila, porque ao resto o fez a Natureza inexpugnável. E em pouco tempo mal se poderá fazer obra tão grande, porém se pode remediar consertando-se a plataforma que está em Peniche o Velho, metendo-se mais artilharia, porque tem só 3 peças de ferro. E o mesmo se pode fazer na ponte, crescendo-lhe algum terraplano, para ficar a artilharia que se puser em sítio mais superior. E também se deve consertar a plataforma do cais novo, para que fique cruzando a artilharia a entrada de Peniche, fazendo-se de uma plataforma à outra uma trincheira de terra e faxina.

O Rei, por decreto de 14 de Abril, manda advertir a Rui Correia Lucas que tenha em conta as recomendações.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1657, mç. 17, consulta de 27 de Março de 1657.

Imagem: vista aérea da fortaleza de Peniche; imagem do blog Espaço e Memória, da Associação Cultural de Oeiras.

“A Batalha de Montes Claros. Perspectiva de um Engenheiro Militar”, de José Paulo Berger

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O mais recente estudo sobre Montes Claros, da autoria do Coronel de Engenharia José Paulo Berger, é uma excelente análise interpretativa sobre a decisiva batalha da Guerra da Restauração. Assente numa minuciosa investigação do terreno e das suas características, trata-se de um trabalho inovador, cuidadosamente pesquisado e muitíssimo bem escrito, que vem enriquecer a historiografia militar portuguesa. A não perder!

Assistência às viúvas e órfãos (um exemplo datado de 1665)

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No período da Guerra da Restauração não havia grandes perspectivas de sobrevivência, para as viúvas e órfãos de oficiais e soldados de origem popular, que não fosse recorrer à mercê régia e esperar que a sua petição fosse deferida, para que assim pudesse usufruir de alguma assistência pecuniária. O falecimento do marido significava, para a viúva, a privação de uma fonte de rendimento e a perspectiva de uma dependência da caridade para assegurar um mínimo de subsistência – a menos que conseguisse contrair novo matrimónio. Para os filhos ainda crianças, a mesma perspectiva de fome e privações se colocava, pois mesmo que eventuais soldos em atraso que estivessem em dívida ao falecido militar lhes fossem entregues, seria sempre muito pouco para assegurar uma subsistência continuada.

Por via do Conselho de Guerra ou através da mercê régia, era usual ser atribuído o equivalente a uma pequena pensão. O valor era quase sempre muito baixo, mal servindo para garantir, no sentido literal, o pão de cada dia. Aliás, o mesmo se passava em relação aos soldados que ficavam inválidos e que conseguiam obter uma mercê semelhante.

O caso da viúva do tenente da companhia de cavalaria do general Dinis de Melo de Castro é ilustrativo. O general de cavalaria era o único do exército do Alentejo a ter duas companhias sob o seu comando, tendo autorização para ter dois tenentes, um para cada uma delas. Eram também as mais numerosas, o que atestava o desafogo financeiro do fidalgo. Por morte de um dos tenentes, a viúva deste teve de apelar ao Conselho de Guerra.

Foi remetida ao Conselho de Guerra uma petição de Francisca Lopes, viúva de António Bernardo, tenente que foi do general da cavalaria Dinis de Melo de Castro, moradora em Borba. Depois de ter servido 14 anos contínuos, o marido morreu e deixou-a sem remédio algum, nem aos 3 filhos, e por ela ser mulher, não pode ganhar [dinheiro] para si nem para os ditos meninos. Pede a suplicante que seja dada a cada um dos filhos uma praça morta [o equivalente ao meio soldo que usufruía um soldado inválido].

O Conselho de Guerra, embora informado por Dinis de Melo de Castro dos merecimentos e valor do falecido tenente, propôs que fosse concedida apenas a mercê de duas praças mortas para os dois filhos mais velhos, para que tivessem com que se sustentar (um tostão por dia). O pedido teve de ser requerido pela via das mercês. Neste caso, como se vê, a viúva não conseguiu sequer assegurar para si qualquer remuneração compensatória.

Fonte: ANTT, CG, Consultas, 1665, mç. 25, consulta de 12 de Agosto de 1665.

Imagem: Óleo de Nicolaes Maes, meados do século XVII.

Do choque entre as justiças civil e militar – um caso de 1650

peasants-and-soldiers-outside-a-tavern (Jan Havicksz Steen)A definição das fronteiras de actuação da justiça, quando os crimes eram praticados por militares e as vítimas elementos da população civil, era algo muito difícil de estabelecer. Dada a situação de guerra pela qual o Reino passava e a necessidade de não derrogar os privilégios dos militares, a fim de não os desmotivar ainda mais perante as necessidades e perigos que tinham de enfrentar, os processos podiam arrastar-se anos, mesmo quando eram perpetrados em zonas distantes da fronteira de guerra.

O caso que aqui se exemplifica reporta-se a 1650, embora o crime em si tenha ocorrido anos antes. Os contornos exactos não são revelados nos documentos existentes, mas envolveu militares e membros do clero e, como causa primeira, a violação de uma mulher – um acontecimento muito frequente à época.

A consulta do Conselho de Guerra refere uma carta do desembargador João Carneiro de Morais, que o rei enviara ao Conselho de Guerra, sobre um caso passado em Óbidos, havia algum tempo já (a julgar por outras referências inclusas, antes de 11 de Junho, seguramente). Nela se refere que fora feita uma nova devassa “do arrombamento do castelo e cadeia da vila de Óbidos, sem embargo de que na primeira devassa não constou dos delinquentes, contudo averiguara claramente que foram seis soldados do presídio de Peniche, os quais comprados por dinheiro, induzidos de uns clérigos, com ajuda e favor do seu capitão Domingos Freire de Brito, cometeram o dito crime com as maiores circunstâncias de indolência que podia ser, a fim de tirarem um preso que o estava por desflorar uma moça em um lugar ermo, com grande violência”. O caso é complicado, pois mostra alguma hesitação do juiz desembargador em remeter ao Conselho de Guerra estas culpas (ou seja, o processo), uma vez que fora praticado há muito tempo, fora da milícia, e era considerado de lesa-majestade. Refere ainda o juiz os trâmites do processo, o facto de não terem sido remetidas culpas ao capitão, por causa de uma indefinição quanto aos juízos em que o processo deveria correr. O réu teria de ser conduzido à sua presença, o que não acontecera, e o crime era punível com pena de morte (Ordenação, lvº 5, tít. 48, § V). Estando o caso como estava, não podia o juiz fazer nada sem ordem firmada pela mão do Rei. E acrescenta que “estes soldados residem alguns no presídio de Peniche publicamente com grande escândalo e são mui facinorosos; e que contra quatro deles há prova na devassa bastante para a pena ordinária (…) que em tão insolente caso são indignos de todo o favor, e que é cousa infalível que se neste caso não houver um exemplar castigo, cada dia escalarão as cadeias, e que bem notória é a facilidade com que o fazem, pois naquela alçada tem três casos desta qualidade”. O juiz solicita que o Conde de Ericeira faça prender logo o capitão e soldados “que serão três ou quatro somente, os que hoje ali assistem”, e que a carta escrita ao Rei seja remetida ao Conselho de Guerra, para que se determine o que se há-de fazer, pois os processos destes soldados estão quase, afinal, à sua revelia.
O Conselho de Guerra, considerando que “(…) maiormente no tempo presente, em que não só as razões de direito e justiça, mas também as de conveniência obrigam a conservar os tais privilégios [dos soldados] e não os derrogar, com notório perigo de desgostar os soldados, que não tanto com os soldos, mas com o foro dos tais privilégios se animam a arriscar ainda em defensão do Reino, em tempo que as guerras estão tão vizinhas e tanto à porta”. O Conselho de Guerra procurou, na resposta, demonstrar que o juiz desembargador não tinha razão em querer julgar aquele caso, o qual devia ser tratado pelo próprio Conselho, uma vez que não tinha sido revogado o privilégio de que o capitão se valia (nem seria conveniente fazê-lo).

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1650, mç. 10, consulta de 29 de Agosto de 1650.

Imagem: “Soldados e camponeses em frente de uma taberna”, óleo de Jan Steen.

350 anos da batalha de Montes Claros (17 de Junho de 1665)

Passam hoje 350 anos sobre uma das mais importantes batalhas da Guerra da Restauração. O exército português, comandado por D. António Luís de Meneses (Conde de Cantanhede e Marquês de Marialva) e pelo Conde de Schomberg. compreendendo contingentes ingleses e franceses, derrotou nas proximidades de Vila Viçosa o exército espanhol comandado pelo Marquês de Caracena. Não foi uma batalha decisiva no imediato, mas contribuiu para apressar o final de um longo conflito que opunha as duas Coroas peninsulares.

Em breve será construído um Centro de Interpretação da Batalha de Montes Claros. A seu tempo serão aqui dadas mais informações.

Batalille_de_Montes_Claros_-_azulejo_XVIIe_siècle_Palais_Fronteira,_Lisbonne